Aquele que Nasceu

Simplicidade aparente que dialoga com bons conceitos teatrais

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15 de julho de 2016

Foi com grata satisfação que assisti ao espetáculo “Aquele que nasceu” de Pedro Uchoa e direção de Adriano Basegio no Mezanino do Espaço Sesc no Rio de Janeiro. Uma peça aparentemente despretensiosa, à olhos leigos, mas que traz em si, questões pertinentes e bem-vindas ao fazer teatral. Partindo de um trabalho autoral, nos deparamos com a simplicidade do espaço cênico, que é precedida de um bom conteúdo dramatúrgico e de uma atuação e partituras físicas singulares. O texto de Uchoa é muito interessaste, em todas as histórias narradas, que passam pela morte e pelo nascimento, e tendo o primeiro texto de abertura já nos deixando em estado de alerta, e nos dando uma amostra do que viria a seguir, sem julgamentos de credo ou causa, Uchoa dá voz a personagens que narram, a partir de naturezas dramatúrgicas distintas, como suas vidas vieram de encontro à morte, como se o óbito trouxesse o privilégio da liberdade de expressão sem condenação.

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Pedro Uchoa se divide em vários papéis narrativos. Foto de Elisa Mendes.

Um ator/intérprete Pedro Uchoa, uma cena vazia de cenografia, uma luz simples de Ana Luzia de Simoni e João Gioia, que vai pontilhando as cenas, com a direção de Basegio, passando pela movimentação corporal e pela exploração de uso do espaço real. Ainda que tenhamos a impressão de que se trata de um laboratório/exercício/perfomance/work in progress, é possível ver um caminho bem apontado, em uma escolha estética e artística. Uma simplificação da encenação e de toda a produção técnica envolvida. O que faz aproximar o seu trabalho de conceitos bem similares aos desenvolvidos por Grotowski: um ator, seus instrumentos (corpo e voz), um espaço a ser explorado em sua realidade (como os usos reais da porta como porta, da cortina como cortina, e da janela como janela), um uso claro de uma presentificação e de uma postura bem delineada do seu trabalho. Sendo muito divertida também a movimentação, as expressões faciais e o bom uso de algumas vozes de personagens. Uchoa resolve todas as suas equações e lógicas cênicas com objetividade e um certo formalismo proposital. Estando tudo isto adequado ao estudo de uma proposta, que ele nos apresenta, de partituras corporais e ações físicas.

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A direção de Basegio encontrou formatos interessantes, e divertidos, de partituras cênicas. Foto de Elisa Mendes.

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A simplicidade da cena chama a atenção para a atuação e divertido texto de Uchoa. Foto de Elisa Mendes.

Um fato curioso, porém uma grande coincidência, é vê-lo citar em “Aquele que nasceu”, as figuras do Curupira e de Teobaldo – dois personagens de um espetáculo que me encontro em cartaz atualmente “Curupira”-, e fazer também vozes muito similares aos mesmos. Foi também isto uma grata surpresa. Fiquei curioso em ver mais coisas sobre o desenrolar deste projeto, e também sobre outros novos formatos teatrais de pesquisa, que ele venha nos propor.

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 3