Amor Até as Cinzas

Jia Zhang-Ke entrega mais uma obra emotiva e expositiva digna de apreciação

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09 de novembro de 2018

Jia Zhang-Ke é um dos melhores storytellers de seu tempo, sempre com a China, seu país de origem, como cenário – ele fala do que conhece. Seu cinema é exposição, crítica e denúncia, mas também emoção. Através de “Amor Até as Cinzas”, seu mais recente filme, Jia mais uma vez utiliza o salto temporal para mostrar as mudanças sociais e econômicas ocorridas durante quase duas décadas na China e na vida da protagonista Qiao, vivida por Tao Zhao, musa do cineasta que o acompanha por quase toda a sua filmografia. Em 2001, na pequena cidade de Datong, Qiao está apaixonada e tem um relacionamento com Bin (Fan Liao), um mafioso local. Durante uma briga entre gangues rivais, ela dispara uma arma para defendê-lo e acaba condenada a cinco anos de prisão. Após cumprir sua pena, Qiao parte em busca do namorado para tentar recomeçar de onde pararam.

Em “Ash is Purest White” (no original), Tao Zhao reprisa, de certa forma, seu papel no longa “Em Busca da Vida” (2006), também de Jia Zhang-Ke, como uma mulher que parte em busca de um companheiro que não se importa mais com a sua existência. O que ambas as personagens desejam é uma resposta, seja ela qual for, para que possam seguir com suas vidas e encontrar o seu lugar no mundo. Com domínio pleno de câmera, Jia procura expor a pequeneza humana diante da natureza e da urbe contemporânea, cada vez mais individualista à medida que se moderniza, em planos abertos de tirar o fôlego, sem nunca deixar de dar atenção aos olhares e a diálogos muito bem colocados.

No que tange às relações do mundo moderno, Jia mostra como respeito, gratidão e lealdade mudaram o significado em tão pouco tempo e traça um panorama das novas relações, que se tornam mais e mais distantes com a constante entrada de tecnologia, devido à abertura política e econômica da China ao capitalismo, que, por sua vez, agrava a pobreza nas áreas periféricas e prejudica as relações trabalhistas. Ainda que lenta e bem extensa, a narrativa de Jia Zhang-Ke consegue envolver e manter o interesse do espectador na trama linear de “Amor Até as Cinzas”, um feito que muitos cineastas de Hollywood não têm alcançado nos últimos tempos. A habilidade de Jia em contar histórias é algo que deve ser muito valorizado e, claro, apreciado.

 

Festival do Rio 2018 – Panorama do Cinema Mundial

Amor Até as Cinzas (Ash is Purest White)

China / França / Japão – 2018. 141 minutos.

Direção: Jia Zhang-Ke

Com: Tao Zhao e Fan Liao.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4