Almas Silenciosas

Narrativa lenta e introspectiva que reforça a tênue linha entre o estudo religioso e o drama espiritual

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31 de janeiro de 2017

O estilo estético e a narrativa densa e melancólica são características da cinematografia russa (vide os filmes de Tarkovsky) e Almas Silenciosas (Ovsyanki, 2010) de Aleksey Fedrochenko não foge a regra. O espectador terá que aguçar sua percepção e sentidos para acompanhar o conteúdo dramático de uma história que evoca uma etnia conhecida como Merja, que aos poucos foi se transformando, chegando à Rússia moderna apenas sob forma de alguns costumes.

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Na sinopse, o fotógrafo Aist (Igor Sergeev) é chamado pelo seu patrão Miron (Yuriy Tsurilo) para acompanhá-lo no funeral de sua esposa Tanya (Yuliya Aug), de acordo com a tradição. O filme traça então a atormentada viagem destes dois indivíduos que mal se falam e apenas vivem internamente a sua tragédia pessoal.

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A câmera de Aleksey posiciona-se estática e distante de seus personagens, enquadrando-os aqui e ali entre grades e gaiolas para demonstrar o aprisionamento às tradições em uma sociedade atual. A narrativa lenta e introspectiva reforça a tênue linha entre o estudo religioso e o drama espiritual e o excelente trabalho fotográfico de Mikhail Krichman (O Retorno, 2003) reflete as emoções cruas e ásperas construindo uma atmosfera nostálgica sobre vida, morte e culturas perdidas.

O interessante é perceber que este olhar sobre a morte torna-se muito mais natural do que estamos acostumados e adquire contrastes meditativos e filosóficos absolutamente únicos. Portanto quando o policial revista a caminhonete e se depara com o cadáver de Tanya estirado na parte traseira, imediatamente ele o libera por respeito a uma doutrina sagrada.

Apesar da curta duração (78 min) Almas Silenciosas (Ovsyanki) não tem pretensão de alcançar nenhum objetivo, pois é um filme sobre ritos de passagem e isso fica bem claro em um interessante plano sequência na preparação do corpo de Tanya. Sem nenhuma pressa Fedrochenko apresenta uma obra hermética, mas poeticamente densa e inspiradora cujo misticismo não passará despercebido.

Almas Silenciosas (Ovsyanki)

Rússia, 2010. 78 min.

Direção: Aleksey Fedrochenko

Com: Yuliya Aug, Olga Dobrina, Igor Sergeev, Yuriy Tsurilo

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4