Alba

Sutilezas no olhar de câmera para a delicadeza do adolescer feminino

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24 de outubro de 2016

“Alba” (Menção honrosa no Festival de San Sebastian e prêmio Fipresci no Festival de Cinema Latino de Toulouse) de Ana Cristina Barragán, é um filme delicado e sensível, que por incrível que pareça se comunica bastante em termos de temática e fotografia com outro exemplar latino que acaba de ser exibido no Festival do Rio, “Todo o Resto”, também de uma realizadora mulher na direção, Natalia Almada. Só que enquanto este falava de solidão na terceira idade, trabalhando numa repartição pública de contraste de classes, “Alba” volta para a solidão em idade púbere, e com uma disparidade de classes na própria escola, ensinando segregação desde criança.

Com sutileza no olhar da câmera, a esquisita pré-adolescente homônima ao título é mostrada sempre em primeiro plano, guiando os enquadramentos, com super closes de seu mundo introvertido e silencioso, todo demonstrado a partir de momentos e pensamentos externalizados. Por exemplo, quando ela brinca com os pertences da mãe doente no hospital e com os do pai divorciado que cuida dela, apesar de não ter participado da sua criação. São estranhos em uma relação desacostumada e afastada. A menina não pode ter a mãe, pois está enferma, e o pai não sabe como se aproximar para reconquistá-la, não obstante se esforçar para isso, e faz a filha passar vergonha na escola com seu jeito humilde e fracassado. A direção de arte reforça isso com um apartamento velho e mofado, onde mesmo assim a criatividade de Alba fala mais alto e encontra maneiras de reinventar o espaço ao seu redor, assim como a fotografia.

Mesmo que o tema ‘rito de passagem’ no adolescer já tenha sido explorado muitas vezes, a força silenciosa da interpretação madura para a menina Macarena Arias faz a diferença, com um olhar minucioso e detalhista, em cenas marcantes como quando é obrigada a esmagar uma linda mariposa pelos colegas de classe de quem almeja tanto a aprovação; ou quando está no carro com seu pai dirigindo para a praia e a música diegética no carro começa a aumentar como se virasse a trilha sonora do filme, em um típico momento grandioso do cinema, só para revelar ironicamente a farsa depois, onde o carro, na verdade, estava indo à quarenta por hora pela estrada, porque era velho e lento. Mostrando que tudo depende da criatividade da perspectiva, como o é na vida.

Mostra de São Paulo 2016

Alba (idem)

Equador / México / Grécia, 2016. 96 min

De Ana Cristina Barragan

Com Macarena Arias, Pablo Aguirre, Amaia Merino

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4