Aquarius

Crônica sensorial de uma militante pacífica da inconformidade social reinante no Brasil

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01 de setembro de 2016

Em seu segundo longa metragem, o diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho vem se afirmando como um cronista de questões sociais. Em “O Som ao Redor” de 2012, Kleber comparava a administração de um condomínio de classe média na cidade de Recife com a contaminação perpétua do coronelismo. Em “Aquarius” a pegada é outra, apesar da narração ser muito semelhante ao filme anterior. Aqui, Kleber fecha o foco em torno de Clara (em um desempenho iluminado de Sônia Braga), uma crítica de música aposentada que é pressionada a deixar seu apartamento, localizado em um prédio antigo de frente para o mar, por empreendedores que querem construir um novo condomínio.

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Dividido em capítulos (“O Cabelo de Clara”, “O Amor de Clara” e “O Câncer de Clara”), o filme é um verdadeiro caldeirão temático onde assuntos como nepotismo, ética, burocracia, classes sociais, sexo, envelhecimento, laços familiares e apego às tradições são discutidos ao som de canções que exercem papel fundamental. A identificação é imediata, pois o espectador perceberá que atrás de cada cena se esconde uma intenção sutil que agrega valores que ultrapassam o que é visto. Na verdade, “Aquarius” é um filme sensorial que transforma Clara/Sônia em uma militante pacífica da inconformidade social reinante no Brasil.

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Kleber apresenta uma personagem ambígua, que ao mesmo tempo em que se apresenta democrática e igualitarista, transitando entre as classes sociais sem nenhum problema, reserva um enraizamento egoísta às recordações de um tempo que não volta mais. Clara é culta, intelectualizada, sensual (mesmo tendo sobrevivido a um câncer no seio), mas não abre mão de seu espaço transformando sua preservação em uma resistência egoísta e arrogante às mudanças da vida (muito bem representada por uma rápida cena quando Clara encontra o filho de um ex morador do prédio).

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Kleber transforma momentos intimistas em cenas impactantes e embora o roteiro transborde em licenças poéticas e maniqueísmos unidimensionais, há uma sensibilidade nervosa que combina com uma determinada geração que parece viver em um aquário, defendendo  aquilo que não é mais possível.

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Aquarius (Aquarius)

Brasil, França, 2016. 142 min.

Direção: Kleber Mendonça Filho

Com: Sônia Braga, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Maeve Jinkings

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4