Alair

Manifesto poético e singular em respeito as diferenças e a pluralidade

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22 de fevereiro de 2018

Em tempos de discussões aprofundadas sobre o tema de gêneros em nosso país, intimamente ligada ao crescimento da bancada evangélica em nossa política, e em um ano de eleição presidencial, onde um dos candidatos é um homofóbico feroz e assumido; é muito importante, e fundamental, que a arte cumpra o seu papel em ligar todos os seus holofotes à luz da humanidade, da sensibilidade, da denúncia, da lembrança, da memória, e da monstruosa estatística ao extermínio de homossexuais, travestis e transgêneros no Brasil. Crimes bárbaros, hediondos, sem causa objetiva, apenas por motivos torpes e fúteis! Ceifar uma vida humana no Brasil custa menos do que R$ 1,99, e raros são o interesse em se desvendar crimes contra a intolerância aos gêneros. Por este prisma Alair, com texto de Gustavo Pinheiro e direção de Cesar Augusto, cumpre uma função muito especial em nosso atual, e combalido, teatro carioca. Uma função de posicionamento. Um posicionamento sóbrio, sofisticado e elegante. Pinheiro criou um texto, em forma de documento/depoimento, e apresentado em uma narrativa simples e factual, sobre partes da vida do fotógrafo Alair Gomes (1921-1992) no ano em que se completam 25 anos de sua morte. Engenheiro de formação, filósofo, escritor, estudioso e crítico de arte, Alair foi reconhecido como precursor da fotografia homoerótica no Brasil, conquistando a consagração internacional com seu trabalho, que reuniu mais de 170.000 negativos cujo tema central era a beleza do corpo masculino. O espetáculo se desenvolve a partir do momento em que Alair recebe, em seu apartamento em Ipanema, um jovem para uma sessão de fotos. O encontro deflagra um turbilhão de lembranças e pensamentos de Alair sobre amor, arte, beleza e morte.

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Edwin Luisi, ,como Alair, e Andre Rosa, em seu belo corpo escultural, em cena de Alair, no Teatro Ipanema. Foto Elisa Mendes.

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Diversas fotos de corpos de sunga, na praia, fazem parte dos milhares de registros feitos por Alair. Foto Elisa Mendes.

A direção de Cesar Augusto dá ao espetáculo um tom sóbrio e sofisticado, cercado de muitos elementos delicados, em uma concepção vintage-contemporânea, onde faz um contraponto leve e muito harmônico em imagens de projeção discreta em telas acopladas organicamente na cenografia. Essa mistura de imagens de época com referência de slides com cores antigas – das viagens à Europa e dos corpos masculinos-, aliadas ao preto e branco, nos dá uma atmosfera simples e muito acolhedora; ao mesmo tempo em que nos causa uma certa angústia de nos vermos diante de um tempo onde se havia muito menos respeito aos direitos humanos perante ao assassinato de homossexuais. Ao mesmo tempo em que explora a estética apolínea na escolha do elenco, que faz jus ao material fotográfico de Alair. O cenário de Mariana Villas Boas é retilíneo, geométrico e funcional e foi concebido para receber a projeção de imagens, e nos jogos de luzes e sombras. A iluminação de Tomás Ribas é austera e cria um jogo bem interessante com os atores. Ao invés dela entrar no momento em que o ator se posiciona em cena, ela é acesa no local da encenação, onde o ator entra na luz. Este processo se encaixa bem em um formato de teatro retrô e se faz apropriar muito bem do ambiente que permeia toda a montagem. Os figurinos de Ticiana Barros são todos adequados a cada uma das personagens, assim como a trilha sonora de Rodrigo Marçal . A economia de gestos, e o bom gosto nas construção das figuras gregas são elementos utilizados na direção de movimento de Luisa Pitta. Edwin Luisi, como Alair, tem uma atuação enxuta, cirúrgica e sóbria. Consegue conduzir com maestria a sua narrativa épica – ao contar a história- intercalada com momentos densos e sensíveis – ao vivê-las em cena. Os atores que vivem o seu amante – Claudio Andrade – , e o seu assassino – Andre Rosa – apresentam um trabalho de interpretação a serviço de suas funções dentro da engrenagem. São pouco exigidos em arcos dramáticos do texto, mas prestam um correto papel no que lhes são oferecido. André Rosa tem um corpo belíssimo, escultural; e a sua cena de nudez é tão digna como necessária. Um corpo poético digno dos Deuses.

Edwin Luisi na peça Alair credito Elisa Mendes

A encenação do espetáculo é valorizada por um bonito jogo de luz e sombras. Foto Elisa Mendes.

Alair é um projeto de extrema seriedade e que consegue prestar uma verdadeira homenagem a mais uma vítima covarde de nossa sociedade doentia e intolerante. Um manifesto poético e singular em respeito as diferenças e a pluralidade!

Ficha técnica

Texto: Gustavo Pinheiro

Direção: Cesar Augusto

Assistente de direção: Luisa Pitta

Elenco: Edwin Luisi, Andre Rosa e Claudio Andrade

Cenário: Mariana Villas Boas

Figurino:  Ticiana Passos

Iluminação: Tomás Ribas

Trilha Sonora: Rodrigo Marçal

Direção de movimento: Luisa Pitta

Fotografias em cena: Alair Gomes

Visagismo: Marcio Mello

Fotos: Elisa Mendes

Projeto Gráfico: Gilmar Padrão Jr.

Produção executiva: Michaela Barcellos

Produção e realização: Me Gusta Produções

 

Serviço

Estreia: 14 de janeiro (domingo) às 20h

Local:  Teatro Ipanema – Rua Prudente de Moraes, 824 – Ipanema / RJ   Tel: (21) 2267-3750 Metrô: Estação Nossa Senhora da Paz (saída: Rua Joana Angélica)

Horários: sábados às 21h, domingos e segundas às 20h

Duração: 70 min

Ingressos: R$50,00 e R$25,00 (meia)/vendas online: www.ticketmais.com.br / horário bilheteria: sempre uma hora antes da apresentação

Gênero: drama

Classificação indicativa: 14 anos

Temporada: até 26 de fevereiro.

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 3