As Cineastas do Fantástico: Grace Passô

Uma das maiores atrizes da contemporaneidade, agora também cineasta

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30 de agosto de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga

Hoje vamos falar de uma profissional extremamente experiente, com décadas de trabalho no teatro e audiovisual, inclusive como dramaturga e diretora de peças, porém que só mais recentemente se tornou diretora de cinema também, e justo através de gêneros entremeados pelo fantástico, o distópico e o afrofuturismo: Grace Passô*.

Uma das maiores atrizes da atualidade que já estava enveredando para a linguagem de gênero na atuação, como nos thrillers cheios de suspense, horror psicológico e delírio, como “No Coração do Mundo” dos irmãos Gabriel e Maurílio Martins e “Praça Paris” de Lúcia Murat.

O nome “Grace” pode nos levar a um verdadeiro estudo de algo que está para além de explicação da realidade material, deste mundo corpóreo, como na etimologia da palavra “graça”, benção, dádiva etc. Mas pressupor que a pessoa individualizada pelo nome próprio Grace Passô, pessoa multifacetada, também atriz, dramaturga, produtora, curadora e agora até diretora de cinema pudesse ser resumida por uma expressão etimológica, seria reduzir uma questão que na verdade é múltipla, e não unidimensional. Um dos maiores nomes das artes na contemporaneidade, de fato Grace é uma dádiva para seu público, então, neste sentido, seu nome e pessoa deixam plateias em estado de graça. Mas a própria pessoa de Grace também é garra, também é luta e conquista, em sua carreira e frutos colhidos.

Então, não podemos falar da parcela de divindade, ainda mais neste momento de reconhecimento unânime de sua carreira, após tantas homenagens dos últimos anos como a da 22° Mostra de Tiradentes, sem falar também do corpo, da matéria, do mundo das coisas e das falhas e erros humanos que formam a personalidade de toda e qualquer pessoa, e que a tornam tão única. Por isso mesmo não poderia haver filme mais perfeito para representar a artista como seu primeiro trabalho de direção no cinema do que a produção distópica e afrofuturista de “Vaga Carne”, adaptação homônima em média-metragem da peça de teatro escrita e protagonizada por Grace Passô, ora dirigida pela própria, em conjunto com Ricardo Alves Jr., e produzida pela EntreFilmes, Grãos da Imagem e Universo Produção; ora distribuída pela Embaúba filmes nas plataformas digitais.

É curioso falar de materialidade e precisar apelar para a metafísica em ter de retroceder, voltar no tempo… Não falar do filme, do agora, e sim do antes, do ontem, da peça que originou tudo. De outros filmes que construíram o caminho pavimentado até aqui (especialmente uma relação direta com o paradigmático e precursor “Alma no Olho” de Zózimo Bulbul, mas voltaremos a ele mais adiante nesse texto). Até porque a peça teatral foi uma das obras que mais me impactou como espectador e como crítico nesta década, então assumir uma posição extracorpórea na experiência que une estas duas visões do mesmo texto acaba sendo necessário.

“O Poder da Voz”…

O texto original da peça (que altamente aconselho o público a procurar a publicação impressa pela editora Cobogó, para reler a todo momento como referência viva) fala sobre o poder da “Voz”! Como assim o poder da voz? Bem, a voz pode reunir e guiar multidões, gerar levantes e revoluções. A Bíblia começa com a criação do universo através da voz de Deus: ele enuncia e a coisa passa a existir. “Disse Deus: Haja luz; e houve luz” (Gênesis 1:3). Não é de surpreender que a peça fale sobre a voz. Uma voz criadora que começa em meio ao nada, passa a enunciar as coisas e elas passam a existir em nosso imaginário, onde, de repente, é lançada a luz sobre estas coisas e elas passam a ser visíveis a olho nu. A voz invade corpos no imaginário, na lembrança enunciada da memória oral… até invadir o corpo de uma pessoa. Esta pessoa é Grace Passô. Mulher. Negra. E esta passa a personificar a voz de Deus. Passa a dar corpo a esta parcela de divindade incontida que não conseguiria parar em apenas um só lugar por muito tempo concentrando a força do universo inteiro.

