As Cineastas do Cinema Fantástico: Alice Guy-Blaché

Vamos saber um pouco mais sobre as grandes diretoras do Cinema Fantástico?

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31 de março de 2020

AS CINEASTAS DO CINEMA FANTÁSTICO: Alice Guy-Blaché

Por Filippo Pitanga, curador no Festival CineFantasy, o qual irá disponibilizar dicas de filmes dirigidos por mulheres no cinema fantástico (fantasia, sci-fi, terror etc) todo sábado durante a quarentena no combate ao coronavírus com cultura, cinema e reflexão.

Vamos saber um pouco mais sobre as grandes diretoras do Cinema Fantástico? Já que parece que andamos vivendo uma distopia fora das telas, e que os filmes mais loucos de ficção científica se tornaram um documentário a partir da realidade pós-coronavírus, vamos aproveitar e retomar o controle da ficção num campo mais acessível e prazeroso: o da sétima arte! Venha conosco num passeio pelo cinema fantástico para conhecer um pouco mais sobre algumas das grandes diretoras que ajudaram o gênero a chegar no lugar de prestígio que hoje ocupa no mercado mainstream. Se hoje temos uma forte expressão do movimento contemporâneo no Brasil, por exemplo, que vai da fantasia ao terror e horror psicológico, repleto de cineastas mulheres à frente desta vanguarda, é porque várias outras representantes do estilo e da linguagem lhes precederam aqui e no mundo. Acompanhem todo sábado dicas de filmes dirigidos por mulheres no cinema fantástico e todas as suas ramificações, compondo um quadro geral e ampliando um leque de sugestões de obras inesquecíveis para enriquecer o tempo durante sua quarentena e superar esta crise com muita arte e entretenimento.

Comecemos esta jornada com a pioneira das pioneiras, cronologicamente falando. Aquela que recebe a alcunha de mãe do cinema: Alice Guy-Blaché.

A dica deste sábado começa com o filme considerado por muitos como uma das primeiras obras narrativas da história do cinema (emparelhando com “O Regador Regado” dos irmãos Lumière), quiçá a primeira, na verdade, de acordo com alguns historiadores. Ela realizou um roteiro cinematográfico antes de filmar a cena, adaptando um conto de fantasia que metaforizava o nascimento das crianças como se uma fada os colhesse numa horta de repolhos. Por isso o nome: “A Fada dos Repolhos” (vide link logo abaixo) de 1986.

Para algumas pessoas, o filme chega a ser quase de terror, pois a maioria se assusta com a forma como a diretora (que também é a protagonista) manuseia os pequeninos bebês em cena, retirando eles do meio de plantas cenográficas… Mas por isso que foi crucial se ter um roteiro logo em meio à gênese do cinema. Não só era a adaptação de um conto famoso na França, como precisava decupar a cena para saber cada espaço dentro do quadro, e como lidar com bebês que precisavam estar seguros. Lembremos que o filme é uma excelente metáfora da mulher que trabalha e não tinha nenhum lugar onde deixar uma criança, caso tivesse filhos. Não existia creche ou espaço infantil para se deixar no trabalho — algo pelo que muitas mulheres batalham até hoje, por direitos equiparados aos homens, em seus ambientes de ofício e fora deles. Isso sim uma desigualdade aterrorizante ainda a ser vencida.

Este não foi o único filme com toque de fantástico que esta pioneira realizou, no que podemos citar algumas preciosidades como a metafórica alegoria outonal para a morte em “Falling Leaves” de 1912; ou a aventura infanto-juvenil com uma pequena infante como heroína nas ruas da cidade grande em “Heroine” de 1907; ou mesmo a ousada distopia “The Consequences of Feminism” de 1906, num mundo onde as mulheres e os homens estão em posições invertidas numa visão clássica da disparidade de direitos entre os gêneros (demonstrando que nenhum dos lados aceitaria passivamente ser hipossuficiente na relação, nem as mulheres nem os homens, caso fossem eles os “donos de casa” na virada do século XIX para o XX). — Apesar de Guy não se declarar uma militante das questões de gênero e de ter feito filmes de todo o tipo, muitos deles (talvez a maior parte) trazem personagens femininas bem trabalhadas, tridimensionalizadas, de todas as faixas etárias (de crianças a idosas), protagonistas em relação ao seu destino, cômicas e independentes, além de abordarem temas do universo feminino.

Alice Guy-Blaché foi pioneira em experiências com efeitos visuais e sonoros (com o uso do chronophone), tendo inclusive pintado filmes diretamente à mão, além de ter criado um dos primeiros estúdios cinematográficos, o “Solax” em Nova York. (Fonte: Cousins, Mark: História do Cinema, Martins Fontes, 2013). Ao todo, ela dirigiu mais de 1.000 filmes entre 1896 e 1922, incluindo filmes de gênero como fantasia, westerns, comédias, suspenses e adaptações bíblicas (“The Birth, the Life and the Death of Christ” de 1906, mostrando que o sacro e o profano sempre estiveram muito próximos no cinema de gênero), além de ter filmado possivelmente o primeiro beijo entre duas personagens femininas em “Pierrette’s Escapade” de 1900. Podemos listar abaixo links disponíveis no youtube de algumas destas obras que foram preservadas, em torno de mil filmes realizados por ela (muitos perdidos para sempre). Vale ressaltar que parte dos filmes restaurados recebeu a ajuda do Film Foundation World Cinema Project fundada por Martin Scorsese, que ajudou a colocar a diretora do início da História do Cinema no Hall da Fama do Sindicato de Diretores de Hollywood em 2011.

Podemos citar parte da pesquisa de Juliana Costa sobre a célebre pioneira: “Alice Guy começou como tipista e datilógrafa na Companhia Gaumont em 1894, aos 21 anos. Logo tornou-se a principal encarregada da empresa e foi sob a sua direção que a companhia se expandiu. Alice estava com Leon Gaumont no dia 22 de março de 1895, na primeira exibição de filmes dos Irmãos Lumiére, com os quais posteriormente viria a trabalhar. Em 1907, Alice casa-se com Herbert Blaché e parte para Nova Iorque, onde ele atuaria como gerente de produção local da Companhia Gaumont. Em 1910, o casal funda a Companhia Solax, o maior estúdio pré-Hollywood dos Estados Unidos, assim Alice Guy torna-se a primeira mulher a estar à frente de uma companhia de cinema nos Estados Unidos.” (Fonte: Costa, Juliana: Alice Guy BlachéLois Weber e Dorothy Arzner: três pioneiras do cinema americano, 2017).

Confira os filmes supracitados de Alice logo abaixo:

“A Fada dos Repolhos” (“La Fée Aux Choux”) de 1986

https://www.youtube.com/watch?v=CYbQO6pwuNs

“Falling Leaves” de 1912

https://www.youtube.com/watch?v=-_cYhqVblLc

“Heroine” de 1907

https://www.youtube.com/watch?v=8BOBQa7HGOE

“The Consequences of Feminism” de 1906

https://www.youtube.com/watch?v=dQ-oB6HHttU

“Pierrette’s Escapade” de 1900
 
 
“The Birth, the Life and the Death of Christ” de 1906
 
 
Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.