As 5 maiores decepções do 20° Festival do Rio*

Alguns dos filmes mais esperados que podem ter decepcionado

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08 de novembro de 2018

Agora que ultrapassamos a metade do 20° Festival do Rio, segue um balanço das maiores DECEPÇÕES e SURPRESAS:

Vamos começar pelas 5 maiores Decepções:

1) “A Casa que Jack Construiu” de Lars Von Trier

Desta vez o cineasta polemizador passou dos limites…e despejou uma tortura totalmente consciente cuja catarse não alcança a justificação correspondente — principalmente se levarmos em consideração que o diretor usou esta nova obra para legitimar toda a sua filmografia dentro dela, autorreferenciando cenas de sua carreira da pior maneira pretensiosa possível, em meio a ironias com Hitler e Stalin — sorry, bro, mas com certas coisas não se ironiza sem o devido estofo, senão pode sair pela culatra.

Leia minha crítica completa aqui:
http://almanaquevirtual.com.br/a-casa-que-jack-construiu-42-mostra-de-sp/

2) “As Viúvas” de Steve McQueen

Sei que agora vou decepcionar muita gente (😢), pois um bocado idolatrou este filme, e não digo que é uma decepção do tamanho da do filme acima… Mas a expectativa para o novo Lars já era baixa após a declaração do mesmo em Cannes há uns anos atrás, enquanto que a do novo filme de McQueen era altíssima. Talvez daí o tombo…ou melhor, o tropeço diante do esperado. O diretor continua tendo olhar apurado para a dança de corpos no raio X social como em clássicos como “O Operário” e “Shame” (ambos com Michael Fassbender — que teria feito muitoooo melhor que Liam Neeson aqui), mas infelizmente a corporalidade física presente não possuiu o mesmo ânimus de desenvolvimento interno. Apesar de encorajador ver um elenco principal formado por maioria de mulheres “empoderadas”, como a maioria das pessoas está adjetivando, não consigo embarcar na construção que pavimenta este percurso nem acreditar totalmente no destino dele… Há sim coisas e detalhes pontuais brilhantes muito maiores do que o filme em si, especialmente nas nuances do não dito e das microrrelações entre as personagens, especialmente entre Viola Davis e Elizabeth Debicki (esta segunda sim extremamente bem trabalhada e possuindo até mais camadas de roteiro do que a própria Viola) — com menção honrosa para a personagem de Cynthia Erivo, que com pouquíssimas palavras e expressões faciais e corporais supre todas as negligências, elipses ou lacunas intencionais ou não do roteiro e montagem. É um thriller eficiente, e mil vezes melhor numa mesma pegada do risível e vazio “Oito Mulhetes e Um Segredo”, já que com este exemplar McQueen consegue superar apenas com 4 mulheres o entretenimento que falha no das 8… Todavia, para o realizador do brilhante “12 Anos de Escravidão”, fica muito na superfície para tirar qualquer coisa que apenas um resultado de frenesi descartável, ainda que nada impeça o diretor de abraçar um projeto comercial de grande volto como este e conseguir fazer um blockbuster a contento e até ligeiramente superior aos 70% dos pipocões anuais por aí.

3) “O Peso do Passado” (no original “Destroyer”) de Karyn Kusama

Algumas poucas pessoas chamando de obra-prima… Quem sou eu para desacreditar as poucas coisas que andam motivando e animando as pessoas neste estado politicamente desabonador brasileiro, mas simplesmente não deu certo para mim. Todo costurado a partir da premissa de uma vingança dilatada no tempo e na memória, é uma pena que o vai e vêm da montagem não consiga envolver com os arquétipos erigidos como sustentáculo. Principalmente o vilão, mal construído sobre um fiapo de trama que aludiria a uma espécie de seita da qual a protagonista na pele da grande atriz Nicole Kidman precisaria se libertar… Mas grande parte do problema reside justamente no abismo entre a debilidade do antagonismo e a grandeza de Kidman, cuja interpretação já vinha extremamente alardeada como uma desconstrução memorável, totalmente desglamurizada e destruída com ajuda de muita maquiagem (razoável) e perucas diversas (todas horrorosas), pois a destruição na pele e envelhecimento da atriz não corresponde ao tamanho do trauma que ela leva 17 anos para superar roteirizado de forma pouco crível. Talvez e precisamente porque a montagem retarde o máximo possível para o final algumas informações para guardar uma surpresa dentre os lapsos temporais do filme, o que esvazia a ligação com a protagonista que perde o poder de conexão até que chegue a revelação que lhe dará empatia, e aí você chega ao final mais com indiferença do que com o envolvimento necessário. Ainda assim é muito positivo o esforço de ver uma boa diretora (de êxitos indies como “The Invitation” que no Brasil foi direto para Netflix, e fracassos retumbantes de forma cult como “Aeon Flux”), ainda mais com uma atriz forte guiando a trama truculenta e amoral que geralmente seria guiada 100% por protagonistas masculinos — ainda que não tenha sido este exemplar aquele que será lembrado por mudar o jogo, mas sim um passo a mais no caminho de mudança atual.

