As Cineastas do Cinema Fantástico: Dorothy Arzner

Saibam mais sobre a diretora que detém até hoje o recorde do maior número de longas-metragens dirigidos por uma mulher

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19 de abril de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO: Dorothy Arzner.

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Vamos saber um pouco mais sobre as diretoras do Cinema Fantástico, tentando lançar outro olhar até mesmo sobre as pioneiras da sétima arte e em como elas também contribuíram para a gênese da linguagem de gênero nos filmes? Vou chover no molhado e ao mesmo tempo inovar, falando de um nome bastante conhecido, Dorothy Arzner, mas por ângulos diferenciados.

Agora vamos com um pequeno paradoxo. Vamos falar de uma das cineastas dos primórdios mais conhecidas e lembradas, mas geralmente NUNCA em relação a estas questões de linguagem do cinema de gênero. Vamos fazer um teste: Se eu lhes digo as dicas da semana como sendo “Marrily We Go To Hell” de 1932 (cuja tradução seria “Felizes vamos pro Inferno”, mas que ganhou comercialmente o título de “Quando a Mulher se Opõe”) ou mesmo “Crepúsculo Sangrento”, talvez vocês pensassem se tratar de um diretor de terror contemporâneo, bastante sarcástico e sem medo de um pouco de peso em seus filmes, certo? Mas estas são obras da cineasta Dorothy Arzner, até hoje a mulher recordista como tendo dirigido mais longas-metragens na história, até mais do que Varda… Talvez justamente porque ela ainda fosse reminiscência de um período bastante prolífico para as mulheres em funções executivas de Hollywood, até elas serem limadas do sistema…e só sobrar Dorothy como cineasta por toda a década de 30.

Talvez um dos maiores problemas de resistência ao acesso a suas obras ainda seja a dificuldade de encontrá-las na rede. Além de haver filmes já perdidos, muitos não estão abertos na rede, e apenas recentemente um incrível trabalho curatorial de pesquisa e programação ofereceu uma rara Mostra de filmes da diretora no Brasil, através dos produtores mineiros Marccela Jacques e Victor Guimarães pela Caixa Cultura. As pessoas tiveram a oportunidade de ver filmes raríssimos e alguns inéditos no Brasil, inclusive este que vos escreve, quando pude me deleitar em narrativas incríveis da Era de Ouro de Hollywood com alguns toques surpreendentes de cinema de gênero e de fantástico.

“Crepúsculo de Sangue”, por exemplo, é um filme de Guerra a partir do ponto de vista de uma espiã (Merle Oberon) que, com punho de ferro e frieza cirúrgica, consegue comandar toda uma operação de contra-ataque aos alemães num casamento de fachada com um general nazista. O filme foi baseado no romance “Commandos” de Elliott Arnold, de 1943, adaptado por George Sklar, com roteiro de Melvin Levy e Lewis Meltzer. E talvez, se não fosse dirigido por Dorothy, veríamos algo muito diferente do final surpreendente que dá muito mais espaço e desenvolvimento para a ação e o suspense do que para o romance, inclusive com direito a reviravoltas e com a espiã tomando as rédeas de seu próprio desenvolvimento narrativo.

Mas o filme disponível mais facilmente na rede para lhes indicar, na realidade, é “Marrily We Go To Hell” (“Quando a Mulher se Opõe” de 1932) — gratuito e na íntegra com legendas em português no Youtube (vide link abaixo). Justamente porque Hollywood era tão cercada de narrativas centradas na sociedade patriarcal, parece que Dorothy criou um universo distópico muito bem-sucedido de desenvolvimento de personagens femininas fora do padrão hegemônico. Elas detinham outro tipo de controle sobre suas próprias narrativas. Tanto que o título “Marrily We Go To Hell” (que parafraseia um bordão em língua inglesa relativo ao casamento, mas parodiando com a palavra “Inferno”) foi censurado em alguns lugares durante um tempo, de tão ousado. Isso porque o filme foi lançado na virada da era muda para o cinema sonoro em Hollywood, um pouco antes do famoso Código Hays, que era um código de censura e normas que pretendiam balizar o que era permitido e o que não era, desde que artistas começaram a falar na tela grande. Palavrões, por exemplo, não eram permitidos… Imagina, então, falar sobre “Inferno”. O título foi assim nomeado um pouco antes do Código, o que fez com que ele fosse permitido a princípio…e só depois chegasse a incomodar o bastante para que reclamassem. Afinal, qual era a visão de inferno para uma protagonista emancipada e dona de sua própria narrativa, sem depender de homens ou de ninguém?!

Mais do que isso, o filme é todo transgressor dentro desta bolha contra-hegemônica que Dorothy criou para seus filmes: um casal (Sylvia Sidney e Fredric March) enfrenta o alcoolismo e adultérios, sendo que a esposa retribui a traição saindo com outro homem (Cary Grant, em início de carreira), algo impensável para a época neste nível de autonomia e agenciamento da vontade fora do casamento. Mais do que isso: a questão da bebida foi trabalhada à beira de todas as polêmicas da Lei Seca Americana, onde a bebida alcóolica era proibida. E Dorothy brincava com todos estes arquétipos proibidos com liberdade cáustica e com sarcasmo. Todas as suas protagonistas usavam seus maiores sonhos e pesadelos a seu favor para reconstruir o mundo ao seu redor, vide também outro incrível filme, “A Vida é uma dança”, com Lucille Ball e Maureen O’Hara, onde as duas são dançarinas que se alternam em pisotear na cabeça da sociedade!

Para além de minha humilde análise de arquétipos e linguagens de gênero no estilo de filmar da cineasta Dorothy Arzner, confira mais dados históricos sobre a incrível cineasta na masterclass que eu transcrevi, ministrada pelos curadores da Mostra que foi exibida no Brasil no início do ano, os produtores mineiros Marcella Jacques e Victor Guimarães, além das convidadas e pesquisadoras Janaína Oliveira, Kênia Freitas e Tatiana Carvalho:

http://almanaquevirtual.com.br/debate-mostra-dorothy-arzner-na-caixa-cultural/

Confira o longa-metragem supracitado: “Quando a Mulher se Opõe” de 1932, disponível no youtube na íntegra e legendado em português:

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ. Editor-chefe do Almanaque Virtual. Colaborador da Carta Capital e Revista Fórum. Membro do Podcast do Cinema em Série.

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