Arábia

A narrativa proletariada na terra do sol contra o governo do mal

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19 de novembro de 2017

A noite do sábado dia 23 de setembro de 2017, com a exibição de “Arábia” e “A Passagem do Cometa”, mudou e muito as previsões da premiação da edição de aniversário do 50º Festival de Cinema de Brasília, o que se comprovou na noite seguinte com o clima de já ganhou com que de fato foi consagrado como melhor filme, ator (Aristides de Sousa), além de montagem (Luiz Pretti e Rodrigo Lima) e trilha (Francisco Cesar e Cristopher Mack). Até porque a excelente curadoria deste ano, estendida entre curtas e longas na mesma sessão, e com o acréscimo dos debates dos dias seguintes à exibição, realmente ajudou a contar uma história. E pareceu que “Arábia” foi a cereja do bolo desta história extra-filme.

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Esta edição do Festival está contando uma narrativa extra-filme incrível com a ordem com que a curadoria dispôs o emparelhamento das obras. Uma realmente catalisou, potencializou ou mesmo desconstruiu a outra nestes dias. Foi uma experiência inestimável. Porém, muita gente saiu se perguntando qual era a ligação desta vez com os filmes emparelhados na última sessão da Mostra Competitiva principal, o curta-metragem “A Passagem do Cometa” de Juliana Rojas e o longa “Arábia” de Affonso Uchoa e João Dumans. Mas o Almanaque Virtual chegou à conclusão de que ia além da solidão dos personagens ou o engajamento social, mas principalmente sobre o silenciamento e invisibilidade destes corpos sociais, que são escondidos dos olhos públicos ou por preconceito, ignorância ou descaso governamental, como o aborto e o imigrante trabalhador exposto a condições extremas e degradantes. Tanto que a tradicional mesa de debate do dia seguinte à noite de exibição tratou muito sobre este diálogo entre as obras trocado com este silenciamento, ora desinvisibilizado na tela, e como os filmes se comunicaram e provocaram catarses nas equipes um do outro.

Para entendermos o impacto de “Arábia” sobre outros filmes mineiros no universo audiovisual presente, para além da importância que a filmografia da região já possui no cinema brasileiro autoral, como com os exemplos das Produtoras Filmes de Plástico, EntreFilmes e agora a mais recente Pepeka Pictures, talvez tenhamos de voltar um pouco nossa análise para o Cinema Novo feito na década de 60. O saudoso cineasta Leon Hirszman, após assistir o hoje clássico “Deus e o Diabo na Terra do Sol” de seu amigo Glauber Rocha, falou que a linguagem do Cinema Novo havia dado um salto, enfim, do naturalismo inicial para um tom épico fundido perfeitamente, o que de fato o novo filme de Affonso Uchoa e João Dumans também consegue fazer. Então, poder-se-ia dizer que o naturalismo do cinema mineiro no olhar interno à rotina entre documentário e ficção estaria para o Cinema Novo como o tom epopeico de “Arábia” estaria para “Deus e O Diabo na Terra do Sol”?

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Talvez seja melhor destrinchar esta afirmação de forma mais cuidadosa. Até porque uma das maiores facas de dois gumes do Cinema Novo é que o movimento cinematográfico voltou seu olhar pela primeira vez a tentar descortinar a rotina de outras pluralidades brasileiras, como as favelas e o grande sertão nordestino, falando sobre o proletariado e as agruras do país como ninguém antes havia denunciado, porém o fez em sua maior parte sem o devido lugar de fala, e às vezes até exotizando o objeto de estudo. Talvez uma diferença de plano com o cinema mineiro recente é que a maioria de seus realizadores de fato se insere no próprio lugar de fala, como, por exemplo, o canônico André Novais que trabalha com a própria família tanto na frente quanto atrás das câmeras, mesmo em roteiros entre a realidade e o fictício. Nada contra o Cinema Novo, até porque naquela época expressões como “lugar de fala” sequer existiam, e de fato são apenas questões saudáveis de revermos nossos valores históricos à luz do presente, de modo a jamais encarar algo como definitivo e imutável, pois até retiraria a própria potência de ressignificação eterna de uma obra.

