Amnésia

Filme foi exibido no Festival de Cannes 2015 e no Festival do Rio 2016

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31 de outubro de 2016

O Nazismo é um tema que continua sendo uma fonte inesgotável para o cinema. A fim de mostrar o sofrimento da parte alemã da história, “Amnésia”, o novo longa-metragem dirigido por Barbet Schroeder (“Cálculo Mortal” e “Mulher Solteira Procura”) e escrito por ele, Emilie Bickerton, Peter Steinbach e Susan Hoffman, traz os personagens Martha (Marthe Keller) e Jo (Max Riemelt) em lados opostos que se encontram para que haja um crescimento pessoal mútuo. Ela, uma mulher idosa que vive sozinha há 40 anos em Ibiza, na Espanha, de frente para o mar e se recusa a falar sua língua natal e de seu passado, e ele, um jovem alemão, DJ de música eletrônica querendo crescer na carreira em Ibiza. Os dois tornam-se vizinhos e amigos. Os mistérios em torno de Martha intrigam Jo, e difíceis revelações são feitas ao longo desse relacionamento não convencional.

Assim como no filme “A Onda” (em que Max Riemelt também tem papel de destaque), há em “Amnesia” (no original) a discussão em torno da desinformação que os jovens alemães têm sobre o Nazismo e da vontade que alguns deles têm, ou não, de tomar conhecimento de todos os horrores daquele período terrível. Enquanto Martha representa o tradicional e o trauma que não deve e não quer ser esquecido, Jo representa o moderno e a superação do passado para que se possa seguir em frente. Ela criou uma couraça de aversão a tudo relacionado à Alemanha após ver tanto sofrimento durante a Segunda Guerra: recusa-se a falar a “língua dos nazistas”, não bebe seus vinhos, não pisa mais no país e não toca mais o seu antigo violoncelo. Já ele, está em início de carreira e sonha em tocar no clube Amnesia (sem coincidências com o título), logo só enxerga o futuro e ignora um passado que lhe foi amenizado e escondido até então. Diante de um cenário maravilhoso de mar infinito, florestas e pedras brancas encrustadas nas montanhas, os dois personagens vão reabrir antigas feridas não cicatrizadas para que sejam finalmente curadas. É na cena, bastante exagerada, em que surgem a mãe (Corinna Kirchhoff) e o avô (Bruno Ganz) de Jo que a cabeça do rapaz dá um nó – três gerações de alemães revivem momentos angustiantes do passado do avô e a vida de todos muda a partir dali.

A trama se passa quase completamente entre a casa da Martha e a casa de Jo, que se visitam frequentemente, quase sem conflitos. Há muitos diálogos entre os dois, porém alguns descartáveis que poderiam dar lugar a um desenvolvimento maior dos personagens e de sua relação, que fica indefinida até os últimos minutos de projeção. Ao contrário do drama consistente “Os Mortos e Os Vivos” (2012), “Amnésia” acaba sendo um drama morno, apesar de ser repleto de boas intenções. Schroeder escolheu realizar um filme com um tom mais leve em vez de um mais aprofundado e pesado. Há mérito, no entanto, em levantar essa importante questão, que ainda hoje é um tabu na Alemanha.

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

Amnésia (Amnesia)

Suíça / França – 2015. 96 minutos.

Direção: Barbet Schroeder

Com: Marthe Keller, Max Riemelt, Bruno Ganz e Corinna Kirchhoff.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 3