As Cineastas do Fantástico: Glenda Nicácio e Ary Rosa

Confiram o trabalho da Rosza Filmes

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10 de julho de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO

Por Filippo Pitanga

Hoje vamos sair da cronologia linear que estávamos seguindo para aproveitar o timing de um enorme presente contemporâneo: Vamos falar da cineasta Glenda Nicácio, que sempre trabalha em dupla com Ary Rosa, do cinema realizado no Recôncavo Baiano.

Vamos aproveitar que eles liberaram todos os seus longas-metragens (alguns inéditos no circuito), no youtube de sua produtora Rosza Filmes, à luz da quarentena, somente no período de 11 de junho a 02 de julho. Aproveitem essa oportunidade imperdível:

https://www.youtube.com/channel/UCcbsaYbMpcg9-mAeD8dUVpQ

Glenda Nicácio

A dupla baiana Glenda Nicácio e Ary Rosa despontou rápida e merecidamente no cinema contemporâneo com o recorde de três longas-metragens com tanta representatividade no curto período de 2017 pra cá, todos feitos de forma independente e cooperativa com a região onde vivem e trabalham, o Recôncavo Baiano. Uma prova viva de que a cultura do entorno da criação de seus realizadores é parte crucial para se analisar suas obras resultantes disso. Seja nos usos e costumes locais como folclore regional, bem como sob a herança da fé, dos orixás e da ancestralidade que lhe precedem. É neste campo espiritual que o cinema da dupla evoca inúmeras características do gênero fantástico, como vamos ver adiante.

Eu tenho um extenso trabalho de acompanhamento em torno dos filmes destes grandes realizadores, seja com entrevistas, textos críticos, bem como artigos inclusive a serem publicados em livros de estudos sobre eles. Mas é fato público e notório todo o impacto que eles vêm gerando na nossa sétima arte, ainda mais podendo olhar para trás agora, à luz do dia 19 de junho que foi o Dia do Cinema Brasileiro.

A estreia de seus dois primeiros longas-metragens, “Café com Canela” (2017) e “Ilha” (2018) ocorreu nas respectivas duas edições seguidas do 50º e 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, e gerou novos paradigmas. Não apenas por terem sido os primeiros longas-metragens dirigidos por uma cineasta negra a concorrer na competição principal, como também por terem arrebatado os prêmios de público e roteiro em ambas edições, consagrando a dupla como o expoente criativo mais relevante a se acompanhar nestes tempos recentes. Para completar, seu terceiro longa, “Até o Fim” (2020), também teve estreia prestigiada em outro renomado Festival, na 23ª Mostra de Tiradentes, e também saiu de lá com o prêmio de público após noite ovacionada de pé por longos minutos, mesmo após o término da projeção e dos créditos finais – sendo necessário que os seguranças solicitassem que o público já fosse deixando o local para dar lugar à próxima sessão – um feito que se repete por todo lugar onde seus filmes são exibidos.

A utilização do cinema fantástico decerto advém da alta carga de transbordamento da realidade retratada em seus filmes, que não conseguiria dar conta da refabulação de seus personagens perante um mundo que eles recriam a partir de seus imaginários sem o uso da fé, do delírio e do poder do cinema.

Primeiramente, com a premissa de ser um drama de superação com pitadas de humor, “Café com Canela” acaba aplicando uma gama de movimentos que ampliam o gênero pretendido de forma inusitada, porém eficaz. Começando o filme com 3 saltos no tempo e mudança de linguagem de câmera entre imagens de vídeo simulando fita VHS até chegar no presente com imagem digital, os diretores utilizam do dinamismo decupado para falar das inconstâncias da vida. É curioso denotar isso, porque todas as partes da trama destinadas a este quesito parecem ser invadidas pelos diversos gêneros do cinema para além do drama tradicional do restante da narrativa, como o horror psicológico e o noir doméstico, com requintes de um inesperado surrealismo.

Isto sem falar na direção de arte primorosa por parte da própria diretora Glenda Nicácio, criando ambientes às vezes claustrofóbicos e assombrosos (com destaque para a cena em que a cozinha vira uma floresta selvagem ou que as paredes do quarto derramam sangue do teto), além de bastante uso do som e diálogo no extracampo (já o som ficou a cargo do outro codiretor, Ary Rosa). Isso ajuda a criar uma duplicidade narrativa de outras histórias como fantasmas da memória dos saltos temporais falados no início. Então, enquanto muitas das imagens do presente podem soar melancólicas em depressão da personagem, os sons são vivazes de momentos felizes, e, numa inversão surpresa de valores, são os risos que assustam e magoam (o que lembrou trabalhos como “Trabalhar Cansa” de Juliana Rojas e Marco Dutra e “Aniversário do Pedro” de Cíntia Domit Bittar). Mais um contraste que ironicamente contrasta a imobilidade da personagem com uma enorme quantidade de movimentos fílmicos para desestabilizá-la.

