As Cineastas do Fantástico: Beyoncé

"Black is King" é mais do que novo álbum visual de Beyoncé, é novo mito fundador afrofuturista para o berço do mundo

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22 de agosto de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga

Essa decerto vai pegar todo mundo de surpresa, pois definitivamente se existiria uma pessoa que talvez ninguém associasse a esta coluna ou a esta página seria esta grande artista. Não por qualquer ausência qualitativa na carreira mais do que completa, porém talvez mais como uma dissonância temática: O que teria a ver o cinema fantástico com a icônica Beyoncé?

Pois preparem-se para um desbunde visual e cultural: “Black is King”.

Estreia desta semana, o espetáculo visual “Black is King” é protagonizado e dirigido por ninguém menos que a maior representação artística da música contemporânea: Beyoncé. Ela dividiu as câmeras com Emmanuel Adjei e Blitz Bazawule, ambos originários de Gana, num projeto tão visualmente deslumbrante que perpassa experiências além-fílmicas. Como brincou a amiga roteirista Renata Corrêa, daria até para aludir a projetos surrealistas de nomes como Jodorowsky, não fosse o amplo escopo de outras referências que operam aqui…

Algo maior que apenas um álbum-visual, como Beyoncé o descreve, que começou como trilha sonora de “O Rei Leão” (a atriz e cantora havia sido convidada a interpretar a personagem “Nala” no remake da Disney lançado em 2019, bem como responsável pelas novas canções do filme), porém virou algo muito maior do que um filme. Uma distopia afrofuturista, uma performance, uma instalação, uma vídeo-arte, um cinema verité e de fluxo, tudo montado pelo leitmotiv de suas músicas… E acaba se tornando um novo mito fundador para o próprio “O Rei Leão”.

Vamos explicar desde o começo, então.

Numa coluna destinada às mulheres cineastas da história do cinema que ajudaram a compor esse grande quadro maior do cinema fantástico, que perpassa pela fantasia, pelo sci-fi, pelo terror e o horror, algumas pessoas talvez sequer associassem o nome de Beyoncé Giselle Knowles-Carter à direção de cinema… Porém, para além de ser uma artista famosa no mundo inteiro, Beyoncé anda tomando as rédeas de sua própria carreira não apenas criativamente na função de produtora, como também cada vez mais como diretora. E nem seria a primeira vez que ela estaria dirigindo um de seus projetos. A despeito de videoclipes e outras obras para a TV, Beyoncé já havia dirigido longas-metragens como o documentário “Homecoming” para a Netflix, dividindo a direção com o parceiro de outros trabalhos, Ed Burke.

Agora, em seu feito mais audacioso, ela traz outros significados para uma cosmologia que vai muito além de “O Rei Leão” original. Sabemos que a animação da Disney era a primeira obra do estúdio que se passava no continente africano (após algumas obras nos outros continentes do mundo). E logo quando tinha a chance de abordar mitos e símbolos do fantástico na ancestralidade do berço do mundo, a Disney substituiu seus personagens humanóides por representações de animais selvagens que podiam falar… Um filme lindo, decerto. E fundamentado em grandes obras, como notoriamente os fãs sabem que houve inspiração a partir de “Hamlet” de Shakespeare (uma obra europeia). Isso sem falar que a Disney fez a mesma coisa 2x, pois cometeu um remake quase idêntico ao original, só que com novas tecnologias de animação, mesmo após o sucesso da peça da Broadway com artistas de carne e osso que diziam ter se inspirado em outros mitos africanos para além da já famosa citação a “Hamlet”.

Contudo, é aí que entra Beyoncé. Não apenas humanizando de novo a potencialidade latente da obra original, como acrescentando e visibilizando diversos outros mitos e referências, desde a fábula e cosmologia espiritual, a referências de carne e osso bastante verídicas. O que Beyoncé não revisitou neste universo criado em “Black is King”? Num minucioso trabalho de pesquisa e valorização, ela ressignifica de tudo, de mitos da ordem de Nefertiti do Egito Antigo, que governou em pé de igualdade ao lado de seu marido, o faraó Aquenáton… À Rainha de Sabá (“Makeda”), personagem presente até mesmo no Torá, na Bíblia e até no Alcorão, a partir da história da Etiópia e Iémen. Uma incrível mulher que além de majestade, chegou a comandar exércitos e a ser uma líder diplomática da região.

Poderia até se tratar de cultura Pop… Mas os olhares plurais no audiovisual estão elevando as fronteiras estético-narrativas em territórios outrora tidos como periféricos para o cinema hegemônico, como os territórios do Sul e Oeste do continente Africano (a própria Beyoncé não revelou exatamente quais regiões estão abarcadas em “Black is King”, porém sabemos que a pesquisa e jornada dela se estendeu por vários países).

E, com isso, Beyoncé trouxe para este live action um substrato ocupado de fato por imaginários identitários africanos, com a magia da transmissão de geração para geração da realeza ancestral e cósmica. Ela trouxe códigos e signos ritualísticos ricos em herança cultural que se traduziram numa das prováveis maiores influências plásticas dos últimos tempos que o audiovisual poderia gerar. Além de hipnótico, é tanto transgressor e inovador em tantos níveis quanto reverencial: De influências que ela traz de volta de álbuns anteriores como “Lemonade” à turnê “On The Run”, como com os filmes “Daughters of The Dust” de Julie Dash e “Touki Bouki” de Djibril Diop Mambéty (1973) — saiba mais aqui: https://youtu.be/eDTx7ExA_mg .

Boa parte do universo fantástico de “Black is King” trabalha a partir de toques de afrofuturismo, conceito artístico-filosófico que ressignifica a tabula referencial do mundo a partir da ancestralidade africana para reimaginar o presente e as possibilidades futuras, a partir de nomes como Sun Ra e Mark Dery. Além disso, acrescenta trechos de grandes pensadores sobre o assunto, mesclados na narração em off que intercruza a narrativa musical. E até agrega participações mais do que especiais, como de seu marido Jay-Z e seus filhos, e o cantor Kendrick Lamar, as cantoras Jessee Reyez e a ex-parceira Kelly Rowland, a modelo Naomi Campbell e a atriz Lupita Nyong’o etc. O filme ainda faz homenagem ao grande ator James Earl Jones, que dubla o personagem Mufasa mais uma vez (pai de Simba em “O Rei Leão”).

Valendo citar também até um toque brasileiro, com figurino pela estilista Loza Maleombho. – E, na humilde opinião deste que vos escreve, acrescento diálogos com nossa estética no cinema brasileiro como com o filme “Negrum3” de Diego Paulino e “Kbela” de Yasmin Thayná, exemplificando que há vozes ecoando um diálogo muito potente no mundo em estéticas contra-hegemônicas.

“Black is King será lançado pela Disney Plus no Brasil. No entanto, como um álbum visual, muitos sites especializados em música adiantaram a obra em seus sites pelo mundo, que não estão necessariamente bloqueados no Brasil, como linkado a seguir:

https://www.beyhive.com.br/bio

Parte do texto acima foi retirado de outro texto de minha própria autoria na Revista Fórum que linko abaixo:

https://revistaforum.com.br/cultura/cultura-pop-na-quarentena-beyonce-com-black-is-king-e-teoria-queer-com-meu-nome-e-bagda-por-filippo-pitanga/

E aproveito e indico também um texto excelente que decupa inúmeras cenas do filme, referenciando cada citação artístico-cultural, espiritual e mitológica que o projeto faz:

https://www.sp-arte.com/editorial/black-is-king-uma-analise-decolonial/