Além das Palavras

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22 de abril de 2017

“Além das Palavras” é a cinebiografia da poetisa americana Emily Dickinson, considerada uma das maiores de todos os tempos, cuja obra só foi reconhecida após a sua morte. No longa, escrito e dirigido por Terrence Davies (“A Canção do Pôr do Sol”, “Amor Profundo”), acompanhamos a vida de Emily desde o período no internato católico até os seus últimos dias, em que vivia como uma artista reclusa e sem reconhecimento na mansão de seus pais em Massachusetts, se comunicando com o mundo exterior através de cartas.

O filme começa bem ao apresentar a jovem Emily, ainda no internato, recusando-se a declarar sua fé às freiras. De cara, o espectador já tem contato com a personalidade forte de Emily, à frente de seu tempo, que é desenvolvida nos dois primeiros atos através de sua posição feminista e de seus questionamentos à situação feminina na época, compartilhados com a irmã e uma amiga considerada igualmente atrevida aos olhos conservadores. É a partir da metade do segundo ato que “A Quiet Passion” (no original) desanda. Dramas familiares desinteressantes são introduzidos na trama e a personalidade solitária de Emily se sobrepõe a todo o resto, fazendo com que a narrativa tenha o ritmo cada vez mais lento e arrastado. A voz em off de Emily declamando trechos de suas poesias, descrevendo situações que estão ocorrendo naquele momento, é outro recurso totalmente dispensável utilizado por Davies, já que descreve o óbvio e em nada acrescenta. O cineasta poderia ter destacado as poesias de uma maneira bem mais criativa e que quebrasse o tédio então instalado na película.

Assim como em outros longas-metragens de Davies, como “Amor Profundo”, o tom excessivamente dramático misturado ao ritmo demasiadamente lento atrapalha bastante a imersão do espectador. Por se tratar da biografia de uma importante personagem da história, seria melhor se o filme transportasse o público para a vida de Emily, mas só funciona como um ótimo sonífero depois de certo ponto. Nem a excelente interpretação de Cynthia Nixon (a Miranda de “Sex and the City”) salva. Apesar de conseguir mostrar a mulher introvertida por trás da poetisa, Davies pesa demais a mão no drama, que se alonga por pouco mais de duas horas, transformando “Além das Palavras” numa experiência enfadonha e entediante. Vale a pena assistir apenas para conhecer um pouco da história dessa grande artista e sua paixão solitária que só se tornou pública depois que não estava mais nesse mundo.

 

Além das Palavras (A Quiet Passion)

EUA – 2017. 125 minutos.

Direção: Terrence Davies

Com: Cynthia Nixon, Keith Carradine, Jennifer Ehle, Duncan Duff, Annette Badland, Joanna Bacon e Emma Bell.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3