Agnès de Deus… e da Arte

Famosa no Brasil por suas peças irônicas, a cineasta e atriz francesa discute a obsessão pela cultura das aparências em 'Praça pública', sucesso na Europa, que brilha nas telas brasileiras e no Rendez-vous Avec Unifrance, em Paris

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20 de janeiro de 2019

 

Em Praça Pública, o decadente astro de TV Castro (Jean-Pierre Bacri) perturba sua ex, Hélène, vivida por Agnès Jaoui

Em “Praça Pública”, já em circuito no Brasil, o decadente astro de TV Castro (Jean-Pierre Bacri) perturba sua ex, Hélène, vivida pela cineasta Agnès Jaoui

Rodrigo Fonseca
Querida entre os brasileiros desde 2002, quando visitou o Rio de Janeiro para promover “O gosto dos outros”, fenômeno de bilheteria (5,2 milhões de tickets vendidos na França) indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Agnès Jaoui anda fazendo a alegria dos convidados do Rendez-vous Avec le Cinèma Français, em Paris, com suas tiradas irônicas sobre a vida e com seu delicioso novo longa-metragem, hoje já em cartaz no Brasil: “Praça pública”. A diretora passou seu fim de semana no Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles, onde funciona a sede da 21ª edição da mostra realizada anualmente pela Unifrance. Esse é o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada ano, ele promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta para divulgar prováveis sucessos de bilheteria e experimentos narrativos com fôlego para desafiar as convenções cinematográfica. Este ano, o Encontro começou no dia 17  e vai até 21 de janeiro, reunindo emissários de 75 filmes, batendo ponto no Le Collectionneur, para um papo com 120 jornalistas de 32 países, revelando as tendências que hão de mobilizar espectadores no planisfério cinéfilo. Na abertura, houve projeção de gala da comédia “Qu’est-ce qu’on a encore fait au bon Dieu?”, de Philippe de Chauveron, continuação do fenômeno popular “Que mal eu fiz a Deus?” (visto por 12 milhões de pagantes em 2014). Teve ainda a entrega de um prêmio honorário para a dupla Olivier Nakache e Éric Toledano, de “Intocáveis” (2011), um ímã de pagantes, com 20 milhões de ingressos vendidos. E tem Agnès.

Ao lado dela está seu parceiro (e ex-marido), o ator e roteirista Jean-Pierre Bacri. Tocados de maneira irretrocedível (e lúdica) por “On connaît la chanson”, mítico filme de Alain Resnais de 1997 (“Amores parisienses”, no Brasil), Agnès e Bacri andam construindo, juntos, uma obra cômica focada na importância que as aparências têm para as relações burguesas, profissionais ou afetivas. Depois de “O gosto dos outros”, veio “Questão de imagem” (2004), que deu a eles o prêmio de melhor roteiro em Cannes. Cada longa-metragem, com Agnès sempre na direção, vem refinando o humor (e a melancolia) deles, afinado o modo como a realizadora – egressa do teatro, onde também é dramaturga – domina os códigos narrativos e os processos técnicos específicos dos sets de cinema. É o que salta aos olhos neste novo trabalho dela e de Bacri, “Place publique”, visto por 380 mil pagantes em sua estreia em seu país.

Traduzido no Brasil literalmente como “Praça pública”, esta comédia de temperos azedos se passa basicamente numa só locação, a casa de luxo da produtora de TV Nathalie (Léa Drucker). O local vira um picadeiro para o show de horrores que traduz a decadência moral e emocional do apresentador de televisão Castro (Bacri, em excepcional atuação), cuja arrogância derrubou sua glória. Uma ciranda de figuras excêntricas – mas de uma excentricidade polida, aburguesada – desfilam na festa, traduzindo o que existe de fútil na cultura das celebridades. Agnès brilha em cena como Hélène, a ex-companheira de Castro, que enxerga na alegria um caminho para cicatrizar suas feridas. Ela ilumina o filme, que aposta na simplicidade visual e no charme de boas atuações – calçado numa montagem que sustenta o ritmo ao explorar diferentes cômodos de sua locação.

Almanaque: Seu cinema adotou a hipocrisia como alvo. O que significa falar de aparências no mundo das redes sociais?
Agnès Jaoui:
Significa enfiar o dedo na ferida da ilusão. Você já viu alguém postar foto de uma derrota. Até postam… mas se for algo engraçado, jamais algo trágico. Ninguém assume que foi derrotado no Facebook: só se vê foto de gente em forma, de gente malhando, de gente rica, de sucesso. Isso gera uma opressão. Não por acaso tem gente se suicidando diariamente. Há um aumento no número de jovens que se suicidam por conta do bullying nas redes sociais. E esse culto às aparências é parte do bullying. Em “Praça pública”, eu escolhi falar de alguém, Castro, que é pura aparência, mas que usa o veículo um tanto ultrapassado, nestes tempos de streaming – a televisão – para deixar fluir sua arrogância. Que sentido tem uma figura assim?

