Acima das Nuvens

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07 de janeiro de 2015

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Como seria confrontar a si mesmo em idades diferentes? E se fosse possível questionar seu eu mais novo perante seu eu mais velho.  Iria se decepcionar? Entraria em negação? O mais novo filme de Olivier Assayas (do excelente “Depois de Maio” e de “Horas de Verão”) traz justamente esta premissa num pacote original. “Acima das Nuvens” tem a diva francesa Juliette Binoche como famosa atriz na meia idade que se depara com o falecimento do mestre dela no cinema, e a proposta de reencenar a obra mais importante que os dois fizeram juntos, porém desta vez interpretando a mulher mais velha que é seduzida e destruída pela mais nova, a quem interpretou no passado.

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Esta premissa já rica em detalhes psicológicos é um prato cheio não só para o domínio cênico de Binoche, como para o diretor e roteirista Assayas trabalhar, para além das armadilhas do tempo, da memória e da idade, o próprio cinema como crônica. Ele traz à discussão o contraste da atuação e imersão no papel de antigamente com a imersão voyerista na vida privada do culto às celebridades, que às vezes importa mais do que os papéis que interpretam e impulsionam carreiras. Escândalos impulsionam carreiras. E o elenco certo foi escolhido para brincar com isso, com destaque inesperado para a ‘crepuscular’ Kristen Stewart, aqui como assistente pessoal de Binoche que a ajuda a ler os diálogos do roteiro, e que, ao se contrapor pela idade e pensamento moderninho, causa ao mesmo tempo inveja e catarse. Todos os diálogos do eu ficcional de Kristen na tela parecem ironizar o eu real dela fora das telas, ora esnobando esta nova geração ou ora sancionando. Numa metalinguagem constante. Ou seja, ninguém mais poderia ter sido eleita, e nem tanto apenas por ela estar muito bem no papel, mas porque o roteiro bebe da fonte da atriz numa relação intrínseca, senão a ironia não seria tão grande.

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Há muito mais o que se debater no filme. Como, por exemplo, a relação blockbuster/pipocão versus cinema independente/autoral, pois o próprio papel de Binoche navega pelos dois gêneros com sucesso. Ou mesmo o cinema versus teatro, pois a reencenação da obra que era um livro, outrora adaptado para o cinema, agora é uma peça. Isso sem esquecer o título original, “Clouds of Sils Maria”, que é um fenômeno real da natureza, também conhecido como “Maloja Snake”, onde nuvens no entorno de encostas montanhosas na Suíça aparentam o formato de uma serpente, prenunciando mudanças climáticas. Esta “serpente” metafórica pode ser traduzida como aquele famoso conto popular sobre o sapo que ajuda o escorpião a atravessar um rio, mas é picado pela ferroada impiedosa antes de chegar ao outro lado, matando a ambos afogados, só porque o animal peçonhento não pôde trair sua própria natureza, assim como o sapo também não pôde, pois mesmo sabendo do risco, é impotente frente o escorpião. Ou seja, a personagem de Binoche, ora atraída ora repelida a interpretar o papel da mulher mais velha, a qual será destruída pela mais nova que um dia também interpretou, evoca traços da tragédia grega, pela inevitabilidade e irresistibilidade da destruição do velho pelo novo. Como se o próprio velho fosse atraído pela luz da destruição como uma mosca pela lâmpada e os pássaros pelo farol de um carro que os atropelará. É muito quente e ardente para resistir. E talvez se reinventar nas chamas deste ardor como as asas de uma fênix a voar de novo.

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Acima das Nuvens – Clouds of Sils Maria

 

França / Suiça / Alemanha, 124 min. Livre

De Olivier Assayas

Com Juliette Binoche, Kristen Stewart, Chlöe Grace Moretz

 

 

 

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5