Aloys

Surrealismo onírico à la Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

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24 de outubro de 2016

“Aloys” (vencedor do prêmio da crítica no Festival de Berlim) de Tobias Nölle, logo em seu primeiro longa metragem solo, consegue criar uma força lúdica e inovadora para as imagens com que conta sua história. Mais uma vez o tema solidão predomina na tela, porém num tom Quixotesco, à la “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, o filme vai ganhando surrealismo em suas cenas.

Tudo começa com um investigador particular que perde o pai que era seu sócio na empresa, e o luto começa a atrapalhar seu trabalho a tal ponto que perde seu material de vigilância de estranhos. Bem…, perde ou é roubado?! O detetive começa a receber ligações de alguém que supostamente estaria usando o feitiço contra o feiticeiro, podendo estar filmando tudo o que ele está fazendo. A voz sedutora é de uma mulher, mas ele não consegue saber nem de quem é ou qual seu propósito. Como ponto de partida, o protagonista é mais do que solitário, ele é sem vida, pois se autoanulou nas lições do pais de como seguir os outros na profissão de investigador sem jamais ser percebido. Uma sombra vazia. E o mal que pode ter causado aos outros em desencavar intimidades, o que antes não lhe afetava, pode agora voltar para sua consciência.

Na realidade, o filme adota linguagens com referências noir e de suspense até, numa fotografia de Simon Guy Fässler que realça cores azuis e desbotadas como a vida dele, com estética apuradíssima de enquadramentos e molduras de tela, mas depois de revelar quem está assediando o detetive, de fato as referências iniciais mais de mistério são abandonadas e o filme assume personalidade de um romance esquisito. Esquisito num bom sentido, claro, mas ainda assim não tão potente quanto seu princípio. As cenas surrealistas que alongam uma conversa telefônica fazendo tudo o que é imaginado vir à vida, seja dentro do apartamento enclausurado do protagonista ou mesmo numa floresta que só existe na cabeça dele, muda inclusive a cromática do filme, que vai ganhando outros tons mais vívidos e vibrantes. A parte mais interessante é todo o subjetivismo preservado do início da projeção, onde tudo o que vem a acontecer, inclusive a outra pessoa do outro lado da linha telefônica pode ser fabricação da sua mente, dando ares patológicos à solidão social, mas o filme prefere dar uma leitura mais linear explicitando o romance mais ao final, o que não prejudica uma grande incursão como longa de estreia.

Mostra de São Paulo 2016

Aloys (idem)

Suíça /França, 2016. 91 min

De Tobias Nölle

Com: Georg Friedrich, Tilde Von Overbeck, Kamil Krejci

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4