As Cineastas do Cinema Fantástico: Germaine Dulac

Conheça aquela que é a pedra fundamental do surrealismo

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11 de abril de 2020

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Vamos saber um pouco mais sobre as diretoras do Cinema Fantástico, tentando lançar outro olhar até mesmo sobre as pioneiras da sétima arte e em como elas também contribuíram para a gênese da linguagem de gênero nos filmes? Agora vamos com a grande Germaine Dulac *! Vanguarda do impressionismo no cinema e pioneiríssima do surrealismo, sem o qual a sétima arte jamais teria ousado tentar captar a linguagem dos sonhos e pesadelos na estética fantástica.

A dica deste fim de semana é a obra-prima surreal e referência incontornável: “A Concha e o Clérigo” (“La coquille et le clergyman”) de 1928, lançada um ano antes da obra que costuma ser lembrada como a pedra fundamental do surrealismo, “Um Cão Andaluz” de Luis Buñuel, que foi a estreia na direção do gênio espanhol em 1929 (e digo isto sem diminuir de forma alguma o feito de Buñuel, apenas ampliá-lo perante a combinação de forças no tempo com Dulac). Altamente aconselho que se coloque os dois filmes lado a lado e se analise a gênese do surrealismo com seu verdadeiro quadro-geral, o que apenas torna o momento histórico ainda mais rico — ao menos até chegar nesta seara outra cineasta a experimentar com a vanguarda e o surrealismo, minha ídola Maya Deren…, mas esta fica para as próximas.

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Na verdade, se formos contabilizar, a cineasta francesa Germaine Dulac já havia começado a fazer seus filmes desde muito antes de qualquer galera declaradamente surrealista no cinema, ou seja, seu primeiro filme já datava de 1915… E, também ocupando a função de crítica de arte e de cinema, Germaine já havia experimentado e deixado sua marca na sétima arte em 1922 com a infusão do impressionismo da pintura agora no cinema, com sua obra secular “A Sorridente Senhora Beudet” (“La Souriante Madame Beudet” — vide link também abaixo), considerada por muitos como uma das primeiras obras feministas do cinema, sobre uma protagonista presa num casamento burguês infeliz e que planeja sua vingança. Portanto, não foi surpresa quando a cineasta lançou a ousada experimentação surrealista “A Concha e o Clérigo”, de modo a dar um salto em tudo o que havia sido visto até aquele momento, até mesmo os truques de mágica e ilusionismo geniais de Georges Méliès. Isso porque começava uma nova era de vanguarda na arte e experimentação diretamente no material fílmico.

Parte da linguagem deste filme ditou as regras para o que estaria por vir — não seria nenhuma injustiça dizer que sem “A Concha e o Clérigo”, sem a junção do sacro e profano, sem o tênue limiar entre sonho e pesadelo, entre fé, delírio e obsessão, não teríamos jamais filmes como o terror de Ingmar Bergman como “A Hora do Lobo” ou o seminal slasher “A Hora do Pesadelo” de Wes Craven. Há ali tanto o horror de se cortar o olho ao meio com uma lâmina, de filmes como “Um Cão Andaluz” de Buñuel, claro, como também temos a expiação da culpa e da penitência através do devaneio e do fogo, como em “A Concha e o Clérigo” de Dulac. Não à toa, o único ponto fraco de Freddy Krueger são as labaredas das chamas da sociedade!

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“A Concha e o Clérigo” trouxe inúmeras experimentações e efeitos visuais, desde a sobreposição de imagens (na época, sobreposição de negativos/película), crossfade (usar o fade para fazer transposição de imagens na montagem, ou transformar uma em outra), experiências com diferentes velocidades cênicas, além de manipulação do próprio negativo na pós-produção para produzir efeitos visuais na imagem captada… Os corpos eram meros objetos em cena para a liberdade total de construção de Germaine, que podia fazê-los voar ou tombar engolidos pela tela…

O filme foi completamente restaurado em 2004 pela Filmmuseum em Amsterdã, em parceria com o MoMA de NY, a Cinemateca Francesa e o Arquivo Nacional de Cinema e Televisão de Londres etc, apenas para denotar a importância e relevância dada para a restauração de sua obra.

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* “Germaine Dulac (cujo nome de solteira era Charlotte Elisabeth Germaine Saisset-Schneider) (17 de novembro de 1882 – 20 de julho de 1942) foi diretora, teórica, jornalista e crítica de cinema. Nasceu 1882, em Amiens, e se mudou para Paris na infância. Em 1905, iniciou sua carreira jornalística em uma das primeiras revistas feministas da época, La Française e mais tarde interessou-se pelo cinema. Com a ajuda de seu esposo fundou uma produtora e dirigiu alguns filmes comerciais antes de deslocar-se para territórios impressionistas e surrealistas. Foi também uma das fundadoras do movimento cineclubista francês. Em 1924, assumiu com Léon Moussinac e Jacques Feyder a direção do Ciné-Club de France (CCF). Hoje é mais conhecida por seu filme impressionista, “La Souriante Madame Beudet” (“A sorridente Senhora Beudet”, 1922/23), e seu experimento surrealista, “La coquille et lhe clergyman” (“A concha e o clérigo”, 1928). Sua carreira como realizadora foi afetada pelo aparecimento do cinema sonoro e seu último filme como diretora foi em 1934. A última década de sua vida esteve dedicada ao cinema documentário, com seu trabalho para os cinejornais das produtoras Pathé e Gaumont.” (Éléments sur l’histoire des ciné-clubs en France. Les projections non commerciales passées, présentes, à venir – http://www.autourdu1ermai.fr/article19.html)

PS: Vale lembrar que Germaine Dulac não foi a primeira nem única crítica de cinema no início da História do Cinema, como podemos citar a pioneira Elvira Gama desde a virada do século XIX pro XX, a primeira pessoa a escrever sobre imagens em movimento no Brasil — (Caú, Maria e Brasil, Samantha. A Resistência das Mulheres na Crítica Cinematográfica: A Experiência das Elviras. FAP-UNESPAR, 2018). http://periodicos.unespar.edu.br/index.php/revistacientifica/article/view/2310/1554

Confira alguns dos filmes supracitados, restaurados e legendados em português, liberados no youtube:

“A Concha e o Clérigo” (“La coquille et le clergyman”) de 1928

“A Sorridente Senhora Beudet” (“La Souriante Madame Beudet”)

ENSAIO THE CLASH BETWEEN THEATER AND FILM

Germaine Dulac, André Bazin and La Souriante Madame Beudet. Por Charles Musser:

https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/17400300701432803?scroll=top&needAccess=true&journalCode=rfts20