Amizade tem fim?

Adeus a um amigo

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30 de dezembro de 2020

O que dizer quando uma amizade acaba?

Às vezes é difícil dizer até mesmo onde uma amizade começa… Se nos risos do vai e vem do balanço no parquinho, que sobe e desce a fitar que nos arremessa para fora do nosso mundo de segurança, só até olharmos pro lado e sentirmos que nossa amizade está lá conosco passando pelo mesmo balançar… Se no caldo das ondas que derrubam nossa tentativa frustrada de jacaré, mas que nossa amizade disfarça que sua sunga escorreu pra baixo e faz cortininha até você ajeitar… Se no único sorvete que estava meio caro, compartilhado entre vocês, porque só foi possível com as moedas catadas no chão por ambos, já que a mesada do mês não existiu em meio à crise ou ao castigo…

Marcas indeléveis dos significados de amizade, seja uma amizade desde a infância, de juventude ou já da fase adulta, independentemente, marcas que se repetem por analogia em qualquer idade. O balanço da praça é aquela namorada que ambos podem ter disputado pela atenção. A onda do mar é aquele emprego que ambos entraram juntos e talvez tenham saído separados. Como um prenúncio de alguns dos maiores desafios que iremos enfrentar na vida adulta, aquelas marcas de infância talvez fossem os primeiros testes a nos preparar para sermos derrubados algumas vezes e aprender a nos levantar e seguir em frente.

Talvez nunca se espere pelo pior… Mas a vida, assim como as ondas do mar e a revoada dos céus, torna-se imprevisível como uma força da natureza, parte de seu perigo e ao mesmo tempo de sua beleza. Por vezes somos derrubados juntos, por outras parece que um derruba o outro. A vida coloca amigos em sentido contrário em algumas situações… Eleições políticas; times de futebol; filmes de Godard ou de Truffaut, de Bergman ou Woody… Varda ou Denis… Escolhas impossíveis, paradoxais. Mas não é a escolha de cada um ou a direção tomada que definem uma amizade, e sim como reagimos a elas. Mesmo na distância que a vida nos dá não se pode deixar de sentir a empatia tatuada sob a pele como pacto de sangue feito com alfinete na ponta do dedo quando crianças. As maiores vulnerabilidades, vergonhas e ao mesmo tempo motivos de honra e orgulho estão todos lá, sob o conhecimento de anos, intensificado pela intimidade compartilhada de vida. De amizades em comum. De familiares. De romances e tragédias testemunhados em conjunto.

Não se pode apagar a memória. A memória e união mesmo na distância do esquecimento. A memória é cura mesmo diante do fogo do imediatismo incadescente de cataclismas cotidianos. O mundo pode estar ruindo, mas às vezes é aquele cheiro de comida que vos unia, ou o som daquela música que tocava quando vocês ouviram a notícia da primeira vitória pessoal, ou mesmo aquele filme passando sem som na TV do restaurante que lhe faz lembrar as muitas horas de conversa após a sessão mais disputada de um Festival. Sensações são curiosas e traiçoeiras, o amor é traiçoeiro, tanto como o ódio, dois sentimentos tão próximos da mesma moeda das emoções humanas. Podem se esgueirar pela memória e afetar o intocado, e reacender de maneiras imprevisíveis. Ódio também é amor quando se acalma e retoma perspectivas, assim como amor também pode ser ódio quando a pessoa precisa de uma válvula de escape para exorcizar todas as frustrações de vida daquele momento, até melhorar. Quem nunca brigou com os pais, ou com irmãos, ou mesmo com melhores amigos pelo repente das consequências com que não se sabe lidar…? E depois…depois se respira, se repensa, e se aprende.

Pode atirar o seu melhor, a amizade verdadeira sabe todos os alvos que podem lhe atingir e irá desviar. Pode descontar sua raiva, pois a amizade sabe que só o tempo arrefece e limpa o céu das nuvens de chuva. Pode desaparecer, pode bater a porta do quarto e se isolar feito criança quando não se quer ouvir… O tempo é o senhor do amor que traz as memórias de volta no coração das amizades. E se esgueira feito um sopro de ar no ouvido, contando as mesmas memórias de infância de quando vocês eram invencíveis. Eram senhores do reino. Eram os reis e rainhas. A hora do recreio uma hora ou outra acaba. As festas apagam as luzes… Há um toque de recolher. Os pais chamam de volta. Daqui a pouco vocês próprios serão pais ou avós de outras crianças que serão as futuras amizades no parquinho, mesmo que as duas famílias da amizade original nem se reconheçam mais, com o cabelo grisalho e as costas curvas do peso do tempo.

Mas um dia a lembrança do amigo volta… nem que seja como uma recordação boa que você não se lembra de onde. Nem que seja uma memória que um lado nem queira recuperar, diga que quer apagar, mente para si mesmo… Não tem problema. Pode descontar no velho amigo. Amizades entendem o ponto cego umas das outras. Tudo que elas querem é que a outra seja feliz… Mesmo que a vida ou o tempo as separe, mesmo que o maior sacrifício que se possa fazer quando se ama é aceitar que a outra pessoa será feliz à sua distância, e você não conseguirá estar perto para ver, mas quem ama sente. E já fica feliz apenas por sentir. E um dia…numa esquina da rua do passado; no banco do final da tarde diante da orla do mar refletindo o pôr do sol; nas últimas páginas da enésima leitura do seu livro favorito; na música que você nunca esperaria escutar no bar onde você bebia sozinho…; ou mesmo no choro de uma criança que lhe olha no colo dos pais como se lhe reconhecesse e apenas você pudesse tranquilizá-la ao sorrir de onde se encontra… Talvez aquele sentimento de que você não está sozinho no mundo possa trazer quem você menos espera. Que de todas as vezes que se sentiu incompreendido pelas injustiças do destino, havia alguém que lhe entenderia acima de tudo, e torceria por você. E talvez ainda esteja torcendo. À distância. Um amigo que se despediu, mas nunca partiu, no canto da memória, e sempre voltará, mesmo que apenas na lembrança.