Açúcar

Token da Casa Grande

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22 de outubro de 2017

Realmente há de ser dito que o ano de 2017 alcançou uma excelência fílmica invejável na seleção da Première Brasil, principal Mostra Competitiva de longas-metragens de ficção do Festival Internacional de Cinema do Rio, pois nunca antes houve uma sequência de filmes inéditos em território nacional a fazer seu début com tanto vigor estético e com tanto a dizer sobre o estado atual da sociedade refletido na telona. E, perpassando temas sociais comuns a quase todos os concorrentes, questões sobre a pluralidade de olhares perpassaram as obras tanto na frente quanto atrás das câmeras, como sobre disparidades de gênero, raça, classe e sexualidade. Todas intrinsecamente ligadas ao cerne da história e não como meras órbitas periféricas ao sistema central.

Alguns filmes com maior êxito e outros com menor, sendo que praticamente todos com excelência artística incontestável e ousadia no desbravamento temático. Até porque esta edição do Festival do Rio obteve um recorde sem precedentes para quaisquer Festivais de grande porte no cinema brasileiro, com mais da metade dos filmes competindo na Mostra Principal dirigidos ou codirigidos por mulheres. Este feito histórico claramente só poderia refletir nos trabalhos alcançados, visto que o olhar feminino ou, como colocaria melhor em palavras a pensadora Bell Hooks, o “olhar opositivo” decorrente de se estar do lado de fora das narrativas naturalmente hegemônicas, contadas por maioria de homens brancos heterossexuais nos cinemas, costumam abarcar uma pluralidade maior do que lhes costuma ser negada.

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Um dos destaques do Festival decerto foi “Açúcar” de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, por inúmeras razões ambivalentes que já ditavam o tom de interesse na produção.

Renata já vem de uma consagração no circuito alternativo do proeminente cinema recifense, valendo ressaltar ser uma das únicas mulheres realizadoras deste movimento recente do cinema brasileiro dominado por homens, especialmente se pensarmos em termos de longas-metragens lançados em circuito comercial. Para além de curtas-metragens multipremiados, como o referencial para muitos “Praça Walt Disney” (também codirigido com Sérgio), e a enorme experiência inspiradíssima fazendo direção de arte nos filmes de seus pares pernambucanos, foi com sua obra cult e genial “Amor, Plástico e Barulho” (corroteirizado e produzido por Sérgio) que Renata conseguiu se lançar em longas, numa vantagem que outras colegas de direção ainda não tiveram. Neste filme, contrapunha duas atrizes de mão cheia (Maeve Jinkings e Nash Laila) no acirrado universo das músicas bregas, com embates inesquecíveis. E talvez seja desta duplicidade que Renata gosta tanto de trabalhar que advenha a incidência de tantos opostos ambivalentes como os do novo filme “Açúcar”.

Açúcar

É um limiar tênue e escorregadio para se trabalhar, na corda bamba das reflexões sociais recentes, mas necessário de se engajar, porque se ninguém tiver a coragem necessária de levantar certos debates, mesmo que aos trancos e barrancos das turbulências de mãos dadas, ninguém nunca irá fazê-lo. “Açúcar”, bem como não por coincidência alguns outros filmes da Première Brasil do Festival do Rio 2017, aborda o racismo estrutural como espinha dorsal. Mas talvez de forma ainda mais dolorosa e direta do que seus concorrentes, por ter associado a outro tema caro e incrivelmente atual, a redistribuição de reforma agrária perante a desigualdade de um endividamento histórico, cujas raízes se fincam na apropriação ilegítima do que pertencia a terceiros para começo de conversa.

Logo hoje, que se fala mais do que nunca de “lugar de fala” como necessário para ocupar espaços por direito de quem se origina a palavra, em um país edificado sobre a apropriação do outro, parece até metafórico se falar de reforma agrária concomitantemente a se falar de reforma dos espaços audiovisuais. E, portanto, atenta-se para quem está sendo sujeito ou objeto na frente e atrás das câmeras para jamais repetirmos os mesmos erros históricos que nos trouxe à disparidade narrativa com que contamos nossas narrativas anulando boa parte da História com H maiúsculo.

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A personagem da atriz Maeve Jinkings, que retoma a parceria com a diretora Renata Pinheiro e agora também codirigida por Sergio Oliveira, interpreta aqui a herdeira de toda uma propriedade latifundiária sem produtividade. Mais por um sentimento de pertencimento e propriedade a personagem regressa à terra mesmo sem saber o que fazer com ela. Ficou muito tempo distante, como demonstra sua caracterização e figurino banhados de urbanidade. E em sua prepotência também herdada da família rejeita os auxílios de seus vizinhos, hoje ocupantes da área vizinha por tombamento cultural público, e ex-empregados da fazenda da protagonista. A relação mesmo em mão única começa amistosa, por mais que seja um paradoxo do absurdo chamar de amistosa uma interação subordinante às condições passadas, mesmo que por respeito à memória, visto que os vizinhos ao oferecerem seus serviços  (remunerados, diga-se de passagem) passam a uma situação abusiva análoga à escravidão mais uma vez.

