Adeus, Burt Reynolds!

Campeão de bilheteria nos anos 1970 e 80, o galã que assumiu o arquétipo de garanhão morre aos 82 anos, no momento em que ensaiava uma reinvenção como ator

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06 de setembro de 2018

nbcu-61110280-Full-Image_GalleryBackground-en-US-1483993538089._RI_SX940_ Agarra-me se puderes Burt Reynolds

Rodrigo Fonseca
Ícone popular nos anos 1970 e 80, celebrizado como símbolo sexual, Burt Reynolds morreu nesta quinta-feira, aos 82 anos, em decorrência de uma parada cardíaca, num momento de uma reinvenção da imagem que consolidou em hits como “Agarra-me se puderes” (1977).

“Passei 60 anos trabalhando como ator, o que significa que tive tempo suficiente pra aprender a lidar com a Arte e pra construir algo a ser deixado como um legado para o espectador”, disse Reynolds a CNN. “O problema nessa minha jornada é que eu investi em papéis que me dessem alegria e não que me desafiassem”.

Confirmada recentemente pelo maior banco de dados do cinema mundial (site IMDB), a convocação de Reynolds para o elenco de “Once upon a time in Hollywood”, o novo (e já polêmico) longa-metragem de Quentin Tarantino, fez parte de um movimento da indústria audiovisual dos EUA para reviver um mito caído. Ele, que atuou ao lado de Leonardo DiCaprio, Margot Robbie, Al Pacino e Brad Pitt sob a batuta do realizador de “Pulp fiction” (1994), teve seu nome recentemente incluído noutro site que serve de farol ao mercado cinematográfico: o Awards Daily.     “O público gosta de heroísmo, de romance, de risos. É isso o que sempre busquei oferecer a eles”, disse Reynolds em entrevista dos anos 1970, antes de criar uma fundação filantrópica com seu nome.

7 Burt Reynolds the last

Especializado nas premiações que levam ao Oscar, esse portal da web, cuja credibilidade é de 99%, vinha apostando no veterano astro como um potencial candidato à estatueta dourada de Melhor Coadjuvante em 2019, pela comédia dramática “The last movie star” (também batizado de “Dog years” em alguns festivais). Esta potencial premiação dele era encarada como uma volta por cima para alguém que andava no limbo desde “Boogie nights”, de 1997 (filme pelo qual quase foi oscarizado, mas que lhe deu muita dor de cabeça, por desavenças com o diretor Paul Thomas Anderson).
“Sei que o rapaz é bom, que o filme é um cult, mas as relações no set foram estranhas”, disse o ator em entrevista ao The New York Times.     Em seus dias de vacas gordas, Reynolds aumentou, em centenas de milhões, a arrecadação dos estúdios hollywoodianos.  “A gente está sempre ao sabor da maré, firmando os laços com quem aposta na gente e buscando saber aquilo que pode agradar as plateias”, disse Reynolds no Festival de Tribeca, ovacionado por uma multidão em pé, com fãs vestidos com camisetas estampadas com seu semblante ainda jovem, em sem seu indefectível bigodão, em “Amargo pesadelo” (1972). “Este foi o filme dos filmes da minha vida, pois nele, a cena em que um homem era estuprado assombrou gerações. Eu nunca havia tido a sensação de ver homens se sentirem fragilizados diante de uma imagem. Nas projeções daquele filme, eu vi muito homem abandonar as salas de exibição com medo”.

Ali e em “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar”, também de 1972, ele ganhou o carinho do público bancando o durão de fala mansa e coração caloroso aos encantos femininos. “Golpe baixo” (1974) lacrou de vez seu prestígio popular, com uma bilheteria de US$ 43 milhões e o Globo de Ouro de Melhor Comédia. Seu tipão machão era um perfil avesso aos heróis mais à esquerda da Nova Hollywood (apelido do cinema combativo dos EUA nos anos 1970), mas bem alinhado com a ala mais conservadora do período. E, nos anos seguintes, ele foi lapidando essa imagem numa outra direção, ainda mais controversa: no papel do ás do volante Bandido, Reynolds passou a simbolizar o cafajeste profissional.

Quando a comédia “Desta vez te agarro” (1980) estreou, dizia-se em Hollywood que o cachê de Burt(on Leon) Reynolds Jr. era mais alto do que o orçamento total de 30% das produções americanas daquele período. Há uma lenda em Los Angeles sobre um leilão beneficiente para vítimas de acidentes de carro para o qual ele teria doado um chumaço de seus nigérrimos cabelos e uns pelinhos de seu característico bigode. O curioso do causo não é a doação, e sim o valor pago pelas “peças” em questão: elas foram leiloadas por US$ 20 mil tamanha era a fama dele nos tempos de sucessos como cuja bilheteria beirou US$ 300 milhões.

Onipresente nos caminhos de Reynolds nas décadas de 1970 e 80, “fama” foi um termo que passou quase duas décadas desaparecido do vocabulário do ator até o início deste ano, em que as resenhas estreladas a seu mais recente trabalho, “The last movie star”, fizeram dele um ímã de elogios. Tem até um bolão de apostas se formando para sua vitória na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood do ano que vem. Há muito do próprio Reynolds em seu papel em “The last movie star”, que ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival de San Diego. Sob a direção de Adam Rifkin, ele vive Vic Edwards, um astro em decadência que se dá conta do quanto a indústria desdenha de profissionais da sua idade.

Alguns colegas (o comediante Chevy Chase vive um deles) vão fazê-lo enxergar que os tempos de glória ficaram para trás, mas que ainda é possível correr atrás de dignidade, em forma de trabalho. Esta é a metáfora do próprio Reynolds, que torrou fortunas com casos de amor extraconjugais e namoradas de gerações novíssimas (seu namoro com a atriz Sally Field, por exemplo, foi marcado por escândalos públicos), e raramente buscou se reciclar como ator, confiando mais no carisma de seu sorriso do que em seu ferramental cênico. Só agora, ao virar um octogenário, ele começa a pensar mais com seu aparato técnico para atuar do que com seu charme, que ainda está lá, quando ele ri em cena.    “Eu ainda acredito no trabalho e ainda fôlego para fazer e sei que ainda existe gente nesta indústria com papéis escritos para pessoas como eu. Vamos lá, gente”, disse Reynolds em Tribeca. Fora seu trabalho com Tarantino, ele tinhs pela frente, confirmados, o faroeste de produção francesa “The french cowboy”, de Philipp Lawrence Durand, e a comédia canadense “Defining moments”. Era o começo de uma segunda chance para o eterno Bandido de agarrar a sorte… e não soltar. Pena que o Destino não deixou