Em segundo lugar, agora já falando do segundo longa-metragem, “Ilha”, para falar sobre as várias camadas que existem na evolução e na maturidade alcançada pela nova obra da dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa, o longa-metragem “Ilha”, que estreou em competição no 51° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, é preciso pensá-lo como uma pintura, resultado de inúmeras camadas de tintas sobrepostas, mas que parece muito simples na imagem revelada a olho nu. Para compreendê-lo, precisaremos mobilizar elementos presentes no campo extrafílmico até sermos resgatados de volta para dentro da obra.

Atualmente, o cinema contemporâneo é dominado por várias disputas de narrativas: por um lado, o eterno conflito entre cinema hegemônico – que conquista enormes financiamentos e atinge grande público – e autoralidade independente de resistência e guerrilha, que perpassa as micropolíticas do fazer cinema e as questões afirmativas de inclusão e representatividade; por outro, o confronto à invisibilidade que a Ancine recentemente supôs realizar, enquanto, na realidade, desenhava um novo quadro de incentivo extremamente restritivo e excludente, no qual ainda menos cineastas conseguem acessar o privilégio de fazer cinema com respaldo de investimento público. Lembremos: este respaldo é um direito constitucional de fomento à cultura. O que muita gente confunde com “favor”, é, na verdade, uma obrigação legal, tanto em relação à cultura quanto à educação.

Pois vários momentos do filme Ilha, Glenda Nicácio e Ary Rosa aludem diretamente a essa dicotomia e assumem se inserir num contexto que aquiesce a essas disputas em seu modo de produção, e igualmente dentro da história, de maneira metalinguística. O fazer cinema e suas dificuldades inerentes estão representados a partir de uma premissa bastante simples, quase como numa relação hipossuficiente entre os cineastas e a Ancine ou o Ministério da Cultura. A sinopse do filme reforça o recurso desta metáfora, falando sobre um jovem misterioso que sequestra um cineasta famoso para filmar a história de sua vida – algo próximo à premissa de “Cecil Bem Demente” de John Waters ou “Louca Obsessão” de Rob Reiner. Mas só numa primeira olhada, pois a trama não aceita facilmente uma roupagem de gênero e envereda por vários tons muito mais abertos e lúdicos. Afinal, o que a história deste rapaz teria de tão importante para forçar um famoso diretor a filmá-lo contra a sua vontade? Por que logo este cineasta é escolhido para o trabalho?

O cineasta sequestrado é o personagem de Henrique – firmemente interpretado pelo ator e dramaturgo Aldri Anunciação, que dá ritmo e maturação à cena -, um homem negro famoso, originário da Bahia e laureado no mundo inteiro por um cinema que se acomodou aos padrões comerciais, sucessos rasos em detrimento da arte revolucionária com a qual começou sua carreira. Por si só, isto já é uma declaração irônica, pois infelizmente o Brasil não possui muitos representantes negros contemplados no sistema hegemônico e, por isso mesmo, deixa de conceder o devido reconhecimento a esse recorte social, conforme os dados da APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro) evidenciam.

Sobre o terceiro filme ainda inédito para a maior parte do público, tendo tido poucas chances de ser exibido em Festivais devido à quarentena da Covid-19, deixarei o suspense no ar para que todos possam se deliciar em suas surpresas!

Segue o link do Youtube da Produtora Rosza Filmes, onde poderão conferir os 3 longas-metragens disponíveis até 02 de julho:

https://www.youtube.com/channel/UCcbsaYbMpcg9-mAeD8dUVpQ

Dossiê Rosza Filmes Produções: Confira um compilado de trabalhos da dupla de diretores Glenda Nicácio e Ary Rosa do cinema no Recôncavo Baiano.

Coluna na Revista Fórum dedicada aos filmes:

https://revistaforum.com.br/cultura/cinema-na-quarentena-spike-lee-na-netflix-e-reconcavo-baiano-por-filippo-pitanga/

Entrevista com a diretora Glenda Nicácio:

http://almanaquevirtual.com.br/entrevista-com-glenda-nicacio-sobre-ilha/

Entrevista com o diretor Ary Rosa e o diretor de fotografia Thacle:

http://almanaquevirtual.com.br/22-mostra-tiradentes-entrevista-sobre-ilha/

Confira crítica dos filmes:

Café com Canela:

http://almanaquevirtual.com.br/cafe-com-canela/

Ilha:

http://almanaquevirtual.com.br/ilha/