AmarElo – É Tudo Pra Ontem

Novo Ano, Novas Narrativas

por

03 de janeiro de 2021

FB_IMG_1609679221149Já que não teremos praia e fogos de artifício, confira produções na telinha de sua casa neste Réveillon ao ritmo de nomes prestigiados como Emicida, Pabllo Vittar, Majur, Fernanda Montenegro, Denzel Washington, Viola Davis, Jamie Foxx, Angela Bassett, Tina Fey e até o saudoso Chadwick Boseman de “Pantera Negra”.

Celebrando a chegada de 2021 com suingue e gingado pra renovar os ares de um ano difícil, vamos falar sobre filmes que acabaram de aportar nos canais de streamings ao som de muito samba e hip hop… ou mesmo de blues, jazz e soul. Mas isso não quer dizer que sejam “musicais” propriamente ditos, e sim que suas narrativas são construídas a partir da sonoridade e cadência melódica das imagens. Iremos ver como a composição de trilhas e partituras pode ser personagem, e diz muito da fabulação visual do cinema, e de nossas vidas, mesmo antes de abrirmos os olhos para vislumbrar como tudo se materializa na tela ou fora dela.

Como estamos ainda em plena pandemia mundial, é hora da virada com muito cinema e música, na segurança de nossas casas, pra dançar e refletir ao mesmo tempo! A começar por “AmarElo – É Tudo Pra Ontem” de Fred Ouro Preto, documentário da Netflix e do Laboratório Fantasma sobre o mais recente álbum homônimo do cantor e compositor Emicida. Além disso, a mesma Netflix traz um dos francos favoritos ao Oscar 2021, “A Voz Suprema do Blues”, dirigido por George C. Wolfe e produzido por Denzel Washington, com Viola Davis e Chadwick Boseman no elenco (que provavelmente receberá indicação póstuma). E por último, mas não menos importante, o provável ganhador na categoria de melhor animação em todas as premiações vindouras, “Soul” de Pete Docter e Kemp Powers, lançamento da Disney Plus.

Vamos começar pela sensação do momento, “AmarElo – É Tudo Pra Ontem” que coloca em foco os bastidores do álbum homônimo do rapper Emicida, ao mesmo tempo que faz um inventário da história negra no Brasil, ressignificada e valorizada a partir do samba e seus flertes e afluentes no hip hop e no funk. O filme está tão em voga que foi destaque no programa de variedades da Rede Globo, o “Fantástico”, com participação do próprio cantor e das convidadas especiais Majur e Pabllo Vittar para cantar sua versão do sample de “Sujeito de Sorte” de Belchior – cujos versos “Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro” viraram símbolo de resistência às agruras destes últimos anos.

Não é de hoje que essa tendência estética toma as telas da sétima arte, criando uma linguagem híbrida com álbuns visuais de grandes artistas no mundo do entretenimento que viraram “cinema sônico” (nas palavras de Beyoncé, que lançou neste sentido o seu próprio “Black is King” em 2020, leia mais aqui: http://almanaquevirtual.com.br/as-cineastas-do-fantastico-beyonce/ ). ‘Audiovisual’ compreende a palavra ‘áudio’ além de ‘visual’, mas esta é uma camada que as pessoas colocam em segundo plano perante roteiros habitualmente cheios de tramas e reviravoltas mirabolantes, ou diálogos bem escritos, mas que acontecem independente das personagens que os enunciam.

Ou seja, podemos colocar alguém para narrar o filme inteiro e jamais aparecer na tela; ou tampouco precisamos combinar o que está sendo dito com as imagens que estão sendo mostradas… Isso faz parte da tridimensionalidade com que podemos contar uma história. E, para além do que é dito ou mostrado, ainda existe a instância do intangível, o que você sente. E sentir não precisa de explicação.

Como toda boa música, não precisamos ‘ver’ o som para receber suas sensações em nossos poros, arrepiar os cabelos da nuca ou fazer os pés se mexerem. Por isso, álbuns visuais existiram por toda a história, mas nem sempre fizeram sucesso. O que faz deles mais do que um mero ‘show filmado’ ou ‘videoclíptico’? Talvez alguns exemplos positivos lembrados de imediato sejam “A Hard Day’s Night” dos Beatles (1964), “Quadrophenia” do The Who (1979) e a obra-prima “The Wall” do Pink Floyd (1982), todos estes possibilitados pela fama das respectivas bandas e prestígio na época do auge do rock and roll, apesar de não deixar de haver algum privilégio branco envolvido nessa história.

