Amanhecer esmeralda para a DC nas telas

Num equilíbrio invejável entre espetáculo e reflexão política, 'Liga da Justiça' oxigena o filão dos filmes de super-herói, afirmando a força feminina sem emascular a representação da hombridade, extraindo o melhor de seu elenco, arejado pelo Flash de Ezra Miller e pelo Aquaman de Jason Moma

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15 de novembro de 2017

justice-league.jpg Liga da Justiça

Rodrigo Fonseca
Reino do Amanhã: essa é a oferenda simbólica que o febril Liga da Justiça nos faz nestes tempos de desamparo moral, de emasculamento de heróis, de desavenças de pontos de vista e de culto ao ódio. É feita uma oferenda pelas vias da aventura – no caso, uma aventura perfumada a adrenalina, de tônus bem-humorado, mas aberta a debates éticos -, cujo intuito é celebrar a comunhão como alternativa à submissão e à derrota. Reino do Amanhã, assim italizado e em negrito, é o nome da melhor HQ dos últimos 20 anos, assinada por Alex Ross, que redefiniu a editora DC Comics a partir de uma conexão entre seus deuses de papel, unidos em defesa da crença na fantasia. Seu título sugere legado, algo a apontar para o futuro, como rota para a edificação de um novo simbolismo pop. É isso o que Zack Snyder (apoiado de forma não creditada por Joss Whedon) nos dá neste espetáculo que equilibra riso, ação, reflexão, mitologia e o timbre sombrio (mais adulto) típico da tradição DCnauta.

Há filmes de super-herói que se propõem a serem metáforas secas sobre nossas carências políticas: caso da trilogia Batman de Christopher Nolan ou de Logan, de James Mangold. Há títulos que optam pelo desbunde: Guardiões da Galáxia, Deadpool. Mas Liga… consegue unir o melhor dos dois mundos – graças sobretudo ao show de carisma do jovem Flash Ezra Miller e do Aquaman Jason Momoa -, estabelecendo-se como um debate vívido sobre a falta de pertencimento. Tem um cheirinho de Wim Wenders no que há por trás das cenas de batalha magistralmente fotografadas pelo alemão Fabian Wagner (da série Game of Thrones). E há ainda uma afirmação oxigenada (e bem-vinda) do feminino (não do feminisimo) no desenho da Mulher-Maravilha feito a partir da atriz Gal Gadot. A oxigenação se dá ainda na marca autoral de seu diretor. Talvez por transitar entre signos de autossacrifício consciente, Snyder muda um pouco seu traço estético mais pessoal – o niilismo – e esculpe, na edição final, uma alegria algo menos desesperançada da condição humana. Talvez ele o faça como sintoma da tragédia pessoal (a perda de uma filha, por suicídio) durante a finalização do longa-metragem. Não cabe julgá-lo. Cabe entendê-lo e comemorar esse sopro de leveza que traz a assinatura dele no corte definitivo do projeto.

Na trama, ambientada num mundo em luto pela morte do super-homem, reside a centelha niilista snyderiana por excelência: há três objetos na Terra, chamados de caixas maternas, que congregam em si um coeficiente de energia raro. Uma ficou na Atlântida de Aquaman, outra na Ilha Paraíso da Mulher-Maravilha e a terceira foi dada à raça humana, cuja falibilidade garante zero segurança a um bem tão precioso, cujo núcleo energético pode nos levar a extinção se cair em mão erradas. Tal premissa é uma clara conexão com a figura de Darkseid, um dos maiores vilões da DC, cujo nome não é citado no filme. É a ele e a seus irmãos algozes, os Novos Deuses, que as caixas pertencem. Em vez dele, fala-se apenas da filiação dessas caixas a um amo poderoso. Quem o diz é Lobo da Estepe, um guerreiro (com a voz de Ciarán Hinds) dotado de superforça, armado com um machado energético, que faz marchar, sob suas ordens, uma horda alada de construtos robóticos, similares a libélulas. Os tais robôs (ou quase isso) já apareceram nos pesadelos de Bruce Wayne (de novo confiado a Ben Affleck, agora mais solto e nada sisudo) no (brilhante) Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (2016). Aqui dá para entender porque ele sonhava com as criaturas e porque esses pesadelos fizeram com que o cruzado de Gotham City reunisse uma tropa de vigilantes, incluindo a amazona, o rei dos oceanos e mais dois: o velocista Flash e um ex-atleta cujo corpo é meio máquina, meio gente: o Cyborg, interpretado por Ray Fisher, cuja atuação é a melhor de todo o elenco. Ezra Miller, como o corredor superveloz, tem tiradas antológicas, que arejam a narrativa. Mas é Fisher quem melhor traduz o coeficiente de dor de Liga da Justiça. Ele e Gal, cada vez requintada no traço da heroína que melhor simboliza o (necessário e tardio) reposicionamento inclusivo da voz feminina.