Por isso cada gesto, cada movimento, tudo é difícil para a voz etérea controlar naquele corpo…o que damos por garantido, na realidade cotidiana, aqui se torna uma força hercúlea para levantar o mais simples músculo. A força do cosmos precisa se concentrar muito para uma ação que apenas parece tão microscópica a olho nu. Na peça, esta representação física se dá através de um jogo de luz e sombras e silhuetas, do que não se vê e do que se é mostrado, ora transposto para o cinema pela fotografia de Andrea Capella. Mas o destaque principal fica para a força da voz de Grace, evidentemente, no filme captada por Marcela Santos e editada/mixada por Pedro Durães. E é aí que entra uma gama de referenciais e debates com outras obras que será trazida para preencher estes lugares propostos e refletirmos sobre como chegamos aqui.

Neste ponto é válido trazer um diálogo com o multipremiado filme em curta-metragem “Deus” de Vinícius Silva, onde “Deus” é uma mulher negra, que é mãe, que trabalha, que gere a base da pirâmide do mundo. É interessante voltar a este lugar, pois temos aqui de novo uma atriz que representa uma trajetória de inúmeras mulheres negras que lhe precederam e reunidas agora em sua potente voz. Sim, a possante oralidade de Grace preenche muitos espaços, um de seus maiores atributos e que temos a dádiva de escutar. Mas o filme homônimo à peça, “Vaga Carne”, já se diferencia em materializar os corpos destas mulheres negras que precedem e sucedem esta voz. Várias idades e experiências. E não só mulheres, como homens negros também. Várias figuras muito conhecidas do teatro e cinema mineiro (podemos citar o cineasta André Novais, que dirigiu Grace no multipremiado filme “Temporada”, a cantora Dona Jandira e a atriz canônica Zora Santos). Pois, neste momento conturbado que vivemos, de desmantelamento cultural das políticas públicas por administrações com interesses opostos à arte, é mais urgente do que nunca registrar o que está sendo feito, a revolução construída até aqui por programas de base social de administrações anteriores, especialmente atravessados pelas questões de gênero, raça e territorialidade.

“Triangular a reciprocidade da catarse”…

Portanto, é importante retomar a importância de relacionar objeto e sujeito da arte, e como eles se relacionam na autoralidade. Por isso é tão importante o filme acrescentar pessoas negras na narrativa do que antes era um monólogo no teatro apenas de Grace Passô. Na verdade, a plateia na qual a peça exerceu poderosa força atrativa, e também foi nomeada e enunciada como parte da obra, é a mesma declaração coletiva aqui trazida para dentro do filme, de modo a refletir quem testemunha como agentes também da ação. Este dispositivo pode ser lembrado por alguns de um filme menos conhecido do saudoso cineasta Abbas Kiarostami, “Shirin”, onde várias atrizes do cinema iraniano eram dispostas em cadeiras de cinema de frente para a telona (a qual nunca era mostrada), e apenas ouvimos os diálogos do filme projetado e vemos as reações do público. Sentimos o que é relatado através das expressões da plateia, que, de passiva, se torna personagem ativa na percepção sensorial. A diferença aqui em “Vaga Carne” é que a gente pode assistir ao que a plateia assiste, interferindo e mudando a ação, e terminando por triangular a reciprocidade da catarse entre os agentes envolvidos.

Mas não é só por “Shirin” que a tabula referencial pode perpassar, tenham tido os realizadores esta intenção ou não, pois o recurso só dura rapidamente até a primeira terça parte da projeção. Os temas abordados pela voz que atravessa esses corpos e vão dançando pela pessoa de Grace, experimentando e expandindo os espaços, retornam, enfim, à tabula referencial que mencionei previamente, sobre o clássico “Alma no Olho” de Zózimo Bulbul.

