‘Amar’ e ‘perder’, verbos que não desafinam

Apoiado num elenco em plena alquimia, 'Todas as canções de amor' é o cartão de visitas da produtora Joana Mariani para o time de cineastas com talento para radiografar o querer, atestando o vigor de Luiza Mariani como estrela

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07 de novembro de 2018

Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso se afinam nos acordes do querer em "Todas as canções do amor"

Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso se afinam nos acordes do querer em “Todas as canções do amor”: jovem casal encontra uma fita k-7 com memórias de um ‘desamar’

Rodrigo Fonseca
Cena: é 1976, rola o Montreaux Jazz Festival e Nina Simone senta ao piano para tocar uma velha amiga dos brasileiros, “Feelings”, que Morris Albert celebrizou nos quilohertz de nossas AMs e FMs. A dado momento da canção, “trying to forget feelings of love”, com “teardrops rolling down on her face”, a diva vira pra plateia e despeja: “que situação pode demandar uma canção como esta?”. A pergunta vale para “Todas as canções de amor”, sobretudo quando Clarisse (Luiza Mariani, em estado de graça) estende um bem-casado (aqueles docinhos de festa, meio Leite Moça, meio Nescau), com energia que dá gosto, ao namorado, o músico Daniel (Julio Andrade, luminoso), esperando sintetizar no gesto um “fica comigo” que palavras não são boas para traduzir. E, ainda assim… o cara não lê os sinais. Não lê não pelo analfabetismo afetivo masculino crônico. Não lê porque não quer. Feelings of love. Feelings daquele tipo, wish I’ve never met you; you’ll never come again.

Mas isso é só de um lado da gangorra construída pela produtora Joana Mariani (“Trinta”), em sua estreia como realizadora de longas-metragens de ficção. O extremo onde Clarisse ama Daniel que ama… os acordes de seu violão… ficaram 20 anos no passado. Eles remontam a uma década de 1990 de lambadas e sertanejo mauricinho. Leonardo ainda tinha Leandro. Namorados demonstravam seu afeto recheando Basfs de 60 minutos com LPs breganejos. Esse é o lado B deste belo filme pautado numa simetria de tempos, com uma estrutura narrativa de parlatório onde os verbos todos oscilam entre “conquistar”, “perder” e “manter quanto dá”. Por isso, nele, a fotografia de Gustavo Hadba (um artista em dias de apogeu, vide “O Grande Circo Místico”) se esfumaça… É um marxismo básico, ainda que num ambiente burguês: tudo o que é sólido, desmancha… no ar do descuido.

Tem um outro hemisfério, o lado A, no qual um casal recém-aliançado se trança num ritual de suspiros, gentilezas e escolhas do tipo “massa ou salada”. Ali, sob fotografia mais saturada, de luz impávida, numa insinuação de perpetuação, Ana e Chico (Marina Ruy Barbosa e Bruno Gagliasso, afinados e afiados) vivem em clima de comédia romântica. Ela é a Meg Ryan que se perde na descoberta de um K-7 com as gravações de Clarisse para Daniel: o réquiem para o querer. Chico é o Tom Hanks em sintonia com o sonho de algo que entre sem bater e fique para sempre. Os dois são Hollywood. Clarisse e Daniel são Cinema Novo.

O elo comum entre eles é um apartamento, o real protagonista deste “A noite americana” que a Truffaut Mariani estrutura como um estudo das vicissitudes da convivência. Cabe qualquer um ali naquele dispositivo, que lembra aquele usado por Arnaldo Jabor em “Eu sei que vou te amar” (1986). A diferença é que em vez de mapear os protagonistas por cômodos, ela o faz por músicas. No fundo, cabe qualquer personagem ali, qualquer casal. O apartamento é a estrela, pois ele é o signo de concreto das inquietações das metrópoles. E são elas que geram a erosão dos sentimentos. A pressa, as contas a pagar, as desmesuras, as fake news plantadas por sogras ou amigos à moda Iago (de Othelo). Tudo isso é ferrugem. Tudo lembra aquilo que o dramaturgo Jean Anouilh, autor de “O viajante sem bagagem”, alertou “existe o amor, é claro; mas existe a vida, sua inimiga”. O roteiro de Juliana Araripe, Nina Crintzs, Vera Egito e              Roberto Vitorino é a radiografia dessa ferrugem em ação, é o retrato da oxidação vista em dois tempos, com atuações inspiradas.

Numa genealogia do romance no cinema brasileiro, “Todas as canções de amor” conversa com “À flor da pele” (1977), de Francisco Ramalho Jr.; com “Bar Esperança – O último que fecha” (1983), de Hugo Carvana; com “Separações” (2002), de Domingos Oliveira. E, como já dito, com Jabor: a partir dele, vemos que Clarisse é legal, ela é carnaval, usando toda a experiência de uma grande atriz, Luiza Mariani, que raro teve o reconhecimento à altura da potência que tem. Tem muitos cinemas em Joana Mariani, mas tem feelings muito autênticos, dela, que tornam o k-7 encontrado por Chico e Ana numa máquina do tempo. Esta máquina faz do longa de Joana uma sci-fi à moda Michel Gondry, que veste bem em todos os tamanhos, mais ou menos como “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004). E o brilho de Clarisse vestida apenas de sol numa cena de pura poesia é pra abrir a gira de Joana como cineasta no diapasão da apoteose.

 

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5