A coisa começou a mudar quando o artista Prince lançou seu “Purple Rain” (1984) e saiu com o Oscar de melhor canção original para a faixa título, dando algo a mais do que apenas a mera representação visual de sua música, mas sim algo maior: um símbolo. Uma declaração. Isso quer dizer que representatividade importa, um lema bastante repetido aqui na coluna, e que continuará a ser repetido até introjetar naturalmente nos leitores.

E, como Beyoncé se destacou em 2020 com seu filme “Black is King” no cenário internacional, justamente por unir a sonoridade com as raízes históricas afrodescendentes, antes ausentes no filme “O Rei Leão” (de onde o álbum havia primeiro se originado como trilha sonora), não é exagero algum dizer que Emicida fez o mesmo para o Brasil com o seu “AmarElo” – álbum e filme. Existe neste documentário algo que vai muito além dos bastidores do show do artista no Teatro Municipal de São Paulo, o que por si só já se trata de um marco, o qual decoloniza um histórico elitista da arte que fez daquele prédio outrora um muro separatista em nome da branquitude – um privilégio antes impossível para a cultura emergente da periferia, por exemplo.

Entre performances no palco e entrevistas nos estúdios, o filme traz, proporcionalmente, uma enciclopédia invisibilizada nas mídias hegemônicas de referências a figuras históricas cruciais para a constituição da sociedade brasileira, porém pouco creditadas até hoje. Desde pensadores, artistas, músicos e políticos… Um movimento de resgate muito necessário que vem acontecendo, podendo ser citada também a obra “Falas Negras” da Rede Globo e dirigida por Lázaro Ramos (leia mais aqui: http://almanaquevirtual.com.br/falas-negras/ ).

E por isso é crucial que “AmarElo” venha a somar com ainda mais nomes envolvidos na própria formação do país, como a geografia afetiva no urbanismo das cidades, vide Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas, arquiteto responsável por construções como a torre da antiga Igreja Matriz da Sé (1750), a fachada do Mosteiro de São Bento (1766) e etc… Valendo ressaltar como até estes desbravamentos estavam interligados às origens afrobrasileiras, narradas pela oralidade e pela música de resistência, e não a uma estrutura européia como se costuma creditar, o que amplia e fundamenta, inclusive, as letras de Emicida.

Além de Tebas, aparecem na tela outras figuras que fundaram movimentos e coletivos, e até se tornaram políticos, como Abdias do Nascimento, autor do livro “O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado” e fundador do Teatro Experimental do Negro (onde se formou Ruth de Souza). Além de Leci Brandão, primeira mulher a se unir aos compositores da Mangueira. Ambos supracitados foram eleitos deputados, lutando com pioneirismo por algumas políticas antirracistas. Sem deixar de lembrar as pensadoras do naipe de Lélia Gonzalez, professora, escritora e ativista que participou da formação do PT e do PDT, bem como da Assembléia Constituinte de 88 e do primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.

Há imagens preciosas que misturam desenho animado, entrevistas e arquivos em meio às composições de Emicida, como das personalidades da música Nelson Cavaquinho e Candeia, pouco vistos em nosso audiovisual do jeito que mereciam, restritos mais a obras do Cinema Novo, há de exemplo “Nelson Cavaquinho” (1969) e “Partido Alto” (1982), ambos de Leon Hirszman.
Só que, agora, estamos vendo a revolução tanto na frente quanto atrás das câmeras, numa fusão de linguagem vanguardista… Não apenas pela potência de juntar raça e gênero, convidando artistas trans e negras pra cantar com ele (Pabllo e Majur), ou por decolonizar o Municipal com um telão do lado de fora, para que as pessoas que não puderam pagar tivessem a chance de assistir ao show… Tudo isto bastante poderoso, decerto.

Porém vai além… e refabula o próprio arcabouço social. Pra ficar num único exemplo de muitos, este filme iria juntar a grande Ruth de Souza com Fernanda Montenegro, duas das maiores atrizes do Brasil, e que cinema nenhum havia pensado antes em colocar sob o mesmo holofote… Este é o nível de vanguarda desta obra, mas que, pelo falecimento de Ruth ano passado, isto acabou sendo impossibilitado no mundo de carne e osso. E é justamente por isso, por esta ousadia de sonhar e concretizar, que filmes como este precisam existir, para além do mundo material, para tornar as idéias imortais.

FB_IMG_1609679212382Originalmente publicada na Revista Fórum e ampliada para o Almanaque Virtual:

https://revistaforum.com.br/rede/novo-ano-novas-narrativas-amarelo-soul-e-a-voz-suprema-do-blues-por-filippo-pitanga/