4) “A Prece” de Cédric Kahn

Filme equivocadamente doutrinatório. “A Prece” de Cédric Kahn com Anthony Bajon (ganhador de melhor ator no Festival de Berlim 2018) é um filme doutrinatório e dirigista que simplesmente não apresenta conflito nem tensão, nem uma tese ou confrontamento desta tese, e vende a fé como solução dogmática absurda e cega pra tudo, mas o ator principal está de fato relativamente bem no papel (Ainda que este crítico que vos escreve humildemente peça vênia para discordar do prêmio concedido a ele na Berlinale — e estive presente em Berlim, além de ter conferido todos os filmes da competição, para poder afirmar isso)… O que não segura as pontas por si só, na verdade, é todo o pacote que é problemático.

Crítica em Vídeo direto da estreia do filme em Berlim 2018:

Debate sobre o filme em Berlim:

https://www.youtube.com/watch?v=JSBc-haIulE

5) “José” de Li Cheng

O filme ganhou o prêmio do Leão Queer de melhor longa-metragem de ficção com temática LGBTQ+ — além de ter sido muito bem recebido por parte do público na 42° Mostra de São Paulo, antes de aterrissar em sua segunda exibição no Brasil aqui no 20° Festival do Rio. Porém, talvez pela enorme expectativa, o filme fracassa retumbantemente perante a ótica deste crítico em todas as propostas a que se debruça. Em primeiro lugar, é um filme cuja premissa relativamente simples, seguindo um jovem rapaz na Guatemala que precisa cuidar da mãe enferma e possui dificuldades em assumir sua homossexualidade numa sociedade homofóbica, já alcançaria um bom resultado com a escolha inicial de seu diretor em filmar num registro mais naturalista… Acontece que a partir de determinado momento da projeção, o cineasta talvez por se sentir mais seguro começa a arriscar mais e inserir certos dirigismos grandiloquentes em meio à filmagem naturalista, criando contrastes que não combinam nem se encaixam. Alguns exemplos que podem ser dados é uma trilha orquestrada no extracampo em cenas de transição que não pedem por ela e que não condiz com a predominância diegética de priorizar apenas o que acontece dentro do quadro ate então. Outro exemplo são alguns enquadramentos que passam a ser milimetricamente planejados em tons de luz e sombras, exigindo uma proximidade da marcação de cena dos atores em tela cujos diálogos passam a ser recitados de forma engessada sem demonstrar o preparo para esse tipo de exposição cujo calcanhar de Aquiles na atuação até agora não havia de demonstrado pela preferência por planos médios e conjuntos que os filmava apenas à distância. Quando a pantomima vira mais teatral, a dramaturgia cênica dos protagonistas não consegue segurar o rojão e contrasta com o tom anterior, parecendo encenado de forma exagerada. Tudo bem que é positivo o fato de o longa-metragem advir de uma filmografia guatamalteca rara de se ver nas telonas no resto do mundo, ainda mais sob a batuta de um cineasta chinês, mas talvez o seu lugar de fala de um estranho vindo de fora tenha falhado, inclusive, em captar nuances locais mais ricas do que apenas a trama principal… Sem falar que tudo que é positivo alcançado com a naturalidade com que a nudez e sexo são filmados se torna um pouco desperdiçado pela extrema binariedade com que são tratadas…Às vezes o conflito do protagonista em se libertar ou não da mãe poderia desembocar na mesma história mesmo que o casal fosse hétero, infelizmente…😢

*Os argumentos aqui descritos refletem o ponto de vista apenas do almanaquista que vos escreve, presentemente subscrito, e não da equipe como um todo.