As Cineastas do Fantástico: Ana Carolina

Saiba mais sobre esta diretora de vanguarda no cinema brasileiro

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05 de julho de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga.

Vamos saber um pouco mais sobre as diretoras do Cinema Fantástico no Brasil e no mundo? Retomando um pouco a linearidade da coluna, após 2 homenagens que precisavam ser adiantadas, vamos hoje com a mestra suprema do surrealismo e da vanguarda no Brasil: Ana Carolina.

Ana Carolina (1949)

Para os cinéfilos, prescinde de explicação… Mas como podemos ter transeuntes lendo a coluna se faz necessário fazer a diferença: Muito antes de termos uma cantora de sucesso chamada Ana Carolina, tínhamos uma renomada xará no cinema, Ana Carolina Teixeira Soares, ou só Ana Carolina.

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Sua carreira fala por si. Apesar de ter começado com um documentário, “Indústria” (1968), trabalhou como continuísta do cineasta Walter Hugo Khouri (em “As Amorosas” de 1967), cineasta extremamente versado no cinema de gênero, com obras de terror e sci-fi em sua extensa e variada carreira que também merece ser redescoberta para além das polêmicas em torno do famigerado “Amor Estranho Amor” (filme que Xuxa Meneghel processou na década de 80 e cujo embargo judicial só caiu ano passado). Depois, a diretora assinou a codireção com Paulo Rufino do curta-metragem “Lavra-dor” (1967) – mais um nome de diretor que não seria tido como parte da panelinha do Cinema Novo, então quase conseguimos entender a mentalidade da época pela qual Ana Carolina também não seria considerada como parte do movimento.

E, apesar de até ter feito um filme versando sobre um dos maiores nome precursores do Cinema Novo, Nelson Pereira dos Santos (“Nelson Pereira dos Santos saúda o povo e pede passagem” de 1970), a trilogia pela qual iria inicialmente ser bastante notabilizada de fato bate de frente com o Cinema Novo e faz algo completamente diverso. Uma potência extremamente vanguardista e experimental sobre as identidades femininas plurais: “psicologicamente, os homens não entendem nada de mulher”, nas palavras da própria em entrevista a Jean-Claude Bernardet no Jornal Movimento em 1975.

A censura na época da Ditadura Militar, inclusive, teria muitos problemas com as formas de representação às vezes lúdicas e noutras bastante violentas dos problemas sociais que as mulheres precisavam enfrentar para se emancipar. E Ana Carolina fazia isso sem concessões.

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Sua trilogia formada por “Mar de Rosas” (1977), “Das Tripas Coração” (1982) e “Sonho de Valsa” (1986) falam de várias perspectivas das mulheres da época, em oposição de olhares geracionais bastante distintos de quais seriam as posições sociais que poderiam ser ocupadas e quais seriam completamente demolidas. E é aí que entram as abstrações surreais, como camadas tectônicas que provocavam terremotos sempre que se moviam.

Logo no primeiro exemplar, “Mar de Rosas”, temos a protagonista matriarca de sua família, ironicamente nomeada de ‘Felicidade’ (numa das melhores interpretações da carreira da atriz e também cineasta Norma Bengell), que precisa literalmente superar a figura autoritária do marido (Hugo Carvana) para poder se redescobrir… Mas tendo a filha (Cristina Pereira, uma das atrizes assinatura da diretora) como principal empecilho.

Num misto de conflitos e dificuldade de comunicação entre os diferentes anseios de gerações distintas, a filha tenta o filme inteiro matar a mãe, numa espécie de complexo de Electra às avessas. A liberdade que uma não via na outra, ou que a outra almejava dar para esta, geravam uma identificação cuja simbiose só poderia se libertar através do auto-sacrifício e da superação do impasse da ocupação do mesmo espaço pelas duas. A mãe extremamente fatigada e resiliente apenas segue sobrevivendo, ante todas as tentativas malfadadas de eliminação… De estocadas enquanto dirige a ser soterrada de terra, literalmente. Algo que descreve muito bem como uma chefe de família deveria se sentir ante todas as restrições morais e sociais da Ditadura para criar seus filhos. E, a cada tentativa, a filha vai compreendendo melhor sua mãe.

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Já em “Das Tripas Coração”, um devaneio de um personagem masculino que foi designado para avaliar um internato só de mulheres (professoras e alunas) cria literalmente uma dimensão paralela onde tudo pode acontecer, quase transformando a relação entre docentes e discentes num manicômio particular sob risco de vida e morte. Apesar de ser um devaneio que parte do personagem masculino (Antônio Fagundes), são as mulheres que superam as expectativas da sociedade patriarcal e fazem o inferno do lugar.

