Alice Através do Espelho

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29 de maio de 2016

A secular história “Alice’s Adventures in Wonderland”, da autoria de Lewis Carroll, que conta a jornada de uma jovem em contato com os seres fantásticos de um mundo paralelo, foi sem dúvida um material repleto de possibilidades quando inserido no estilo bastante peculiar  ― chamá-lo de visionário já se tornou um clichê ― do diretor Tim Burton. Quando deu vida às páginas de Carroll no filme “Alice no País das Maravilhas” (2010), Burton não angariou elogios calorosos da crítica especializada, mas em compensação, obteve um vultoso rendimento de bilheteria, o que é de fato o retorno mais importante para os grandes estúdios; no caso, Walt Disney Pictures. Seguindo a lógica da rentabilidade, a decisão por uma sequência, “Alice Através do Espelho”, é absolutamente previsível. No projeto atual, Tim Burton pulou fora do comando da embarcação, mas assina como produtor, e entra em seu lugar James Bobin, diretor da franquia “Muppets” (2011 – 2014).

No papel de diretor, o cineasta substituto demonstra uma fragilidade na condução da trama ― não existe nele a capacidade de criação de uma identidade e o filme em questão parece uma réplica, sem nada de original a oferecer, do longa anterior. No enredo, a roteirista Linda Woolverton foi mantida, Alice (Mia Wasikowska) volta para casa após uma longa viagem pelos mares. Na mansão de Hamish (Leo Bill), seu antigo e petulante pretendente, ela descobre um espelho que funciona como um portal para o País das Maravilhas. Chegando lá, a visitante é informada de que o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) está à beira da depressão por conta de uma descoberta envolvendo seus dias de criança. Para salvá-lo, Alice precisa voltar no passado, utilizando os poderes do Tempo (Sacha Baron Cohen), a fim de desvelar a verdade capaz de acabar com a aflição do amigo. Quanto às lições que o roteiro apregoa, o desejo de emancipação da protagonista é uma bravura feminista, assunto em voga, que pertence ao mundo real. Já no País das Maravilhas, são os imbróglios, de resolução muito fácil, com o propósito de enaltecer os valores da união familiar que prevalecem. Por falar no tema, uma das surpresas reservadas pelo filme é a origem da inimizade das irmãs Mirana, a Rainha Branca (Anne Hathaway), e Iracebeth, a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter ― com atuação que é o que o filme tem de melhor). A revelação é uma centelha no conjunto da obra, nada além. Por mais que as motivações de “Alice Através do Espelho” sejam diferentes do primeiro longa, todo o conjunto parece incomodamente igual, emoldurado pela extravagância visual um tanto vazia, e sem toque autoral, para o público adulto.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3