As Boas Maneiras

Obra-prima. Ponto final.

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11 de outubro de 2017

Grande era a expectativa para o filme “As Boas Maneiras” de Juliana Rojas e Marco Dutra na Première Brasil Competitiva do Festival do Rio 2017, principalmente por ter sido a primeira exibição brasileira após levar prêmios internacionais como o recente Prêmio Especial do Júri em Locarno. E expectativa alta em geral jamais é uma coisa boa, pois a tendência é ficar aquém do resultado esperado, quando projetado em um pedestal. Porém, existem as raras ocasiões, em mais de dez anos de crítica profissional, onde uma obra não apenas alcança como supera toda e qualquer estimativa, entregando algo tão novo que não possui classificação ainda, e os códigos precisam ser reinventados.

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A filmografia tanto conjunta quanto singular de ambos e cada um de seus cineastas, seja com o primeiro longa-metragem revelação da dupla, “Trabalhar Cansa”, que já demonstrava todo seu potencial, aos trabalhos solo, como “Quando Eu Era Vivo” de Marco Dutra e “Sinfonia da Necrópole” de Juliana Rojas, demonstram claramente o caminho da linguagem construída de forma mutuamente enriquecedora. Um flerte constante com o cinema de gênero, assumindo vertentes muitas vezes tratadas com ingratidão pelo circuito comercial, como o terror/horror, o suspense policial e até, quem diria, pitadas de chanchada e musical — Talvez gêneros que não fossem normalmente associados juntos. E com a vantagem de, ainda assim, não se permitir que a soma de suas partes defina ou reduza o todo, mas sim engrandecê-lo.

Ainda mais para um crítico que estuda o cinema de terror/horror (psicológico ou não) com toques de cinema fantástico dentro de distopias sombrias, especialmente a nova onda desta década realizada principalmente por mulheres na direção, como Juliana, Mabel LopesCíntia Domit BittarSabrina Fidalgo e Gabriela Amaral Almeida. Aliás, esta última é outro nome importantíssimo na carreira da dupla supracitada, como roteirista que colaborou em vários de seus filmes, e agora também está na Competitiva da Première Brasil do Festival do Rio 2017 com a sua estreia em longas-metragens, “Animal Cordial”, tamanha a força destes nomes que forma encontros artísticos na constelação de nomes desta nova onda.

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Colocado em uma lente microscópica, há muito o que se falar da semiótica em “As Boas Maneiras” per si, para além de sua contribuição estrutural por apenas existir singularmente neste momento da história do cinema. O filme talvez seja o que mais mergulha de forma assumida no gênero fantástico com terror e até um tempero de gore, sem esquecer uma sensualidade latente de uma incrível e sutil beleza homoerótica que jamais decai em superficial ou desnecessária para o desenvolvimento de personagens. As protagonistas interpretadas por Isabél Zuaa e Marjorie Estiano se desdobram em muitas, literalmente, com personagens mais do que tridimensionalizadas. São tantas as camadas que é um prazer inenarrável vê-las descascar pele a pele, de si e uma da outra. E fazem isso com pura técnica depurada, como brincando com efeitos de fusão, desde a iluminação em cores contrastantes à direção de arte kitch; da montagem dialética que contrapõe imagens de modo a criar novas resultantes ao ritmo de mistério constante, ainda que pontuado com humor.

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Não obstante a personagem mais pró-ativa de princípio ser a grávida interpretada por Marjorie Estiano, o fio condutor segue o olhar da enfermeira/babá de Isabél Martins Zuaa Mutange, que começa mais como catalisadora da outra e depois passará por uma inversão de polaridades. A primeira era filha de família rica que, ao trair o noivo com um estranho e ficar grávida, é deserdada por todos e torna-se uma outsider. Em comum, a segunda também vive à margem, procurando empregos instáveis frente à desigualdade de oportunidades de mercado, e onde os valores constantemente também liquefeitos não consideram anos de experiência de vida cuidando da avó enferma como referência para currículo. A base de julgamentos sociais é desigual para ambas, mas encontrarão suporte em ser diferentes uma na outra.

