Amargo Fruto- A Vida de Billie Holiday

Interpretação delicada dos atores Lilian Valeska, Vilma Melo e Milton Filho transforma o espetáculo em um bom entretenimento

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20 de setembro de 2015

Menina negra e pobre, nascida Eleonora Fagan Gough, em abril de 1915, na Filadélfia, Billie Holliday passou por todos os sofrimentos possíveis. Aos dez anos foi violentada sexualmente por um vizinho, e internada numa casa de correção para meninas vítimas de abuso. Aos doze anos, trabalhava lavando o chão de prostíbulos. Aos quatorze, morando com sua mãe em Nova York começou a se prostituir, antes de se tornar uma diva do jazz americano. Foi uma das primeiras negras a cantar com uma banda de brancos, em uma época de segregação racial nos EUA. Consagrou-se apresentando-se com as orquestras de Duke Ellington, Teddy Wilson, Count Basie e Artie Shaw,  e ao lado de Louis Armstrong. Billie Holiday foi uma das mais comoventes cantoras de jazz de sua época. Com uma voz etérea, flexível e levemente rouca, Sua dicção, seu fraseado, a sensualidade à flor da voz, expressando incrível profundidade de emoção, a aproximaram do estilo de Lester Young, com quem, em quatro anos, gravou cerca de cinquenta canções, repletas de swing e cumplicidade. Young foi quem lhe apelidou “Lady Day”. A partir de 1940, apesar do sucesso, Billie Holiday sucumbiu ao álcool e às drogas, passando por momentos de depressão, o que se refletia em sua voz. Billie morreu por overdose de drogas em 1959, depois de nos últimos anos de vida, ter sido progressivamente enganada nos seus ganhos e morreu com 70 centavos de dólar no banco e 750 dólares (pagos por um tablóide) por um artigo sobre sua pessoa. Esta foi uma grande parte da vida real e conturbada deste mito do jazz americano, que conseguiu transcender e equilibrar, em igual grandeza a sua esplêndida vida artística; o que minimizou um pouco a sua trágica existência.

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Já nas fotos podemos ver a enorme distância que separa o palco da plateia. Lilian Valeska (Billie Holliday) ao centro, fundo. Foto Claudia Ribeiro.

Em “Amargo Fruto – A vida de Billie Holliday”, em cartaz no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, o texto, atribuído a Jau Sant´Angelo e Ticiana Studart, é mais um exemplar da leva de musicais biográficos, onde se escolhe contar a vida de um determinado cantor e podemos ver daí por diante uma sucessão de ingredientes que compõem a receita de como se fazer um musical sobre a vida de um astro, ou uma diva, de nossa música brasileira ou internacional. Assim é o espetáculo que tem como premissa contar grande parte da vida de Billie Holliday em um formato engessado do fazer teatral. Como texto, o mesmo se revela apenas como um roteiro para contar de forma cartesiana a sofrida e triste história da dama do jazz. A direção de Ticiana Studart apresenta alguns entraves em sua concepção cênica e desenho do espetáculo. Utilizando o enorme palco do Teatro Carlos Gomes, como se ele fosse o Teatro Café Pequeno – teatro de câmara, com pouco mais de 100 lugares -, as marcas do espetáculo são absolutamente repetitivas, onde é usado apenas duas aberturas, que servem ora de entradas e ora de saídas. Desta maneira todo o espetáculo e todas as cenas, são realizadas da mesma maneira. O que potencializa também este formato esquemático, é o fato de que a montagem é realizada por apenas três atores. Uma atriz que interpreta Billie Holiday, e uma atriz e um ator que se revezam em inúmeras personagens. Ficando muito burocrático também o formato de narração, mais próximo de uma contação de histórias, e que deixa o microfone de Billie parado no proscênio durante todo o espetáculo. Onde a atriz/cantora precisa se dirigir sempre, em marcas repetitivas e idênticas, para poder cantar.

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O maior mérito do trabalho é a interpretação de Lilian Valeska, Vilma Mello e Milton Filho. Foto Claudia Ribeiro.

