As Cineastas do Cinema Fantástico: Ida Lupino

Conheça a primeira mulher a filmar um noir e a única diretora que era membro do Sindicato dos Diretores em Hollywood na década de 50, fiel defensora do cinema independente

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19 de maio de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga.

Hoje vamos falar da inigualável: Ida Lupino! Se esta coluna propõe falar sobre as incríveis diretoras do cinema fantástico, que talvez não fossem creditadas como tal em sua vanguarda de linguagem, ou que tenham sido até mesmo invisibilizadas na história, decerto esta é uma das que mais merece um olhar ampliado sobre seus vários reconhecimentos necessários.

A britânica Ida Lupino é muito lembrada e reconhecida como uma das grandes atrizes da Era de Ouro de Hollywood, com sucessos como “High Sierra” (1941), ao lado de Humphrey Bogart, e “The Hard Way” (1943), pelo qual sua atuação muito elogiada foi merecidamente premiada. Mas esta não é sua única faceta.

Ida Lupino (1918 – 1995) foi atriz, produtora, roteirista e diretora britânica de uma longa família de artistas com descendência italiana, e que, por sua carreira, acabou sendo radicada nos Estados Unidos. Apesar de ter estrelado inúmero filmes de sucesso na década de 1940 e 50, tornou-se a única mulher dirigindo em Hollywood nos anos 50, destacando-se com o aclamado noir “O mundo odeia-me” (1953), primeiro Noir dirigido por uma cineasta mulher, que já trazia como marca registrada uma fina tensão e suspense em meio ao duelo entre homens de classes e visões de mundo diferentes.

E isso tudo como parte de um cinema de guerrilha e totalmente independente, pelo qual Ida evoluiu muito as estratégias de atuação em Hollywood de outras formas de fazer cinema, no sentido contrário ao da indústria e do establishment (ela inclusive era uma das fortes defensoras dos cineastas independentes no Sindicato de Diretores de Hollywood, mesmo sendo a única mulher filiada por quase duas décadas após o fim da carreira de sua predecessora no Sindicato, Dorothy Arzner). É da própria Ida Lupino, inclusive, a frase: “Se como atriz diziam que eu era a Bette Davis dos pobres, como diretora eu era Don Siegel dos pobres” – aludindo não só ao perfil popular de seus projetos e da forma como representava a pessoa comum, como também ao baixo orçamento de suas produções independentes.

Além disso, dirigiu inúmeros outros sucessos no cinema igualmente com forte pegada social: como filme sobre gravidez indesejada em “Not wanted” (1949), filme pelo qual Ida atuou como diretora de forma completamente autodidata por ter substituído Elmer Clifton, que adoeceu e morreu, e ela não foi creditada na época em tributo ao falecimento do mesmo. Valendo citar também várias outras obras notáveis, como “Quem ama não teme” (1950), “Outrage” (1950), “Laços de Sangue” (1951), “O bígamo” (1953), no qual também atua ao lado de Joan Fontaine, “Anjos Rebeldes” (1966) e outros. – Este último, inclusive, começa com uma entrada em animação que brinca com o bem e o mal, Deus e o Diabo como influências que dividem a educação de jovens meninas rebeldes num Convento endiabrado, demonstrando que sabia ir da extrema tensão para a fantasia e a fábula num piscar de olhos.

Para além de sua carreira no cinema, outra de suas grandes contribuições para o audiovisual no gênero fantástico foi ter estrelado e dirigido vários episódios de seriados de TV do gênero fantástico, como: “A Feiticeira”, “Batman” e até mesmo episódios da série do mestre do suspense e do terror “Alfred Hitchcock Presents”. Vale ressaltar mais um de seus marcos: ter sido a única mulher a dirigir episódio do famoso seriado distópico “The Twilight Zone” (1959), e a única diretora mulher a ter estrelado na série! Isso e muito mais pode ser visto no documentário listado abaixo “Ida Lupino – Através das Lentes” e também em “E A Mulher Criou Hollywood”, dois documentários que abordam a carreira da cineasta.

Alguns dos filmes acima mencionados, disponíveis no Youtube e IMPERDÍVEIS:

Ida Lupino – Through The Lens – Documentary (A&E Biography Of The Great Ida Lupino. 1918-1995)

https://www.youtube.com/watch?v=-RApabc49C0

“Not Wanted” (1949)

https://www.youtube.com/watch?v=xWFjW_d-5eY

“Quem ama não teme” (1950)

https://www.youtube.com/watch?v=mMrdw86chBc

“Outrage” (“O Mundo é o culpado”) (1950)

https://www.youtube.com/watch?v=LGsGkG2sHLk

“Hard, Fast and Beautiful” (“Laços de Sangue”) (1951)

https://www.youtube.com/watch?v=BZGqcNAnawM

“O Mundo Odeia-me” (1953)

https://www.youtube.com/watch?v=XIeFKTbg3Aw

“O Bígamo” (1953)

https://www.youtube.com/watch?v=4oW0y4rM5EE

“E A Mulher Criou Hollywood…” de Julia Kuperberg e Clara Kuperberg (2016)

https://youtu.be/1a99vUxFefQ

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.

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