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Enfim, se Ana Carolina abordou as narrativas anteriores a partir do olhar da infância e depois da juventude, agora ela parte para a fase adulta da mulher com “Sonho de Valsa”, quais seriam as possibilidades de sonho para esta mulher já inserida nas restrições do meio onde vive e sem a perspectiva de um futuro de possibilidades… Aliás, este foi o primeiro filme nos cinemas como ator para o cantor Ney Matogrosso.

Segundo a própria Ana descreve: “No Sonho de Valsa eu já baixo um pouco a bola e fico na questão padrão, clichê (da expectativa social feminina). Hoje eu já não sei dizer se é assim, mas das mulheres dos 30 aos 40 anos que fantasiam o amor, o encontro do homem, o romance, o homem que me ama, o homem que me protege, achei meu príncipe (…) Acabou sozinha… Tchau… E aí vai ter o que? Reze, se conheça, segure suas pontas, ganhe seu dinheiro e não me encha. Essa é a mensagem do Sonho de Valsa, do sonho de valsa de todos nós.”*

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Assim, embora “Mar de Rosas” apareça como a primeira parte da trilogia, por trás deste encontra-se “Getúlio Vargas”, seu primeiro longa-metragem, realizado em 1974 a partir do material proveniente do antigo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Segundo a própria, mais uma vez:

“É sempre confessional. São sempre memórias das sensações que me levaram a fazer. Na verdade, eu não consigo dissociar Mar de Rosas de Getúlio Vargas. Porque o Getúlio aparentemente é um documentário sobre um ditador e não-sei-o-que-lá. Mas eu fiquei tão pirada quando comecei a ver o material do DIP, do Brasil documental, que aí começou o Édipo, o poder, o poderoso. Eu só fiz o Mar de Rosas porque eu vi alguma coisa no material do Getúlio que não me pertence. Quer dizer, eu não filmei nenhum plano do Getúlio, eu fui impactada por alguma coisa do Getúlio que, obviamente, é masculina, é Édipo, o pai que protege, que provê, que resolve, e que se mata, pai que atira contra si mesmo, que é falível. Ali eu tive um treco, uma viagem qualquer. Ali eu tive uma coisa que me remete a uma discussão descabelada da família, no sentido de saber dentro da família, por que meu pai não é o infalível? No Mar de Rosas a figura proeminente é a mãe. A grande batalha é entre eu e a outra mulher do meu pai.”**

Ou seja, de certa forma, assim como em algumas colunas anteriores sobre as diretoras do cinema fantástico, percebemos que muitas mulheres buscam anseios de suas subjetividades no cinema primeiramente através do documentário, porém, mesmo nele, não abrem mão do delírio, da vertigem e do uso de arquétipos do cinema de gênero para exprimir suas subjetivações.

A diretora teria verdadeiros hiatos na carreira, como muitas outras mulheres que vinham trabalhando desde o período da Ditadura Militar, provavelmente em decorrência de vários fatores como o fim da Embrafilme e de todo um modo de viabilizar a produção de cinema no país, o que só realçou o quão desequilibrada era a distribuição de recursos em questões de gênero, raça, regionalidade e etc… Porém, a partir da Retomada do Cinema Brasileiro na segunda metade da década de 90 em diante, começamos a ver o forte protagonismo das cineastas mulheres em empreender num momento inconstante e temerário, mas que, graças a muitas delas, o nosso cinema conseguiu voltar a se consolidar dos anos 2000 em diante.

Vale ressaltar o quanto os filmes de Ana Carolina também alçaram novos patamares, pois, mesmo que tenham começado a olhar o passado, em produções de época que mostravam outras óticas da História do Brasil, a cineasta continuava a aderir à vanguarda e a toques surreais para expressar subjetividades femininas ou olhares opositivos dentro de um escopo mais amplo do social, do conflito de classes, como em “Amélia” (2000). Segundo a pesquisadora Ivana Bentes, professora na ECO UFRJ, ela “credita à Amélia a saída de uma esfera privada para uma tentativa mais explícita de entender o Brasil e confrontá-lo com aquilo que lhe é exterior”***.

 

*ESTEVES, Flávia Cópio. “SOB” SENTIDOS DO POLÍTICOhistóriagênero e poder no cinema de Ana Carolina (Mar de rosas, Das tripas coração e. Sonho de valsa, 1977-1986). UFF – Niterói / RJ.

 

https://www.historia.uff.br/stricto/teses/Dissert-2007_ESTEVES_Flavia_Copio-S.pdf

 

*Idem

*Ibidem

 

Filmes mencionados:

 

“Mar de Rosas” (1977)

 

https://www.youtube.com/watch?v=3s6o88tkwcE

 

“Das Tripas Coração” (1982)

 

https://www.youtube.com/watch?v=nz-_pdQk-j4

 

“Sonho de Valsa” (1986)

 

https://www.youtube.com/watch?v=zdRdYFWtwCE

 

“Amélia” (2000)

 

https://www.youtube.com/watch?v=b81MpC4ukkg

 

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.