Anistia

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25 de fevereiro de 2016

A intenção do cineasta Buyar Alimani, na direção do filme “Anistia”, é discorrer sobre uma sensação peculiar de aprisionamento ― aquela que afeta as pessoas que ficam do lado de fora enquanto um ente querido cumpre pena no cárcere. O drama do longa se desenrola na Albânia, quando a visita íntima é finalmente liberada pelo sistema penitenciário do país. Elsa (Luli Bitri) é esposa de um presidiário e, como se não bastasse a ausência do marido, ela foi vítima da crise de uma nação combalida ― a mulher foi duramente extinta do quadro de funcionários da fábrica na qual trabalhava. Com dois filhos para criar, dividindo o mesmo teto com o sogro que logo se mostrará intransigente, Elsa é a verdadeira presidiária em uma sociedade de liberdades ilusórias. Longe de casa, em Tirana, a capital da Albânia onde o marido cumpre pena, Elsa descobre mais de um motivo para sorrir, ainda que moderadamente ― Maya (Mirela Naska), uma amiga que lhe estende a mão e Shpetim (Karafil Shena), homem que, por ser casado com uma detenta, conhece as dores que a afligem.

Em “Anistia”, a rotina monocórdia dos personagens centrais, Elsa e Shpetim, é intercalada de modo a sugerir um encontro posterior; algo que dará, nem que seja por um curto período de tempo, um pouco mais de cor à existência dos dois. Filme de estrutura modesta, o aspecto mais interessante de “Anistia” é a forma como o diretor conduz a contradição que se estabelece na tal visita íntima. Quando Elsa e Shpetim encontram seus respectivos parceiros na cadeia para um tempo a sós, a câmera expõe no ato sexual sensações diversas como frieza, desconforto e constrangimento. Tudo, menos intimidade. É um encontro que impede a espontaneidade, automatizado, com data marcada para acontecer. Os rostos dos encarcerados nunca são mostrados, uma forma de manter o distanciamento e, inevitavelmente, afastar ainda mais qualquer possibilidade de intimidade. Sendo assim, o espectador também não se sente próximo desses personagens, dos quais nada conhece. Para ele, a única relação que faz sentido é proveniente do sentimento que aflora entre Elsa e Shpetim. Esses sim, notoriamente íntimos após os primeiros contatos. Desde o início, nota-se que “Anistia” é um filme pé no chão, que não irá se perder em curvas otimistas no interior de um ambiente que não as permite. Se os reais presidiários podem deixar a cadeia com o aval da anistia, a ausência de liberdade de Elsa e Shpetim não se mostra assim tão fácil de reverter. O destino irrevogável dos dois, que sela a crueza do filme, deixa claro que para eles a felicidade está bem longe, cumprindo prisão perpétua.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4