Apostas de luxo para domingo no Festival do Rio: Gus Van Sant e Karim Aïnouz

Na Première Brasil, a menina dos olhos do evento, documentários de Susanna Lira e Ana Rieper surpreendem pela delicadeza

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04 de novembro de 2018

DontWorry-Banniere-800x445 A pé ele não vai longe

Rodrigo Fonseca
Joias da programação da Berlinale 2018 vão se amontoar na grade do Festival do Rio neste domingo, em diferentes horários e locais de exibição. Ponha como prioridade “THF: Aeroporto Central”, de Karim Aïnouz. Cabem vários mundos nas instalações desativadas do aeroporto Tempelhof, criado em 1923 em Berlim: cada pedacinho dele hoje abriga um povo refugiado. Por seu olhar atento ao modo de sobrevivência encontrado por cada um dos atuais “habitantes” do THF, o cineasta cearense radicado na capital alemã Karim Aïnouz (“Madame Satã”) acabou conquistando o prêmio da Anistia Internacional no Festival de Berlim, onde esta coprodução franco-teuto-brasileira fez sua primeira exibição. Sua estreia no Brasil será hoje, às 19h, no Odeon. Em 97 minutos, o diretor acompanha a luta de sírios, afegãos e iraquianos que adotaram hangares abandonados como lar. O longa será precedido pela projeção do curta “O mundo é redondo pra ninguém se esconder nos cantos”, de Leandro Goddinho, sobre a diáspora LGBTQ, a partir do drama de um jovem africano.

Filme novo de Karim Aïnouz, "THF Aeroporto Central" ganhou o prêmio da Anistia Internacional em Berlim

Filme novo de Karim Aïnouz, “THF Aeroporto Central” ganhou o prêmio da Anistia Internacional em Berlim

Pedida obrigatória pro fim de noite deste domingo no Festival do Rio 2018 (1 a 11 de novembro): “A pé ele não vai longe”, de Gus Van Sant, com sessão às 21h, no Reserva Cultural. O aclamado realizador de “Elefante” (2003) está há quase dez anos distante das narrativas experimentais que lhe garantiram a Palma de Ouro de Cannes, fazendo dele um renovador de linguagem. Sua fase atual tangencia o melodrama. Seu novo trabalho, indicado ao Urso de Ouro de Berlim, recria a trajetória de John Callahan (1951-2010), alcoólatra que, após ficar paraplégico em um acidente de trânsito, virou um cartunista classe AA no quadrinho mundial. Joaquin Phoenix brilha no papel de Callahan. Tem mais uma dose na quarta, às 21h30, no Odeon.

“Eu devo este filme a Robin Williams, pessoa querida a quem eu dirigi em ‘Gênio Indomável’. Ele comprou os direitos dos cartuns de Callahan ainda nos anos 1990, sonhando em fazer uma cinebiografia do desenhista. Robin era amigo do ator Christopher Reeve, o Super-Homem dos anos 1970, e sonhava dar a ele o papel de Callahan. Era uma época em que Reeve (morto em 2004) estava numa cadeira de rodas e Robin queria que eu ajudasse ele a produzir esse projeto que nunca chegamos a tirar do papel”, lembrou Gus Van Sant, em entrevista ao Almanaque Virtual durante o Festival e Berlim, onde o longa disputou o Urso de Ouro, saindo de lá ovacionado. “O tempo foi passando, compromissos distintos foram nos separando, e, uma hora, soube da notícia e que Williams havia morrido. Anos antes de Robin partir, Reeve também se foi. Não fazia mas sentido tocar aquela ideia. Mas, há pouco tempo, saindo do filme ‘The Sea of Trees’, sobre purgação, essa história voltou à minha mão. E eu queria muito um bom enredo para filmar com Joaquin Phoenix de novo. Era o momento de voltar a Callahan”.

Bem diferente das narrativas experimentais mais radicais do diretor, como “Paranoid Park” (2007) ou “Elefante” (2003), pelo qual ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes, “Don’t worry, He won’t get far on foot é um dramalhão sobre perseverança, com pinta de autoajuda, de empapar lenços a choro, talhado a disputar indicações ao Oscar. Vai da tragédia à fofura sem perder o rebolado do encanto, sobretudo pelo empenho de Joaquin Phoenix ao reviver os dias de luta de John Callahan após um acidente que tira os movimentos de suas pernas. “Todos os fantasmas ali passam pelo alcoolismo”, disse o ator, que trabalhou a partir do livro homônimo de Callahan, com cartuns e memórias pessoais.

Donzelas Susanna Lira
A boa desta segunda é a sessão de “Correndo atrás”, de Jeferson De, às 19h, no Odeon. Depois de “Bróder” (2010) é impossível não alimentar forte expectativa em torno dos longas deste realizador de antológicos curtas ligados à afirmação do lugar de fala da população negra (como “Carolina”). Seu novo trabalho foi aplaudidíssimo nos EUA, em sua passagem pelo New York African Film Festival. Esta comédia aposta no carisma (farto) de Ailton Graça na pele de um batalhador profissional que vislumbra uma chance de mudar devida treinando um craque de futebol. Sessão extra: Dia 6, 20h45, Roxy 1.

Dos concorrentes brasileiros do ano, o achado deste Festival do Rio é o documentário de Susanna Lira: “Torre das Donzelas”. A produção levou a Première Brasil aos prantos diante dos emotivos depoimentos de um grupo de mulheres que foram presas políticas durante a ditadura, em SP, no Presídio Tiradentes. Dilma Rousseff é uma delas. Diante do atual estado de coisas do país, o longa de Susanna é o filme brasileiro mais relevante em termos éticos da atualidade, ancorado numa montagem delicadíssima. “Clementina”, de Ana Rieper, sobre a diva do samba Clementina de Jesus, também se impôs na telona do Festival pela delicadeza de sua edição. O evento termina no dia 11.