Ray Fisher é o melhor ator em cena

Ray Fisher tem o melhor desempenho em cena

É na angústia do Cyborg e da Mulher-Maravilha que entendemos o signo existencial da falta de pertença daqueles heróis. Num dado momento da trama, que joga todo o tempo (metaforicamente) com o problema dos refugiados políticos, é dito que pessoas a quem a aceitação foi vetada são condenadas a viverem nas sombras e no degredo. Ou seja, quem não tem visto de permanência, mora nas frestas da sociedade. Bruce Wayne é rico, mora numa mansão. Mas seu coração vive no terreno baldio chamado purgação, pois quem busca a paz pelo vigilantismo, fazendo o que é certo onde a Lei bate seu martelo pelo que é errado, vive na penumbra, nas trevas, numa caverna. O mesmo vale para as guerreiras da Ilha Paraíso ou para o povo peixe de Atlântida. Não há integrante da Liga que possa respirar em paz ao Sol. Nem o Flash, cujo pai (o sempre ótimo Billy Crudup, com quem Snyder fez Watchmen) está na cadeia, por um crime que não cometeu. Todos os super-heróis deste filme ostentam na pele cicatrizes do interdito. E elas doem. Mas o machado do Lobo da Espete dói mais. E para poupar a humanidade de seu corte, as dores deles terão de se combinar. Todos juntos, esses saltimbancos mascarados ficam mais fortes: são flecha e arco, todos no mesmo barco.

Zack Snyder no set

Zack Snyder no set

É bonito ver Snyder desapegar-se das cordas do trágico e apostar no épico. Desde seu cult sobre zumbis, Madrugada dos Mortos (2004), o cineasta se fez como uma espécie de profeta do niilismo em Hollywood. Seus filmes refutam finais felizes e contestam a soberania da Bondade nas narrativas, pois cada the end filmado por ele carrega em si uma centelha de desesperança, uma percepção de que herói é aquele que precisa ser imolado, o Cordeiro de Deus a sangrar pelo pecado do Homem. Foi o que mostrou no hobbesiano 300 (2007). Era esse o destino de Roschach em Watchmen (2009). Deu-se o mesmo com as corujas falantes de A Lenda dos Guardiões (2010) e com as cocotas de shortinho no manicômio de Sucker Punch (2011). Nem Kal-El, o último filho de Krypton (Henry Cavill, aqui em seu melhor desempenho), o diretor livrou de ter de sujar as mãos em Homem de Aço (2013): o bom moço máximo dos gibis foi forçado a matar para nos salvar da fúria de seu algoz Zod. Não por acaso, no meio de Batman Vs. Superman, Kal-El profetizava: “Nem tudo permanece bom!”. Tinha razão: na América sobre a qual Snyder fala, as virtudes do altruísmo viraram tão irreais e impalpáveis como as histórias em quadrinhos. Não por acaso ele cita, frontalmente, as HQs de John Byrne, o quadrinista que desconstruiu o Super-Homem nos anos 1980, humanizando-o na esfera do desejo e da fraqueza moral: mitos existem para serem quebrados e mais tarde refeitos como lendas. Liga da Justiça é parte Byrne, parte Alex Ross e muito Crise nas Infinitas Terras, saga seminal, editada de 1985 a 86, sob a pena de Marv Wolfman e George Pérez. Lá… a erosão das eras unia heróis antípodas. O mesmo se dá aqui. E a forma de narrar de Snyder, na imagem, é convulsiva como os traços de Crise.

O Lobo da Estepe: vilania

O Lobo da Estepe: vilania

A partir da releitura de Snyder para a mitologia da DC, ele nos faz ver o esboço de civilização que nos tornamos, a fim de nos permitir um caminho para que nos distanciemos desse rascunho social pautado pela barbárie. É hora de arte-final. Não por acaso, na forma, o novo longa de Snyder é tão bem acabado em seu parque de efeitos especiais, com um realismo que sustenta criaturas apocalípticas, explosões e missões mais mundanas como a delirante luta da Mulher-Maravilha contra um grupo armado logo nos planos iniciais. A montagem a seis mãos de David Brenner, Richard Pearson e de Martin Walsh vai e vem do realismo, vai e vem do chiaroscuro, vai e vem do onírico, fazendo convergir sonho e fato, perplexidade e abstração. Temos algo tão elétrico quanto Os Vingadores (2012), só que mais profundo. Perto de uma piada como o desrespeitoso Thor: Ragnarok, a Warner mostra pra Marvel o que é fazer filme de super-herói com f maiúsculo: de fibra.

Na versão brasileira, o maior dublador brasileiro em atividade, Élcio Romar, empresta a voz ao comissário Gordon. O também experiente Luiz Carlos Persy cede o gogó a Alfred, o mordomo do Morcegão. Na dublagem nacional do Homem de Aço, o infalível Guilherme Briggs depura seu estilo épico.

Ó… tem duas cenas pós os créditos: uma é pura gargalhada. A segunda é a chave para a necessária parte dois. Um contrato de Judas pode ser selado.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5
  • Sr. Incrivel

    otima critica,das melhores que li