Apenas Mortais

Inversão de papéis

por

06 de novembro de 2020

Após ter um caso com um homem casado, em uma relação fadada ao fracasso que lhe custa o seu emprego, Xian Tian retorna à sua cidade natal para ajudar sua mãe a cuidar de seu pai, que sofre de alzheimer. Por melhores que sejam as suas intenções, porém, a doença de seu pai avança de maneira implacável e, ao mesmo tempo em que engata um novo romance com um conhecido de seu passado, vê sua vida em uma situação extremamente complicada.

O ciclo da vida que, por vezes transforma cônjuges e filho(a)s em pais e mães é cruel. Há algo de pouco natural – ou talvez natural demais – nessa inversão de papéis, por assim dizer, que parece naturalmente atrair o olhar humano. Consequentemente, nos traz diversas interpretações cinematográficas do “fenômeno” havendo, inclusive, narrativas que se utilizam do fantástico como metáfora, do qual se destaca Relic, da também estreante Natalie Erika James e que atraiu bastante atenção em no Festival de Sundance.

Este é o primeiro longa-metragem de Liu Ze, que também assina o roteiro e, aqui, impõe um estilo interessante nas filmagens. Com tomadas extremamente longas, imerge o espectador na vida dessa pequena família chinesa que, ao menos no início da narrativa, parece conseguir lidar com a progressão da doença do patriarca. Ao mesmo tempo, determina um ritmo extremamente lento ao longa, de modo a mimetizar o lento avanço da patologia. Afinal, por mais que o retorno de Xian Tian à residência traz um fôlego maior à sua mãe e, no começo, as coisas estivessem seguindo um rumo tranquilo, ao avançarmos, os problemas se evidenciam.

O caráter sóbrio e simplista do filme lhe concede quase que um quê documentarial. Isto é, por mais que não seja baseado em nenhuma história real – ao menos até onde se sabe –, não é difícil imaginar famílias brasileiras com os mesmos dilemas. Afinal, buscar ajuda profissional mediante pagamento é uma inevitabilidade, ou meramente um modo de evitar lidar com situações emocionalmente problemáticas?

O diretor não oferece respostas definitivas para as questões levantadas. Porquê não se trata de certo ou errado. Não é uma questão de tentar encontrar apenas uma personagem com a qual simpatizar, há mais terrenos cinzentos para se explorar, sobretudo a consciência do próprio enfermo que, decerto, não gosta – ao menos quando recobra o seu senso de ser – de ver o peso que impõe a seus familiares – o que nos leva, inclusive, ao momento mais emocional da história, com aproximadamente ⅔ do filme.

O impacto cultural do filme também traz comparativos interessantes. Justamente por ser de uma nacionalidade tão distante da nossa, é impossível não se perguntar se a frieza com a qual os médicos tratam os pacientes – e, por extensão, seus familiares – é uma característica da sociedade chinesa, do nível do hospital – olhando por um lado estritamente financeiro – ou, ainda, uma combinação dos dois fatores. O mesmo pode ser dito com o lidar com o luto das personagens, havendo uma importância estranha – ao menos para nós, brasileiros – com o modo como as pessoas devem se portar em um funeral, bem como as suas restrições.

Contudo, se anteriormente expõe-se haver uma sobriedade quase documentarial em Apenas Mortais, seu encerramento subverte essa característica, oportunidade na qual Liu Ze aproveita para impor uma autoralidade na trama que, por mais que pareça desconexa, abre a porta para interessantes interpretações. Trata-se, portanto, de um início sólido no mercado para o diretor, que traz um produto final ao mesmo tempo sóbrio e artístico, de modo algum perfeito, mas certamente atrativo e, talvez mais importante, relevante.