Até porque há algo estranho com a gestação do bebê que as une. Algo perigosamente e sensualmente estranho mexendo com os instintos mais primitivos e animais como fome e desejo. Há fortes questões de gênero, classe e raça. É uma potência política muito grande praticamente não haver qualquer personagem masculino na tela, pois estamos falando do poder da criação na mãe natureza, da gestação, do feminino, e da união entre mulheres, de afetos e amor e sexo, inclusive, como um direito básico. E nunca se viu uma iluminação neon tão poética para realçar este direito.

Nesta primeira parte o filme se aproxima de uma leve alusão ao clássico “O Bebê de Rosemary”. Todavia o que mais surpreende é que a história não se resume à trama inicial, que é surpreendentemente bem resolvida até um pouco mais da metade da projeção. A alta expectativa pelo filme se supera justamente porque há novos desdobramentos, com novos conflitos e personagens. A arrebatadora interpretação de Isabél Zuaa muta de catalisadora para catártica, pró-ativa, conforme um novo vértice do triângulo é acrescentado, com direito a núcleo de crianças que não diminui o grau do terror, e sim amplifica. E ainda abre um leque de efeitos especiais como computação gráfica e animatronics (robôs controlados) com expressões faciais inacreditáveis, como nunca se viu igual no cinema brasileiro. — Afinal, um dos personagens pode ser metade monstro. Quem viu o cartaz/trailer do filme sabe, mas para quem não viu, melhor se resguardar à surpresa, mas que faz grande parte da mitologia a que o fantástico no filme alude: um mundo de metades, de dualidades sociais, econômicas e culturais. Da aceitação do diferente e do excluído, porque de tanto oprimí-los a única saída é um dia se revoltar contra os opressores para se permitir a existência da sua própria identidade.

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Claro que o cinema brasileiro pode já ter flertado com essas instâncias antes, ou até com um bocado de todas elas ao mesmo tempo, como os filmes de Ivan Cardoso, há de exemplo meu clássico favorito dele “As Sete Vampiras”, que tem monstros, erotismo, crítica social e até uma crônica através do sangue e da corporalidade. E não faço esta referência como nenhum demérito ao ineditismo presente na composição ímpar de “As Boas Maneiras”, porque nosso passado na sétima arte precisa ser desmistificado e reapreciado, mesmo a pornochanchada que produziu jóias raras para burlar a censura da Ditadura e alfinetar o sistema. A diferença é que o trabalho de Ivan possuía uma gostosa irreverência, enquanto que Juliana Rojas e Marco Dutra possuem extrema reverência à história do nosso cinema, passado e presente. E a seus próprios filmes que criaram universos próprios que poderiam facilmente estar interligados. Vale ressaltar a fidelidade aos elencos prévios de suas obras, no que vários fazem participações impagáveis aqui, sendo a melhor delas decerto a cena hilariante de Gilda Nomacce como você nunca viu.

Tudo isto vem num pacote deslumbrante, hipnotizante aos olhos cinéfilos, do relógio da parede à lareira da sala. Do contraste entre a decoração do apartamento estéril de Marjorie à vida orgânica no de Isabél. Das músicas bregas e dançantes da primeira à doce melancolia da segunda. Afinal, até pitadas de musical fluem com extrema naturalidade, talvez influência de trabalhos anteriores de Rojas, em especial “Sinfonia da Necrópole” que brincava já de thriller de Michael Jackson. E tudo se torna crível graças ao limiar entre quadrinização estética dos enquadramentos na fotografia de Rui Poças, quase uma nova São Paulo pintada à mão que merece ser descoberta, às denúncias sociais verídicas demais para não doer na pele quando sofridas para além da fantasia como na vida real. Para isso, a cena final do filme já é antológica e de uma pungência cujos arrepios não sairão da nossa pele tão facilmente.

Confira também o Debate sobre “As Boas Maneiras” de Marco Dutra e Juliana Rojas com elenco e equipe para a Première Brasil no Cine Odeon, mediação por Mario Abbade no Festival do Rio 2017

Link no Almanaque Virtual
http://almanaquevirtual.com.br/debate-sobre-as-boas-maneiras-de-juliana-rojas-e-marco-dutra-no-cine-odeon-para-o-festival-do-rio-2017/

Link no youtube
https://youtu.be/gTjQGsCXh-Y

Festival do Rio 2017 – Première Brasil

As Boas Maneiras  (idem)

Brasil, 135 min. 2017

De Juliana Rojas e Marco Dutra

Com Marjorie Estiano, Isabél Zuaa

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