Abrir Portas e Janelas

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11 de janeiro de 2015

Às vezes, quase raramente, surgem alguns filmes que conseguem exceder as expectativas, ou por criar uma nova linguagem narrativa ou por mostrar um diferencial no domínio da arte de filmar. Pois o argentino “Abrir Portas e Janelas”, de Milagros Mumenthaler, consegue um pouco destes dois quesitos. E não apenas por ter sido agraciado com o reconhecimento do Leopardo de Ouro em Locarno 2011, mas sim porque realmente há algo novo no olhar apresentado a partir de um simples argumento: a avó que criou as 3 netas falece, e agora as jovens vão ter de se readaptar na enorme casa a conviverem com seus sonhos e frustrações conjuntas, formando novas alianças e rusgas.

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Um dos grandes trunfos é a própria casa onde se inserem, pois se torna uma personagem de peso tão importante ou até mais do que o das jovens. Em parte porque o olhar da câmera demonstra extremo estudo espacial de cada cômodo, passeando por corredores, saindo por uma porta e entrando em outra que o olhar do espectador nem estava preparado para vislumbrar; ou até, mais ousado, saindo pelas janelas e descobrindo novos conflitos logo abaixo ou acima. Noutra parte a direção de arte também brilha, pois cada mesinha, cada estante, ou mesmo uma cômoda e armário guardam as coisas certas para o momento apropriado dizer muito mesmo sem palavras. – Quase pareceria um efeito bem sucedido que filmes de assombração pediriam de uma casa com fantasmas, com a diferença que este não é um exemplar de horror (apesar de ter uma falecida envolvida e suas reminiscências), mas usa muitíssimo bem os elementos desta cartilha para fortalecer o drama existencial.

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Mas não é só do inanimado que triunfa. Com um olhar reflexivo, calmo e artístico, praticamente pinta um quadro das 3 moças que dividem a casa. Sempre há uma noção espacial muito eficiente sobre como dimensionar os corpos em cena para valorizar os embates psicológicos. Se a ótima Martina Juncadella era a irmã predominante, e a forma como ela se encaixa entre as outras já demonstra isso mesmo sem palavras, as coisas vão aos poucos mudando, botando à prova se alguma conseguirá ou não se libertar daquele miasma inerte, aquela calmaria mortal onde nada e tudo acontecem ao mesmo tempo. E é aí que María Canale, a irmã mais deslocada, realmente começa a virar o jogo e se destacar (tanto na atuação quanto no roteiro, com desenvolvimento lento, sim, mas totalmente não óbvio, como até as roupas que usam metaforiza seus anseios. Por exemplo, o vestido com o mapa-múndi, dizendo que ela gostaria de se libertar).

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Vale ressaltar a belíssima cena das irmãs sentadas no sofá entre luz e sombras como um quadro de Caravaggio, onde só a forma como olham ou deixam de olhar demonstra os diferentes pólos de poder entre elas. As letras das canções também ajudam a contar a história. E, noutro ponto alto, a câmera durante o filme todo prende o ponto de vista do espectador dentro da casa, de onde nunca é libertado, pois mesmo quando elas saem portão afora, são tragadas de volta, pois só existem diante das lentes, e esta jamais sai de dentro do muro daquela casa.

 

Mostra Première Latina – Festival do Rio 2012

 

Abrir Portas e Janelas (Abrir Puertas y Ventanas)

Argentina / Suíça, 2011. 99 min.

Direção: Milagros Mumenthaler

Com: Maria Canale, Martina Juncadella, Aillin Salas, Julián Tello

 

 

 

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5