A Voz Suprema do Blues

Narrativas sônicas

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03 de janeiro de 2021

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Celebrando a chegada de 2021 com suingue e gingado pra renovar os ares de um ano difícil, vamos falar sobre filmes que acabaram de aportar nos canais de streamings ao som de muito blues, jazz e soul. Mas isso não quer dizer que sejam “musicais” propriamente ditos, e sim que suas narrativas são construídas a partir da sonoridade e cadência melódica das imagens. Iremos ver como a composição de trilhas e partituras pode ser personagem, e diz muito da fabulação visual do cinema, e de nossas vidas, mesmo antes de abrirmos os olhos para vislumbrar como tudo se materializa na tela ou fora dela.

Como estamos ainda em plena pandemia mundial, é hora da virada com muito cinema e música, na segurança de nossas casas, pra dançar e refletir ao mesmo tempo! A começar pela Netflix trazendo um dos francos favoritos ao Oscar 2021, “A Voz Suprema do Blues”, dirigido por George C. Wolfe e produzido por Denzel Washington, com Viola Davis e Chadwick Boseman no elenco (que provavelmente receberá indicação póstuma). E por último, mas não menos importante, o provável ganhador na categoria de melhor animação em todas as premiações vindouras, “Soul” de Pete Docter e Kemp Powers, lançamento da Disney Plus.

Acabamos de ter o lançamento de duas produções norte-americanas com esta mesma fusão de narrativa e melodia, porém com outros tipos de escopo em redimensionar um inventário histórico da cultura negra a partir da música: “A Voz Suprema do Blues” (“Ma Rainey’s Black Bottom”) de George C. Wolfe e “Soul” de Peter Docter e Kemp Powers.
O primeiro, mais uma adaptação das obras do dramaturgo August Wilson, novamente produzida por Denzel Washington, que já havia vertido pro cinema a peça ganhadora do Pulitzer “Cercas”, do mesmo autor – e a qual rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Viola Davis. O segundo, “Soul” uma animação da Pixar que teria sido anunciada na seleção oficial do Festival de Cannes 2020, antes de este ter sido cancelado devido à pandemia mundial…

Ambas produções constroem o imaginário visual a partir de uma dança de suas personagens entre o texto e subtexto: seja em planos-seqüências que se movem junto com a câmera no molejo do trompete, ou na batida do pedal do piano, no primeiro caso; seja na abstração da montagem que passeia entre o concreto e o abstrato na passagem de uma nota para a outra, no segundo caso.

Isto porque, mesmo inspirado em fatos reais, “A Voz Suprema do Blues” usa de mise-en-scène teatral, uma pantomima mais estática em poucos cenários, apesar de não se permitir engessar muito justamente por causa da música, acompanhando um dia de gravação do álbum de Ma Rainey (Viola Davis), ícone verídico do blues antes mesmo de Bessie Smith ficar famosa nos anos 1920.

Vale ressaltar que nem tudo são louros. Num viés mais crítico, este que vos escreve já não era um grande defensor da adaptação anterior de August Wilson para o cinema, “Cercas”, apesar de reconhecer o valor do texto e dos diálogos evocados na peça. Sua versão na telona não conseguiu se libertar do típico “teatro filmado” e poderia facilmente ter sido importada para “A Voz Suprema do Blues” com seus cacoetes e estereótipos de palco, já que a trama quase inteira cabe em dois recintos do filme, onde ocorrem as gravações e ensaios de Ma Rainey.

Porém, eis que é justamente a música que liberta o quadro, triangulando a cena com o extracampo sociopolítico. Existe algo muito poderoso em focar numa das primeiras gravações de álbuns da música negra na história, invertendo as polaridades de controle para quem detinha o talento da voz e dos instrumentos, ao invés dos donos do estúdio. Além disso, o blues se embrenha nas próprias identidades cênicas de suas personagens, numa emancipação profissional contra a estrutura de poder do mundo predominantemente branco no topo da pirâmide dos detentores do capital, num duelo entre tons de marrom, verde e amarelo na direção de arte (a pele versus o dinheiro e o ouro). Uma sofisticação de roupas, carros e seguidores que não era dada naturalmente para a classe artística, tinha de ser tirada à força do status quo.

Pois esse protagonismo vigoroso é intensamente canalizado pela já citada Viola Davis (que, vale lembrar, não canta no filme, e sim dubla com intensidade equivalente às gravações originais de Ma Rainey, chegando a dilatar veias na região do gogó), além do saudoso Chadwick Boseman (no papel do jovem compositor ‘revelação’, que é tão rebelde quanto temerário em sua bela malemolência niilista). Sua camaleônica interpretação meteórica, inclusive, não está cotada para as premiações apenas pelo presente filme, mas talvez para indicações simultâneas, como ator coadjuvante por “Destacamento Blood” de Spike Lee, outra produção forte mirando no Oscar 2021 (leia aqui e aqui).

Só que não é apenas a dupla principal que talvez receba reconhecimento de estatuetas, e sim igualmente o elenco de suporte, com nomes do naipe do veterano Glynn Turman, no papel do pianista Toledo, o qual rouba todas as cenas em que aparece. E, incorporando o braço direito de Rainey, o ator Colman Domingo dá vida a Cutler. – Inegável dizer que Colman é uma das vozes mais marcantes do audiovisual contemporâneo, como no filme “Se a Rua Beale Falasse” de Barry Jenkins, e no recente especial de Natal da brilhante série “Euphoria”, no qual também foi bastante teatral, mas cuja pantomima fortuitamente deu certo tanto aqui quanto acolá.
Originalmente publicado na Revista Fórum e ampliado para o Almanaque Virtual:
https://revistaforum.com.br/rede/novo-ano-novas-narrativas-amarelo-soul-e-a-voz-suprema-do-blues-por-filippo-pitanga/