As Aventuras do Pequeno Colombo

Animação peca pela falta de coerência e por texto atrasado, racista e machista

por

06 de julho de 2017

O cinema nacional tem investido bastante na produção de animações nos últimos anos, especialmente animações mais voltadas para adultos com maior qualidade técnica, como “Uma História de Amor e Fúria”, “Até que a Sbórnia Nos Separe” e “O Menino e O Mundo” (indicado ao Oscar de Melhor Animação e premiado em Annecy). Infelizmente, as animações infantis (à exceção de “As Aventuras do Avião Vermelho”) ainda estão longe de alcançar o mesmo nível de qualidade das adultas, com exemplares como “Minhocas, o Filme”, “O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes” e “Peixonauta – Agente Secreto da O.S.T.R.A.”. Apesar de tentar se destacar com personagens históricos, “As Aventuras do Pequeno Colombo”, novo longa-metragem animado de Rodrigo Gava (“Turma da Mônica em Uma Aventura No Tempo”), se encaixa bem neste grupo.

As Aventuras do Pequeno Colombo1

Na trama, o jovem Cris (Cristóvão Colombo) e seus amigos Leonardo da Vinci e Mona Lisa partem em busca da lendária ilha de Hi Brazil, que possui tesouros escondidos muito cobiçados por piratas, para tentar salvar sua família de Cris da falência. No caminho, são surpreendidos pelo cruel povo das águas e sua terrível fera marinha Nautilus, e agora precisam lutar para salvar suas vidas e retornarem para casa em vez de pegar o tesouro. Sim, é isso mesmo: Cristóvão Colombo, Leonardo da Vinci e Monalisa juntos numa mesma história, além de criaturas marinhas, piratas, Cavaleiros da Távola Redonda e outros personagens variados. Uma verdadeira salada de frutas com elementos que não conversam entre si.

As Aventuras do Pequeno Colombo2

Exibido em diversos festivais pelo Brasil e com primeira exibição pública no Anima Mundi de 2015, o filme começou a ser produzido em 2009, um fato que poderia apenas ser citado como mera curiosidade ou para destacar a dificuldade de se produzir uma animação no país. O grande problema, no entanto, é que o texto do roteiro de Stil (Pedro Ernesto Stilpen), falecido no mês passado, é retrógrado, machista e racista. Talvez há 8 anos, questões como o único personagem negro do longa ser o menino escravo Zumba, construído sob o estereótipo preconceituoso de desonestidade para ter um final redentor, e todos os personagens masculinos calarem, diminuírem, excluírem e desacreditarem as personagens femininas durante toda a película, não fossem levantadas e discutidas, sem causarem incômodo ao público, mas hoje em dia não passam despercebidas e são deveras polêmicas. Faltou uma boa atualização deste roteiro, que além de machista e racista, é confuso, previsível, sem sentido e sem propósito.

As Aventuras do Pequeno Colombo3

A baixa qualidade gráfica é outro ponto fraco da animação de Gava – parece que ainda não saiu do storyboard por falta de verba. Com dublagem do ator José Wilker, falecido em 2014, como Conde de Saint-Germain, e da atriz Isabelle Drummond como a sereia Mab, único ser marinho que ajuda o grupo de heróis mirins, “As Aventuras do Pequeno Colombo” está bem longe de ser envolvente e só consegue agradar o público infantil bem pequeno, de até uns 5 anos, embora não compreendam quase nada das referências históricas. Se for assistir, espere que tem uma surpresinha depois dos créditos.

 

As Aventuras do Pequeno Colombo (Idem)

Brasil – 2015. 80 minutos.

Direção: Rodrigo Gava

Com: José Wilker e Isabelle Drummond.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 1