As Cineastas do Cinema Fantástico: Thea Von Harbou

Vamos saber mais sobre a roteirista da obra-prima Metropolis e de outros clássicos do expressionismo alemão, além de ter dirigido seus próprios filmes também

por

12 de maio de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO: Por Filippo Pitanga.

Andamos listando as maiores cineastas do Cinema Fantástico, desde o sci-fi ao terror e afins. Desta vez, iremos falar de um dos nomes mais lembrados como roteirista do que como diretora, porém igualmente imprescindível para o gênero: a alemã Thea Von Harbou!

Geralmente, ela não é lembrada como cineasta (algumas pessoas sequer sabem que ela já dirigiu na carreira), porque seus trabalhos mais notáveis foram como roteirista de alguns dos maiores cineastas do Expressionismo Alemão, como seu marido à época, Fritz Lang, e o igualmente famoso amigo F.W. Murnau. E, por isso mesmo, não pode ser esquecida e merece lugar de ouro nessa lista.

Thea Von Harbou (1888 – 1954).

Von Harbou ganhou o apelido de “A Condessa do Kitsch” do cinema alemão, misturando sentimentalismo com tendências revolucionárias e anseios populares, procurando agradar não a aristocracia, mas ao alemão comum. Thea escreveu os roteiros dirigidos por Fritz Lang (como “Metropolis” de 1927), a partir de seu casamento, e de outros cineastas do expressionismo alemão como F. W. Murnau (como para o filme “Fantasma” de 1922), alguns dos maiores sucessos da época, tecendo a linguagem que iria gerar inúmeros gêneros do fantástico, como terror e o suspense (“M – O Vampiro de Dusseldorf”), sci-fi (“Metropolis”), mitologia (“Das Nibelungenbuch”) e até o noir (“Dr. Mabuse”). Thea também dirigiria seus próprios filmes, como “O Divino Milagre” (1934).

Além de ter escrito o maior sucesso do marido, “Metropolis”, Thea escreveu “Die Frau im Mond“, também filmado por Lang, e lançado como “Woman in the Moon” em 1929, sendo considerado por muitos estudiosos como o primeiro filme “sério” de Ficção Científica (algo que nós fãs e pesquisadores do cinema fantástico jamais duvidamos da seriedade da dramaturgia destes filmes, mas ao mesmo tempo sabemos que o gênero sempre sofreu preconceitos injustos dos estudos gerais do cinema, e por isso a importância desta concepção de reconhecimento na época).

Sem falar que para além de lançar suas histórias como filmes, também lançava em livro – algo que as novas gerações consumidoras de “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis” jamais pudessem cogitar que já fosse tendência nas décadas de 1920/30. Então, podem procurar por seus livros nas estantes virtuais que encontrarão sucessos como “Metropolis”, “Woman in the Moon”. “Das Nibelungenbuch” e “Sepulcro Indiano” também para degustar a leitura, ao mesmo tempo que matam saudades dos filmes.

Por fim, porém não menos importante, Thea teve sua carreira atropelada pelo nazismo, que separou não apenas seu casamento com Fritz, como também seus futuros filmes. Fritz possuía ascendência judia por parte de mãe, e ao mesmo tempo repudiava o que estava sendo feito por Hitler. Quando o governo nazista convida o casal para serem produzidos pelo governo, o estigma histórico que pairou sobre eles é o de que Thea aceitou a proposta e Fritz recusou, separando o casal, já que ele teve de fugir da Alemanha e passou por Paris até chegar em Hollywood e continuar a fazer filmes por lá. Mas precisamos redimensionar o fato de que as escolhas para as mulheres na época eram muito limitadas (sem querer justificar suas ações, mas tentando colocar em perspectiva o peso de seu tempo).

Na Alemanha, Thea tinha uma família de renome e todos os seus bens. Fritz saiu da Alemanha sem nada, sem ter nenhuma certeza de êxito (lembremos que muitos que tentaram fugir fracassaram no meio do caminho ou foram caçados). E para Thea, numa estrutura extremamente patriarcal e excludente, o convite significava autonomia e prestígio no seu trabalho (enquanto Hollywood entrava na Era de exclusão total para as mulheres, retirando para escanteio praticamente todos os nomes que ainda trabalhavam lá prolificamente até a década de 20). Para Thea a escolha, ética e socialmente falando, era muito reduzida. Devemos entender o contexto de época para tentar compreender por que ela escolheu ficar e não partiu com Fritz. Um destino de certa forma mal compreendido como o da personagem Maria que criou para a obra-prima “Metropolis”…

É importante ressaltar que tudo isso faz parte de se tentar ressignificar o passado que muito facilmente condenou as cineastas mulheres como Thea e Leni. Não que elas não tenham aderido ao nazismo. Elas aderiram sim. Assim como Rossellini foi produzido pelo fascismo e pediu “desculpas” depois… Mas o destino cobrou muito mais pesado das mulheres… Existem professores de cinema que não ministram essas mulheres até hoje. Leni por exemplo foi julgada e inocentada de crimes de guerra. Foi decretado que ela não os cometeu. Mas seu trabalho foi todo amaldiçoado. E tem gente que não olha nem com olhar opositivo! A questão é que temos de pensar o quanto estas mulheres podem também não ter tido muita escolha ética na época….porque estruturalmente não havia muita escolha. O Ovo da Serpente de Bergman mostra muito bem como a lobotomia funcionava… E outras obras como A Menina que roubava livros ou As Mulheres de RosenStrasse também mostram como quem discordava do sistema era severamente castigado. Não é tratar como “inocente” quem pode ou não ter concordado, mas dar o devido peso estrutural. E usar de olhar opositivo para conseguir encarar e analisar friamente. Lembremos que as obras do Expressionismo Alemão (que Thea ajudou a fazer) previram criticamente o nazismo. Vide o livro “De Caligari a Hitler” de Siegfried Kracauer.

Vale resgatar alguns de seus maiores trabalhos eternos e atemporais:

1) “M – O Vampiro de Dusseldorf”

https://www.youtube.com/watch?v=dcwhKaY1se0

2) “Metropolis”

https://www.youtube.com/watch?v=Vnp_TAb52AI

3) “Dr. Mabuse”

https://www.youtube.com/watch?v=6JgCDWWc6-4

4) “Woman in the Moon”

https://www.youtube.com/watch?v=lB0_–GnGSU

95982744_4359486070758790_7228886247903592448_n

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.