Almanaque: Seu cinema é baseado na palavra: o diálogo é o combustível de sua estética. O que sustenta uma narrativa de palavras nestes tempos em que o cinema autoral prega a excelência plena da imagem, do silêncio, da ausência de música, como pontuação?
Agnès Jaoui:
Há muitas formas de fazer cinema e há muitas formas de um diretor te fazer olhar para uma cena do cotidiano com poesia. Eric Rohmer, por exemplo, não tinha medo da palavra e era um mestre absoluto da imagem. Gosto da força da palavra, mas gosto quando o silêncio pode entrar em cena como um equilíbrio, transformando um roteiro em uma partitura musical, na qual todo o elenco tenha seu solo.

Almanaque: Qual foi a importância de ter trabalhando com Alain Resnais logo no início de sua carreira?
Agnès Jaoui:
Além de ter sido uma pessoa singular em sua gentileza, Resnais era um diretor que fazia da doçura sua forma de conseguir o que queria dos atores. Ele falava baixo, mas firme, com muita delicadeza. Chamava cada um de nós separadamente, mesmo aqueles que tinham falas mínimas, e conversava sobre o filme, ouvindo opiniões, trocando. Antes, eu havia trabalhado com Patrice Chéreau, que, ao contrário de Resnais, precisava de gerar conflito no set a fim de poder criar. Eu venho do teatro. Aquilo foi duro. Resnais chegou como um alívio. E com ele eu aprendi a saber conversar carinhosamente com meu elenco.

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“Praça pública” integra um menu de 75 longas-metragens no Rendez-vous Avec Unifrance de 2019. Conheça outros destaques da festa francesa:

“High Life”, de Claire Denis: No filme mais ousado de sua carreira, a realizadora de “Minha terra, África” (2009) volta seus olhos para o espaço sideral, onde acompanha a jornada de um astronauta (Robert Pattinson, o vampiro romântico de “A saga Crepúsculo”) e sua filha bebê em uma nave onde os passageiros morreram sob circunstâncias misteriosas, mas que pode estar ligado aos experimentos de fertilização de uma médica (Juliette Binoche). É uma sci-fi onde o sexo e as neuroses sexuais contam mais do que a tecnologia.

Juliette Binoche com Robert Pattinson em "High Life"

Juliette Binoche com Robert Pattinson em “High Life”

“Le Flic de Belleville”, de Rachid Bouchareb: Um dos mais combativos cronistas da imigração africana na Europa, o realizador de “Dias de glória” (2006) aproveita todo o talento cômico de Omar Sy (de “Intocáveis”) para fazer uma espécie de “Um tira da pesada” à francesa. Sy brinca de Eddie Murphy no papel de Baaba, um policial que larga as ruas da França para vingar a morte de um amigo em Miami – mas sem perder o humor.

“Dilili à Paris”, de Michel Ocelot: Espécie de antropólogo da animação, o septuagenário realizador de “Kirikou e a feiticeira” (1998) recria a França de 1900, sob a ótica de uma menina negra de uma aldeia do Pacífico Sul que tem a chance de visitar Paris no auge da ebulição artística e científica da vira do século XIX para o século XX. Ela cruza com Marcel Proust, Louis Pasteur e Toulouse-Lautrec nesta viagem construída a partir de uma estética de colagens.

“L’Empereur de Paris”, de Jean-François Richet: Concebido para ser a ofensiva francesa contra os blockbusters de Hollywood, esta superprodução do diretor de “Inimigo público nº1” (2008), baseada nos feitos do criminoso Eugène François Vidocq (1775-1857), fez jus a seu objetivo: graças ao carisma do astro Vincent Cassel, o longa vendeu 730 mil ingressos em três semanas. Na trama, Vidocq tenta refazer sua vida como comerciante, mas é empurrado de volta ao submundo, mas, desta vez, para debelar os malfeitores. As cenas de ação rodadas por Richet são impressionantes.

“L’Homme Fidèle”de Louis Garrel: Filha do pirata Johnny Depp com a cantora e atriz Vanessa Paradis,  Lily-Rose Depp é uma Lolita que mexe com os brios e os hormônios de um realizador de documentários às voltas com um trauma amoroso ligado à traição de sua ex. A jovem atriz rouba a cena desta “dramédia” romântica dirigida e estrelada pelo galã Louis Garrel, que deu a ele o prêmio de melhor roteiro no Festival de San Sebastián, na Espanha.

“Mektoub, my love: Canto uno”de Abdelatiff Kechiche: Ganhador da Palma de Ouro em 2013 com “O azul é a cor mais quente”, o polêmico cineasta tunisiano aposta na sensualidade uma vez mais, nesta crônica geracional sobre a vida sexual e afetiva de um grupo de universitários na França Mediterrânea dos anos 1990, tendo como foco as angústias de um jovem de origem árabe que faz faculdade de cinema, Suas fartas doses de erotismo e de nudez explícita criaram novas inimizades para Kechiche, consagrado por sua singular direção de atores;

“Le Grand bain”, de Gilles Lellouche: Sem nenhum parentesco com o mítico diretor Claude Lelouch, Gilles, um dos mais populares galãs do cinema francês, reuniu a nata dos astros de seu país nesta chanchada aquática que marca sua estreia na direção. Mathieu Amalric, Jean-Hughes Anglade, Guillaume Canet e Benoît Poelvoorde interpretam um time de fracassados profissionais que encontram no nado sincronizado um prazer, uma terapia e uma redenção.