Ave, César!

Divertido (mas só isso), novo longa-metragem dos diretores de 'Fargo' abre o Festival de Berlim, com aplausos mornos da imprensa, resgatando a memória do cinema de estúdio dos anos 1950

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17 de abril de 2016

 

 

 

 

 

 

 

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Alô, alô, Hollywood (ou A chanchada dos irmãos Coen)

Como é Ave, César! (Hail, Caesar!), o novíssimo longa-metragem de Joel e Etha Coen que abriu o 66º Festival de Berlim nesta quinta-feira e só estreia no Brasil daqui a dois meses? Bem… sabe Carnaval Atlântida (1952)? Aquela maravilha da Atlântida na qual o produtor Cecílio B. de Milho (Renato Restier) contratava o professor de mitologia Xenofontes (Oscarito) para ajudar num filme brasileiro sobre Helena de Troia? É igualzinho. É chanchada. Tem executivo de estudo sob o açoite dos magnatas, tem número musical (e que número aquele com Channing Tatum de marinheiro!) para quebrar o realismo, tem galã à la Cyl Farney a soltar a voz (no caso, o ótimo Alden Ehrenreich, na pele de um caubói) e tem palhaço, é claro, mas um palhaço bonitão, com a pinta de George Clooney, meio Cole, meio Grande Othelo no barato dos milhões da indústria cinematográfica dos anos 1950. É riso certo, mas não é riso frouxo. É visual primoroso, na luz do fotógrafo Roger Deakins e numa direção de arte que emula os vermelhos e tons de vinho aveludados da década do Ben-Hur (1959) com Charlton Heston – referência obrigatória. Mas sua montagem, ainda que ágil, não é das mais inventivas. E o roteiro tem personagens bons demais para enredo de menos, sem contar que a reflexão metanarrativa dos manos aqui não se faz reconhecer. Logo… é divertido pacas, mas só isso.

Ave, César trez trze

Recebido com palmas murchas e gargalhadas a conta-gotas na Berlinale, esta produção de US$ 22 milhões entra na prateleira dos Coen de menor escala, tipo O Amor Custa Caro (2003) ou Queime Depois de Ler (2008), ambos com Clooney. Não tem a pretensão política (nem metafísica) de um Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) ou de um O Grande Lebowski (1998), mas é, como tudo deles, delicioso de assistir, assim como é abrasivo em seu olhar sobre a América. Fala-se mais de vaidade e do jeitinho americano de driblar problemas do que da épica de sua nação. É conto, não romance, mas não chega a ganhar a luta contra a mesmice por nocaute, e sim por pontos marcados em especial no número (antológico) de dança de Tatum, no balé aquático da Esther Williams Scarlett Johansson e pelos faniquitos de um José Lewgoy à moda europeia encarnado com maestria por Ralph Fiennes.

A presença dele faz lembrar O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, mas não só por Fiennes, mas também porque lá havia uma aquarela de estrelas em aparições de formato pigmeu, aquém da nossa expectativa. Quem se sai melhor em cena é Josh Brolin, que deita e rola na pele de Eddie Mannix, um capo de estúdio encarregado de manter seus atores na linha, enquanto prepara uma superprodução sobre o Império Romano e a chegada de Cristo com seu astro mais rentável: o canastrão Baird Whitlock (Clooney, engraçado, mas repetitivo).

Ave, César

Num enciclopedismo que se espera mais de Scorsese do que dos Coen, o filme abre um abecedário de verbetes da História do Cinema, citando desde a screwball comedy até o Peplum (o gênero de gladiadores romanos). Essa jornada no tempo e no espaço do cinema é, também, um passeio pela jornada dos modos de representação dos EUA a partir dos códigos e condutas (incluindo o McCarthismo e sua caça às bruxas rubras do comunismo). É aquilo que teóricos da dramaturgia como José Maria Mendes e José Carvalho (maior pensador de roteiro do Brasil) chamariam de “narrativa de segundo campo”: narrativa na qual o discurso estético autoral dos realizadores está em primeiro plano e não a caminhada de redenção dos heróis e anti-heróis. E o discurso em questão é o da carnavalização da arte de fazer filmes, negócio rentável, mas de meandros cheios de serpentinas e confetes morais.

https://www.youtube.com/watch?v=2sf7T3heCxg

Há o que se pensar ao fim da projeção, mas não com a solidez que os Coen já nos deram outrora. A meta aqui é fazer fuzarca na recriação de como Hollywood operava quando os senhores de engenho do cinema eram os cabeças das majors. Com a ascese do diretor ao posto de autoralidade máxima, isso mudou. Ou se transformou. É a dúvida com que Berlim se depara agora, mesmo tendo gargalhado menos do que gostaria. Quem sabe depois do que fizeram com Tatum, convertendo o astro em um Gene Kelly contemporâneo, não seja a hora de os irmãos prepararem um Cantando na Chuva só deles. Faroeste e filmes de gângster eles reinventaram com esplendor, vide O Ajuste Final (1990) e Bravura Indômita (2010). É hora de um novo filão. Só precisa agora dar mais tempo a cada ator em cena. Ou arriscar um Ave, César! – Parte 2. Bom material pra isso tem.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 3