As Cineastas do Cinema Fantástico: Lois Weber

Uma das pioneiras do cinema que ajudou a formar o gênero suspense e o thriller

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05 de abril de 2020

Aproveito para compartilhar mais um trabalho que estou lançando todo sábado na página do Festival Internacional CineFantasy com posts sobre as Cineastas do Cinema Fantástico, tentando lançar outro olhar, até mesmo sobre as pioneiras da sétima arte, em como elas também contribuíram para a gênese da linguagem de gênero no cinema. Após sábado passado termo começarmos com Alice Guy-Blaché, agora vamos de Lois Weber:

Vamos saber um pouco mais sobre as grandes diretoras do Cinema Fantástico?

Continuemos esta jornada com outra pioneira das pioneiras. Aquela que rivalizou com D.W. Griffith como a mais prolífica realizadora da Era Muda e como a primeira grande representante do cinema autoral: Lois Weber.

A dica deste sábado é o filme “Suspense”, que não só ostenta em seu título a nomeação da gênese de um gênero, como marca o início da trajetória do trabalho de estéticas que tangenciam o horror psicológico, o thriller e o confinamento claustrofóbico entre quatro paredes para representar metáforas de disparidade social. Sem falar na famosa cena que parece muitíssimo como inspiração para a sequência histórica de “O Iluminado” de Stanley Kubrick, quando Jack Nicholson persegue e deixa sua própria esposa acuada e trancada no banheiro, quebrando a porta para entrar com sua mão pelo buraco e girar a maçaneta e… o resto vocês já sabem! As comparações ficam ao gosto do freguês (link ao final do texto).

Lois Weber (1879 – 1939) foi atriz, roteirista, produtora e diretora, sendo considerada a diretora mais importante da gênese da indústria cinematográfica norte-americana. Junto com D.W. Griffith é considerada a primeira diretora autoral do cinema nos EUA, se envolvendo em todos os processos da produção e colocando suas ideias e filosofias em seu trabalho. Estima-se que tenha dirigido por volta de 200 filmes (muitos deles perdidos pelo tempo e descaso). (Fonte: Cousins, Mark: História do Cinema, Martins Fontes, 2013)

  1. W. Griffith, diretor de obras como O Nascimento de uma Nação (1915) e Intolerância (1916), continua sendo apontado na academia e fora dela como o “pai da narrativa fílmica clássica”, quando na verdade, apesar da importância de seus feitos, este mérito não pertence tão somente a ele, mas também a Lois Weber, que já utilizava em seus filmes elementos que mais tarde seriam apontados, por estudiosos e teóricos (como Serguei Eisenstein), como inovadores nas obras de maior renome de Griffith, que, diga-se de passagem, são posteriores às dela (mas que passaram a trabalhar sob a mesma empresa quando ela saiu da Universal e aceitou que seu próprio estúdio, Lois Weber Productions, fosse assimilado pela United Artists, da qual Griffith era sócio fundador com Chaplin, Fairbanks e Mary Pickford). Em “Suspense” (1913), aquela que talvez seja a sua obra mais lembrada e uma das poucas que sobreviveram ao passar dos anos, Lois Weber antecipa o estilo de narrativa que dois anos mais tarde seria tido como genial na linguagem e enquadramentos de “O Nascimento de uma Nação”.

Lois Weber era uma mulher ousada e estava décadas à frente de seu tempo seja em temáticas ou em estética. Foi a primeira mulher norte-americana a experimentar com o cinema sonoro e com a divisão da tela para contar mais de uma narrativa ao mesmo tempo (split screen). Além disso, foi a primeira também a ter seu próprio estúdio, Lois Weber Productions, e a dirigir um longa-metragem, junto com seu primeiro marido Phillips Smalley, “The Merchant of Venice” (1914). Assim como adaptou obras do gênero realismo fantástico como “Tarzan of The Apes” (1918), e, sempre com recortes sociai intensos, também alcançou o auge de seu refinamento estético e da dramaturgia de confinamento entre quatro paredes, usando a casa como personagem, com “The Blot” (1921), considerada sua obra-prima.

Filmou o primeiro nu frontal feminino da história do cinema em “Hypocrites” (1915), na figura de uma ninfa etérea que aparecia como uma alucinação que só o protagonista conseguia enxergar, numa adaptação livre do mito grego de Pigmaleão. E depois ela também abordou temas polêmicos como o aborto em “Where Are My Children?” (1916), com o galã Tyrone Power. A autoria de vários filmes de Lois Weber foi atribuída a D. W. Griffith, juntamente com o crédito pelas inovações técnicas e pela ousadia estética presentes em suas obras, mesmo que ele fosse abertamente mais conservador e reacionário. (Fonte: Slide, Anthony. Lois Weber: The Director Who Lost Her Way in History. Westport, CT: Greenwood Press, 1996).

Mais da metade dos filmes produzidos na embrionária Hollywood até o final da década de 30 foram escritos por mulheres, algo impensável nos dias de hoje. Porém, com a consolidação da indústria e mais tarde com o advento do cinema sonoro, que era muito mais caro, o cenário começa a sofrer grandes alterações. A descoberta tardia de que o que existia naquele caldeirão era uma mina de ouro esperando para ser explorada despertou o interesse de homens de negócios de Wall Street e a partir daí a arte começa a ceder espaço para o dinheiro, e é aqui, neste ponto, que a História do Cinema começa a ser reescrita. A concepção da máquina de produzir sonhos abrangia não só a perspectiva de futuro, mas também a reconstrução do passado; era preciso criar os primeiros mitos e estes precisavam ser sobre homens, brancos e enquadrados na linha ideológica de quem passou a comandar Hollywood: as grandes corporações financeiras, os sindicatos especializados como de roteiristas, diretores etc (que, dependendo do setor, apenas sindicalizavam homens até determinado período), os quais formavam a Academia De Artes e Ciências Cinematográficas, culminando na gênese da Premiação do Oscar para reconhecer os melhores da indústria a cada período. (Fonte: Brasil, Samantha e Pitanga, Filippo: Aula de Mulheres no Cinema na Escola Passagens, 2017)

“Suspense” (1913)

https://youtu.be/zfgiUvBaosg

“Hypocrites” (1915)

https://youtu.be/gKw1cv0Z-mg

“Where are my Children?” (1916)

https://youtu.be/PMYjWy8i198

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.