Aquarius

Debate sobre a repercussão política do filme e reconhecimento em prêmios no mundo

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31 de dezembro de 2016

Vamos falar de “Aquarius” de Kleber Mendonça Filho, da grande representante da atuação feminina brasileira Sônia Braga e… de política? Política de classe, de raça e, no caso em tela, especialmente de gênero.

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Bem, todo filme é político, como força declaratória de uma consciência coletiva livre a interpretações. O que não quer dizer que todo filme seja partidário. Infelizmente, o que algumas pessoas estão confundindo com a cisão ideológica ocorrida no Brasil é a fronteira entre política e partidos (o talento de Leni Riefenstahl sofreu na pele com a nebulosidade entre os 2).

E o que tudo isso tem a ver com “Aquarius”?

Muita coisa. Porque num filme de maior número de representantes femininas como as maravilhosas Sônia, Maeve Jinkings, Carla Ribas, Julia Bernat, as revelações Bárbara Colen e Zoraide Coleto, e tantas mais (independente de atores magistrais como Irandhir Santos, Humberto Carrão Sinoti e Tavinho Teixeira), o elenco logo de cara é uma declaração por si só. Ainda mais quando as mulheres em questão são desacreditadas pelo argumento mais velho do senso comum: “ela é louca, vadia, histérica, precisa de um homem”…..

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Mas e a sinopse do filme, onde se encaixa nisto? Algo que aconteceu de fato em quase todas as orlas praianas brasileiras, incluindo Rio de Janeiro, como com aa ruas Vieira Souto e Delfim Moreira, não apenas no emblemático crescimento meteórico de Recife. Sem ter mais para onde construir no metro quadrado mais valorizado existente, as megaconstrutoras fazem especulação imobiliária (que é crime) para expulsar os últimos residentes das casas de dois/três andares, alegando ser em nome da inevitável evolução urbana e construção de 30 andares para caber mais gente. Ou seja, em nome de se alegar um bem maior, “valeria tudo”, passar por cima de direitos individuais e até coletivos em nome de um coletivo ainda maior….maior ou mais seleto? Sempre que houver dinheiro justificaria tudo, vide a manchete de hoje do Globo que enfim assumiu o que todo mundo já sabia: as Privatizações. Eterna dicotomia histórica estatal, ceder mais ou menos ao setor privado para arrefecer a bolha especulatória.

E quem é a dona da casa a sofrer todo tipo de pressão e constrangimento? A protagonista na pele de Sônia Braga.

Sonia Braga protagoniza "Aquarius"

Sonia Braga protagoniza “Aquarius”

E daí surgem duas consequências importantíssimas a se levantar questionamentos:

1) teria o tratamento humilhante contra o direito individual, contra a proprietária da casa que as construtoras desejam demolir, sido o mesmo se fosse um proprietário homem? Sabemos bem que não. Exemplo histórico recente. Pois, independente das acusações POLÍTICAS que enfrentam, bem como enfrentam os mesmos que acusam e processam tais acusações, ninguém viu Lula ser chamado de vadio, prostituto, maluco, histérico, ou que ele precisava era de uma mulher, como Dilma foi. O direito individual e constitucional a uma ampla defesa, e de ser inocente até condenação que diga o contrário, esmagados por uma suposta coletividade totalizante que justificasse o desequilíbrio no respeito de quais das leis valeriam mais que as outras.

2) não, não só de política vive a arte do cinema. E Kleber domina a linguagem cinematográfica, como com a paradigmática decisão divisora de águas em trazer um de nossos alicerces da sétima arte de volta para o Brasil, Sônia Braga, em não só associá-la ao inegável cinema recifense de ponta, como em adulterar o representativo corpo de nossa eterna Dona Flor/Tieta/Gabriela/Mulher Aranha e a Dama do Lotação, algumas das maiores bilheterias nacionais desde antes da pornochanchada, ressignificando gênero, sexo, etnia (a personagem é identificada como possuindo ascendência negra) e idade (não tem vergonha nenhuma da idade que tem, aproveitando a força da experiência). Ela se tornou um totem da sobrevivência calejada e da transmutação de nosso cinema contra um sistema bichado e prejudicado que teima em se meter na sétima arte. Em dirigismos públicos que inibissem a total criatividade. (Vide a ridícula repercussão negativa conservadorista no Brasil quando a equipe do filme levantou as plaquinhas durante o Festival de Cannes, há dois anos, denunciando o Golpe em nosso país).

Kleber autografa seu talento nos closes de expressão de personagens, nos movimentos de câmera melodiosos e grandiosos quando saem do micro e viajam em travellings pro macro, pro céu de prédios a se perder de vista, ao mesmo tempo em que todos os planos-sequência nunca deixam de ancorar seu foco em Sônia, não importando a rapidez ou distância que a câmera percorra, sempre voltando a centralizar a protagonista a seu olhar para a cena. Aliás, a também mudar o olhar de classe ao se passar por uma simples divisória na orla da praia entre o bairro rico e o pobre, delimitado por um esgoto jorrando fezes a céu aberto, porém banhados pelo mesmo mar. Ao ressexualizar o cinema como metáfora intencional, resgata as potências inconformadas como furacões da natureza que existem dentro de nós, diante do que foi censurado ou castrado, especialmente pela política de gênero que também castrou a presidência (e por isso a censura de 18 anos para castrar mais ainda).

E tudo isso num domínio angular de corpos e encontros. Como o encontro de olhares de gerações que finalizam o capítulo 2 do filme entre Sônia e a personagem da namorada de seu sobrinho-afilhado, na pele de Julia Bernart, numas das cenas mais lindas de mútua identificação ao som de Gilberto Gil cantando “Pai e Mãe”.

Aliás, inteligente decisão de Kleber em dividir o filme em capítulos cujos títulos são propriedades que usam o que poderiam ser tomados como vulnerabilidades, como vaidades ou abstrações, em potencialidades de tratores. Identidades que não podem ser apagadas.

Sim, a evolução de uma suposta maioria pode às vezes atropelar as individualidades? Pode. Mas não por isso quer dizer que está mais certa e que as resistências individuais, como diria Ghandi, não devem levantar o questionamento, e que este possa um dia redimensionar novas verdades.