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Lilian Valeska (Billie Holiday) e Milton Filho (como várias personagens) em cena de “Amargo Fruto- A Vida de Billie Holliday”. Foto Claudia Ribeiro.

O cenário de Aurora dos Campos- bastante econômico e de difícil leitura -, se apresenta bastante espremido e pouco ordenado em cena, ao mesmo tempo em que leva todas as cenas para o fundo do palco e as laterais fundo – afastando mais ainda a encenação da plateia. Composto basicamente de um tablado para a banda – que na verdade ocupa um terço de todo o palco -, de um bar muito simples – a parte central do palco -, e de um camarim mais simples ainda – o outro terço da cenografia -, com apenas uma penteadeira e uma cadeira. Esta concepção espacial colabora em afastar os atores do público, e contrasta também com o belo, bem confeccionado e elegante figurino de Marcelo Marques. Ele sim, foi o responsável em preencher a cena, e dar volume e espacialidade à encenação. A iluminação de Paulo Cesár Medeiros, é também bastante burocrática em cumprir algumas marcas que já estão sedimentadas no teatro musical. O uso de refletores de lâmpadas Led, onde se abusa do uso de cores indistintamente, e também da angulação e distribuição de refletores que desenham na figura principal de Billie Holliday uma grande estrela. Recurso muito usado e de leitura fácil.

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Outro mérito do espetáculo é a direção musical e arranjos de Marcelo Alonso Neves. Foto Claudia Ribeiro.

Em “Amargo Fruto – A vida de Billie Holliday” a ótima direção musical e arranjos de Marcelo Alonso Neves, e o trabalho de interpretação de atores é onde o espetáculo consegue se sustentar. Nos bonitos e originais arranjos de Alonso, e na ótima execução dos músicos Berval Moraes (baixo acústico), Emile Saubole (bateria), Gabriel Gabriel (saxofone) e Rodrigo de Marsillac (piano); somadas a bela interpretação de Lilian Valeska como Billie Holliday, clara, precisa, potente, e de grande personalidade, Vilma Mello se revezando em todos os outros papéis femininos, com desenvoltura, força e competência, e Milton Filho se revezando também em todos os papéis masculinos, de forma muito bem dividida e acentuada, e ficando com a tarefa mais ingrata de todos, representar quase que todos os cafajestes do texto, com pouca variação de figurino. Neste caso aqui nem o ator e nem o figurinista podem levar esse crédito, pois a indumentária masculina não apresenta tantas variações e evoluções como a feminina, no decorrer dos séculos.

“Amargo Fruto – A vida de Billie Holliday” vale apenas como um momento mágico de ouvir e ver os atores interpretarem com muita dignidade a cantora, e as personagens que povoaram o universo dramático desta grande diva.

 

FICHA TÉCNICA

Texto: Jau Sant´Angelo e Ticiana Studart

Direção: Ticiana Studart

Direção Musical e Arranjos: Marcelo Alonso Neves

Elenco: Lilian Valeska, Milton Filho e Vilma Mello

Músicos: Berval Moraes (baixo acústico), Emile Saubole (bateria), Gabriel Gabriel (saxofone) e Rodrigo de Marsillac (piano)

Iluminação: Paulo César Medeiros

Cenografia: Aurora dos Campos

Figurino: Marcelo Marques

Desenho de Som: Branco Ferreira

Visagismo: Ernane Pinho

Preparação Vocal: Mona Vilardo

Direção de Movimento: Sueli Guerra

Preparadora de Língua Inglesa: Alma Thomas

Programação Visual: Clara Melliande

Assessoria de Imprensa: Ney Motta

Direção de Produção: Maria Inês Vale

Coordenação Geral: Maria Vitória Furtado

Idealização: Jau Sant´Angelo

Realização: Vitória Produções

 

SERVIÇO

 

Local: Teatro Carlos Gomes. Rua Pedro I nº 4, Praça Tiradentes, Centro. (tel. 21 2224-3602)

Temporada: De 20 de agosto a 27 de setembro, de quinta a sábado às 19:30h e domingos às 18h.

Valor do ingresso: R$ 60,00

Classificação indicativa: 12 anos

Duração: 90 minutos

Gênero: Drama Musical

 


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