‘Ao Cair da Noite’: Parábola “indie” sobre a paranóia e o medo da ameaça invisível do terrorismo

Dirigido por Trey Edward Shults, longa está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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24 de junho de 2017

O cinema “indie” (aquele que é produzido sem as amarras do mercado popular) é o que melhor traduz o medo e as apreensões da consciência social, além é lógico, de deixar seus realizadores livres para levantar debates e criar divergências. Recentemente o tragicômico “Corra” (Run, 2017) levantou polêmicas sobre o racismo velado na sociedade norte-americana que, apesar de ter elegido um presidente negro, continua segregando o indivíduo pelo sexo, raça e credo.

David Pendleton interpreta Bud neste terror dirigido por Trey Edward Shults (Foto: Divulgação).

David Pendleton interpreta Bud neste terror dirigido por Trey Edward Shults (Foto: Divulgação).

Em “Ao Cair da Noite” (“It Comes at Night”, no original), o jovem diretor Trey Edward Shults (com apenas dois longas em seu currículo) faz uma radiografia expositiva sobre a paranóia da constante e invisível ameaça do terrorismo no seio da sagrada família norte americana. Fruto da produtora A24 (de onde saiu os interessantes “A Bruxa” e “Ex-Machina”) o filme é de um minimalismo absurdo e comprova que o menos é muito mais quando o espaço cênico (basicamente uma cabana e um bosque) é utilizado como uma parábola representativa de um universo muito maior.

A trama se baseia em questões apocalípticas com uma epidemia mundial dizimando a vida no planeta, matando entes queridos em poucos dias, mas foge do lugar comum por focar na cronicidade de como este medo (infundado ou não) corrói a tranquilidade doméstica dos indivíduos.

Riley Keough e Griffin Robert Faulkner em cena (Foto: Divulgação).

Riley Keough e Griffin Robert Faulkner em cena (Foto: Divulgação).

Aqui a mensagem é muito clara. Não confie em ninguém que não seja de sua família, mesmo que as aparências digam o contrário. Para bom entendedor, basta.

O casal inter-racial Paul (Joel Edgerton, que também é produtor executivo) e Sarah (Carmen Ejogo) vive em uma cabana isolada no meio da mata, com o filho adolescente Travis (Kelvin Harrison Jr.). É uma família unida pelo medo e pelos conceitos protestantes que ensina que toda ameaça deve ser eliminada custe o que custar. Lá fora uma epidemia eclodiu sem aviso prévio e o único jeito é o isolamento defensivo. Mas este mundinho particular começa a ruir quando um casal pede refúgio e divide o espaço que mais parece um cativeiro. O interessante jogo de dúvidas e incertezas invade o espectador em um filme repleto de fades e trevas (psicológicas e reais) com uma narrativa que faz questão de não esclarecer muita coisa.

Sem os famosos “jump scares” (sustos fáceis), “Ao Cair da Noite” pode não agradar aqueles que vão esperando um filme de terror pasteurizado, mas certamente surpreende pelo compasso sufocante de uma circunstância extrema onde o radicalismo e a paranoia estão se transformando nos verdadeiros horrores do século 21.

 

 

“Ao Cair da Noite” (It Comes at Night)

EUA, 2017. 91 min.

Direção: Trey Edward Shults.

Com: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr., Riley Keough.

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4