O fato é que se houvesse uma comparação com o Cinema Novo, o novo filme da dupla de diretores estaria mais para o próprio Leon do que para Glauber, apesar da inegável pegada épica a que se acrescenta na mistura. Leon talvez fosse o cinemanovista com o maior lugar de fala dentre todos, de admirável militância política em prol do proletariado, denunciando uma alienação das classes populares nas quais também se inseria, jamais voltando o seu olhar para algo que não lhe tocasse profundamente. O próprio trabalho anterior solo de Affonso Uchoa, “A Vizinhança do Tigre”, premiado no Festival de Tiradentes de 2014 como melhor filme pelo Júri oficial e o da Crítica, além do prêmio Abraccine no Olhar de Cinema de Curitiba, já trazia consigo o ator principal Aristides de Sousa em contribuição recíproca, anotando experiências pessoais do dia-a-dia daquela comunidade em todas as vicissitudes, mesmo que não seja necessariamente essa experiência que vemos na tela, pois ocorre uma fusão do real e ficcional apenas para preparar o elenco com a realidade análoga a que eles precisavam se ver imbuídos. Um trabalho que não objetifica para narrar algo sobre alguém e sim que se exerce de forma colaborativa para trabalhar com esse alguém, como sujeito.

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Aristides regressa agora em “Arábia”, e, ao invés de representar apenas uma comunidade, seu corpo e identidade irão se descolar do tempo e espaço, retrocedendo em uma história quase toda contada em flashbacks, com inúmeros núcleos, viajando através da leitura do diário de cartas do personagem pelo grande Estado de Minas Gerais numa historiografia do labor das camadas mais humildes da população. Um trabalho mal remunerado e em péssimas condições de saúde, de pedreiras sob o sol escaldante à metalurgia industrial como parte da engrenagem cruel da produção nacional. E talvez o grande feito do filme seja justamente não focar no trabalho em si, mas nas pessoas invisibilizadas em torno dele, que compõem o grande brasão do capital. A voz do povo.

O filme se utiliza das cartas para narrar em off quase todas as descrições de cena, em um interessante contraste entre o que de fato está acontecendo na tela, revelado de forma muito mais sensitiva do que material, e os sentimentos do personagem empregados nos relatos em áudio, pois Aristides constrói em cena um personagem propositalmente introspectivo e de não muitas palavras. Mal sabemos o que ele está pensando, apenas o que sente. De fato, uma filme bastante narrado pode soar cansativo, mas o trabalho de voz consegue dar conta do recado. Por outro lado, o mesmo não corresponde à única ressalva relativa à construção de personagens através das mulheres que orbitam a história do protagonista. Não porque elas não existam, mas não há necessariamente uma necessidade expressada em tentar tridimensionalizá-las, o que pode soar pouco crível, já que não haveria como se passar por toda esta odisseia sem cruzar personagens femininas plenas e tridimensionais. A família inicial, por exemplo, que começa a narrativa e depois irá ler as cartas, mas apenas voltando de corpo presente ao final da projeção quando se cruzam com o retorno do tempo ao espaço presente, é liderada por uma matriarca que interliga muitos dos afetos em cena, porém não ganha o tempo em tela que poderia por sua importância na vida do personagem a quem ela ajuda a desinvisibilizar ao simplesmente percebê-lo na multidão e individualizá-lo com carinho.

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A trilha do filme e a montagem, ganhadoras de prêmios no 50º Festival de Brasília, de fato mereceram e muito suas respectivas láureas, são os melhores atributos que conseguem prestar grandiosidade a uma jornada intensa e longa através de tantas cidades mineiras e paisagens diferentes de planos abertos deslumbrantes ao pôr-do-sol. Sobra até espaço para romance que, ao mesmo tempo que sofre da mesma deficiência de aprofundamento da personagem feminina, ganha em inovação por não transformar o drama humano do filme em caricatura clichê de gênero, justamente por ser tratado de forma oblíqua, crua e realista. Afinal, estamos escutando a leitura de cartas sobre o romance contado após o acontecido, e não acompanhando o desenrolar de algo que ainda não aconteceu. Então é cabível como deveria. A tessitura musical completa essa viagem, mergulhando nos usos e costumes como se estivéssemos com eles tocando violão na varanda sem jamais exotizá-los. Vale nota para a incrivelmente bem filmada sequência de abertura seguindo em alta velocidade uma bicicleta descendo as ruas íngremes de uma colina com a natureza como âncora ao redor, a natureza que testemunha e se sobrepõe eterna à qualquer história humana nela contida.