Até aí, compreende-se o grau da denúncia, ainda que reitere um padrão comportamental reinante no predomínio das narrativas, quase nunca contadas pela voz das vítimas da opressão, e sim reiteradamente pelos opressores, mesmo em obras que se situam de maneira ficcional no tempo presente de identificação. Mas o filme arrisca duas possibilidades controversas que poderiam ser interpretadas para ambos os lados fronteiriços de receptividade de público. Ora como uma tentativa de desconstrução do opressor, como parte da proposta de gênero que vai abraçando do horror ao terror conforme avança, já que a protagonista vai enlouquecendo ao ser assombrada pelo ranço do passado que deturpará sua visão do presente. Ora como uma estranha e ambígua identificação do opressor com o oprimido, visto que irá se aludir sutilmente que a personagem de Maeve poderia ter advindo da família dos empregados e apenas teria sido adotada pela Casa Grande, como “token” escolhida a dedo para tentar compensar as agruras impostas pela escravidão. Daí advém a aplicação precisa da direção de arte pela própria codiretora Renata Pinheiro em dar vida à constantemente assombrada “Casa Grande” nas cenas internas, e a fotografia ampla em se perder o ponto de fuga de vista nas cenas externas graças à fotografia do argentino Fernando Locket. Bem como isto se conjuga com a desconstrução de figurino e penteado urbanos da personagem de Maeve que vai se (re)naturalizando conforme a projeção passa.

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Há de fato muitos filhos que já foram apropriados em intercâmbio entre uma situação de privilégios e outra de privação, mas o fato de o filme não necessariamente assumir nem uma coisa nem outra talvez possa enfraquecer as possibilidades narrativas, e criar uma inversão de julgamentos da plateia. Se a narrativa dá prioridade ao lado ‘Casa Grande’ de dominação elitizada para a personagem de Maeve, todos os elementos de empatia com a protagonista, acrescidos do carisma nato da atriz, podem sem querer gerar simpatia e compreensão na personagem da opressora, e isto incorreria num risco de certa condescendência com o racismo apenas para provar que alguns oprimidos também podem exercer opressão sobre seus pares. Não parece que a catarse obtida compensaria o risco tomado. E, por outro lado, poderia ser interpretado que o lado herdado da família de empregados com quem não cresceu para gerar identificação estaria gerando a loucura da personagem como castigo da branquitude.

De uma forma ou de outra talvez a resposta para mais essa divisão pantomímica esteja em mais uma dupla de interpretações: a das duas coadjuvantes principais, uma negra na intérprete Dandara de Morais e uma branca interpretada por Magali Biff. Independente da magnitude de Maeve, são as duas personagens que chegam num repente e capturam toda a estranheza necessária para a ponte que faltava entre a complexidade do tema e o gênero de terror aos poucos dominante. Dandara é a única intermediadora de fato que funciona como contraponto da interpretação negativa às possibilidades citadas acima, pois enquanto o personagem do irmão é condescendente e explorado de forma consentidamente sexual pelas donas da fazenda, num clichê reiterado de objetificação do corpo negro, a irmã se compromete a trabalhar para a patroa apenas no limite da dignidade do contrato acordado. Ela jamais permite que a tratem de forma indigna ou que retire sua subjetividade, especialmente quando começa a deixar de ser paga, ainda que a parte de apropriação religiosa a que o roteiro alude na performance de rituais pela atriz no início e depois mais ao final, quando o gênero de terror toma conta, de certa maneira a exotizem sem necessidade.

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E é outra gigante, Magali Biff (nos cinemas atualmente com seu imperdível papel visceral no controverso “Deserto”), que dá a chave final para escolhermos compreendermos ou não as escolhas do filme, uma vez que ela é a única “vilã” assumida no filme. É dela que vem a força motriz da oposição de argumentos, do racismo, do patriarcado e da apropriação de terras. Um fardo pesado para uma brilhante atriz que, não obstante estar à altura, acaba sendo ligeiramente prejudicada pelos cortes da montagem para priorizar a tomada crescente da trama pelo sobrenatural, que poderia ter abarcado melhor os outros elementos do filme quando chegassem todos os ao clímax em prol do personagem de Maeve.