Adoráveis Mulheres

“Gosto de palavras fortes com significados” – Louisa May Alcott

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12 de dezembro de 2019

Emma Watson, Saoirse Ronan, Eliza Scanlen and Florence Pugh in Columbia Pictures’ LITTLE WOMEN.

Emma Watson, Saoirse Ronan, Eliza Scanlen and Florence Pugh in Columbia Pictures’ LITTLE WOMEN.

Adoráveis Mulheres é o mais novo filme dirigido pela americana Greta Gerwig (Lady Bird, Frances Ha), adaptado da conhecida obra literária de Louisa May Alcott, Mulherzinhas, publicado em 1868. O livro – inspirado na vida pessoal da escritora – conta a história da familia March focando no amadurecimento de suas quatro filhas durante parte do período da Guerra Civil nos Estados Unidos, quando a maioria dos homens se ausentou de seus lares para lutar.

A obra já foi adaptada diversas vezes para o cinema, a última delas em 1994, com Susan Sarandon no papel da matriarca da família March e Winona Ryder como a escritora Jo. Já a versão de Gerwig conta com um elenco estelar com Saoirse Ronan, Timothee Chalamet, Emma Watson, Florence Pugh, Laura Dern e Meryl Streep como Tia March.

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Se ao longo das décadas o livro foi muito criticado por apresentar o casamento e a maternidade como ápices da vida da mulher, o longa-metragem contesta esta premissa de inúmeras formas, principalmente através das personagens Jo e Amy (Ronan e Pugh, respectivamente). A instituição matrimonial é citada diversas vezes como uma transação financeira, onde a mulher, impossibilitada de enriquecer por meios próprios, busca no casamento uma maneira para que isto ocorra.

O lugar da mulher na sociedade e sua liberdade de escolha também são muito discutidos ao longo da trama, e a questão fica clara no diálogo entre Amy e Tia March, onde a jovem demonstra sua insatisfação ao passar a ser ela mesma, seus filhos e todos seus ganhos, propriedades de seu marido após o matrimônio.

Por mais que as jovens mulheres da história possuam algum poder de decisão – Meg (personagem vivida por Emma Watson) casa-se por amor com um homem sem grandes fontes de renda, contrariando os conselhos familiares, por exemplo – suas escolhas são muito limitadas. Passagens como “… o que significa para uma mulher ser livre é poder fazer as próprias escolhas.” são ditas com frequência no decorrer da exibição, apontando o trabalho de Gerwig com trama e o valor que a temática tem para a diretora. Tal discussão se faz extremamente pertinente, principalmente em uma adaptação voltada para um público envolvido em questões atuais.

A propósito, é perceptível nesta obra o amadurecimento de Greta Gerwig como diretora. Se em seu último trabalho, Lady Bird, o desenvolvimento da história chegava a ser monocórdico beirando o tédio, em Adoráveis Mulheres a trama transita com facilidade entre drama, romance e comédia. A experiência ao longo dos 134 minutos de filme é agradável e leve, acompanhada de uma excelente trilha sonora. Porém, há um excesso de alternâncias das linhas temporais, o que deixa o primeiro ato do filme um pouco confuso, principalmente se não há conhecimento prévio da história por parte do espectador.

O conhecido elenco foi outro acerto de Gerwig; Saoirse Ronan, Timothee Chalamet e Florence Pugh estão brilhantes em seus papéis, comprovando o motivo pelo qual são tidos como os possíveis grandes nomes da interpretação desta geração. Já Emma Watson se destaca negativamente do restante do elenco, apresentando novamente uma interpretação sem vivacidade, dando a sensação de não haver transição de personagem entre a Hermione de Harry Potter, a Bela de A Bela e a Fera e Meg. Seria interessante assisti-la no papel de uma vilã no futuro, para despi-la desta “carga” de mocinha romântica apática que lhe está sendo incumbida.

Concluindo, faço as palavras do crítico americano Peter Debruge em seu artigo para a Variety, as minhas: “Se cada geração merece sua própria adaptação de Mulherzinhas, Greta Gerwig executou com mérito uma adorável, embora estranhamente não linear” (T.L.)

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