As Ceifadeiras (42° Mostra de SP)

Desconstruindo a branquitude tóxica da África do Sul

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23 de outubro de 2018

Interessante olhar sobre alemães que moram e trabalham como fazendeiros na África do Sul, dirigido por um cineasta natural de lá (dupla nacionalidade, também grego), que vai tentar desconstruir a branquitude estrangeira e não nata, de modo a expor suas inseguranças, medos e vazios internos.

Aqui a tentativa de preenchimento deste vazio se materializará através de uma fé repetida mecanicamente e sem convicção, numa família de filhos adotivos, onde o casal estéril de alemães adotam crianças problemáticas igualmente descendentes de alemães a trabalhar em conjunto em sua fazenda como um retiro ressocializador…o que vai desembocar numa disputa entre dois destes irmãos à la Caim e Abel…

O mais interessante, porém, não é nem a questão LGBTQ+ que será acrescentada no caminho da auto aceitação em face da performatividade que eles são obrigados a reproduzir pra se encaixar no acolhimento da família de crentes… Quem rouba a cena é o personagem coadjuvante do novo irmão, Peter, uma construção fascinante que a princípio seria Caim, num estado de autodestruição e impulsos egoístas de sobrevivência à custa de seu próximo, mas que vai evoluindo para as melhores reflexões do filme em relação ao que esperamos de nós mesmos e o que a sociedade espera de nós. Coisa que um irmão pode estar talvez mais preparado do que o outro uma vez que o palco da teatralidade despenque de vez.

Na 42° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo