As Cineastas do Cinema Fantástico: Maya Deren

Conheça mais sobre uma das maiores diretoras de experimentação da vanguarda do cinema

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27 de abril de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga: Vamos saber um pouco mais sobre as diretoras do Cinema Fantástico?

Esse post não é meramente informativo, é também uma celebração e homenagem a uma de minhas cineastas favoritas — alguém que deveria ser matéria principal e incontornável em qualquer estudo de cinema: Maya Deren!

Maya Deren (1917 – 1961), ucraniana, era coreógrafa, dançarina, poeta, escritora e fotógrafa. Apesar de não ter sido a criadora do movimento experimental levado da Europa para os EUA, misturando artes plásticas e dança na montagem e edição no cinema, foi quem realizou o filme que mais chamou a atenção deste período: “Meshes of the Afternoon” (1943), codirigido com seu então marido na época, Alexander Hammid. — vide o respeito e reverência que ela recebia até de alguns dos outros maiores nomes da época como Stan Brakhage.

Maya escrevia, filmava e distribuía todos os seus projetos, não só no circuito tradicional, mas expandindo cineclubes, palestras e aulas de cinema nas quais proliferava sua arte. Dentre os temas trabalhados por ela estavam a psique feminina, a sexualidade e questões de identidade. Maya Deren quebra todos os paradigmas do processo de montagem de um filme, fazendo uso de múltipla exposição, dando a ilusão de vários personagens, atravessando o tempo e o espaço de modo metafísico com corpos que se prolongavam para além dos cortes e montagens, experimentando ângulos e perspectivas. Vale lembrar que seus filmes incrivelmente experimentais beiram o surrealismo, muitas vezes oníricos, noutras delirantes.

Curiosamente, seus filmes eram lançados sem som, mudos, pois ela correspondia à teoria de que não ouvimos sons em nossos sonhos (afinal, você se lembra de já ter se escutado falar nos sonhos?), apesar de que nos comunicamos quase que por telepatia, gritamos e até conversamos com outras pessoas mesmo sem precisar ouvir… A maioria das trilhas sonoras foram acrescentadas depois aos seus filmes, inclusive em composições conjuntas com seus maridos, e imbuída de espiritualidade, transcendência e ocultismo, pois ela estudava os estados da fé através de várias religiões e regiões do globo. Uma das coisas que ela mais analisou, por sinal, foi o estado sublimado da consciência através do transe, o que complementava seus estudos do movimento e da dança e da musicalidade de corpos. Suas personagens (muitas vezes atuando ela própria em cena) não tinham limites dentro do quadro, podendo começar um movimento numa praia, subir num tronco de árvore e, quando alcançava seu topo, estava em cima da mesa de jantar da alta roda da sociedade… Sua dança podia subir as paredes e o teto, e suas várias versões de si mesma podiam ser ameaçadoras e mortais (vide algumas imagens abaixo)…

No dia 29 de abril celebraremos o seu aniversário, sendo que em 2017 se completou o centenário de nascimento desta que é uma das maiores gênias da história do cinema, pioneira do cinema de vanguarda nos Estados Unidos, pelo que eu e Samantha Brasil, em parceria com Cavi Borges e também na época Camila Vieira, fizemos uma sessão especial do Cineclube Delas no ora extinto Tempo Glauber em homenagem a ela.

Para celebrarmos a vida e a obra dessa realizadora e pensadora extraordinária, assim como todo o seu inestimável legado para a História do Cinema, que claramente influenciou de Bergman a Lynch (vale citar que Maya criou o famoso vulto de manto preto como se fosse a morte, e o jogo de xadrez na praia em “At Land” muito antes de “O Sétimo Selo” de Bergman, por exemplo), mesmo que às vezes não creditada, indico alguns de seus filmes: todos disponíveis no Youtube. Alguns dos que listarei abaixo serão: Meshes of the Afternoon / Tramas do Entardecer (1943), At Land (1944), Ritual of Transfigured Time (1946), “The Very Eye Of The Night” (1958), “A Study in Choreography for Camera (1945). Convido a todas e todos a se encantarem por Maya Deren nesse sábado.

Indico também o doc sobre ela com algumas das teses em suas próprias palavras com exímio conhecimento de cinema e da linguagem que construiu: “No Espelho de Maya Deren”.

Por fim, indico também um podcast especialmente feito sobre ela:

http://anticast.com.br/2017/04/feitoporelas/feito-por-elas-22-maya-deren/ — num debate com Samantha Brasil, Michelle Henriques, Camila Vieira, Isabel Wittmann e Stephania Amaral.

1) “Meshes of The Afternoon” (“Tramas do Entardecer”)

2) “At Land”

3) The Very Eye of the Night”

4) “Ritual of Transfigured Time”

5) “A Study in Choreography for Camera”