“Narrativa épica da Ancestralidade africana”…

“Alma no Olho” de 1974 é um filme paradigmático do cinema negro com representatividade atrás das câmeras no Brasil, não apenas realizado por pessoa negra (no caso, o ator já notável na época Zózimo Bulbul, de “Compasso de Espera” e “Cinco Vezes Favela”), como também atravessado por temáticas raciais em seu cerne. E, não obstante o formato em curta-metragem, a obra transpunha uma verdadeira narrativa épica da ancestralidade africana até o colonialismo eurocêntrico e o racismo estrutural para tentar apagar e subjugar essas matrizes das quais o Brasil descende diretamente, apesar de tanto negar nas mídias hegemônicas. E o personagem de Zózimo é o herói trágico que será apresentado em silêncio, com o corpo fracionado, num fundo opressivamente branco, até se unir o quebra-cabeça de forma integrada, mas ainda dominado por correntes brancas das quais ele precisa se libertar para reapropriar e ocupar sua própria história.

De certa forma paralela, em outro espectro de polaridade, “Vaga Carne” abre o leque de “Alma no Olho” a partir da mulher negra, a mãe do mundo, desta vez apresentada na imensidão de um fundo negro, primeiro apenas em sua voz criadora e geradora de vida, depois se apossando do corpo… Perpassa também uma jornada épica da negritude, depois falando sobre a imposição do esquecimento de suas raízes que a população negra é obrigada a enfrentar no apagamento estratégico criado pela branquitude, até se resgatar e se redescobrir, passar pela carência e o desejo…e chegar no gozo, no clímax! No parto de algo novo. E, mesmo ao final, após enfrentar a tentativa de silenciamento contra seus corpos, os créditos finais voltam à libertação com vozes de mulheres que lutaram contra o sistema, como a vereadora carioca assassinada Marielle Franco e a ex-presidenta Dilma Roussef que sofreu um impeachment.

Há uma comunicação entre essas obras no olho destes dois gigantes cênicos, tanto Zózimo Bulbul quanto Grace Passô, que dão asas à inventividade, ao experimento, ao risco do corpo ocupar o quadro e sair dele, o primeiro através da música de John Coltrane e a segunda através da própria essência vocal. E o fundo escuro de “Vaga Carne”, tanto na ambientação quanto no conteúdo metafórico, traz uma vantagem de que o breu e a sensação de vazio no escuro trazido ao olho nu possam ser preenchidos, e o que se pode preencher é algo novo, mágico. Aquilo que não se vê ocupado pelo que se vê. O que pode surpreender.

“Criação cósmica onde fez-se a luz”…

Retomamos, assim, a fotografia cirúrgica, mas com muita alma no olho por parte de Andrea Capella (“Corpo Elétrico”, “O Processo” etc). O contraste dos espaços aproveitados na tela através da iluminação poética nos confunde propositalmente, o tempo inteiro, sem saber se estamos no palco de um teatro diante da plateia, ou numa sala de cinema ou mesmo no vácuo de criação cósmica onde fez-se a luz. Os contornos e frações são importantíssimos para dar liberdade para Grace fazer o que sabe melhor: expandir como um universo de ideias. Cada dança, cada gesto, tudo tem sentido.

E é muito interessante ver o enorme preparo vocal da atriz captado em som direto e em cena. Uma aula de projeção e modulação vocal, vistos de forma transparente na respiração e diafragma de Grace. Coisa que o cinema pode oferecer em diferencial perante a peça, pois o som pode ser mixado e trabalhado a posteriori, em separado da cena, mesmo que mantenha sua franqueza genuína. Em nenhum momento apelam para distorções de sua natureza avassaladora. O que também não deve deixar de ser dito da montagem de Gabriel Martins (“Nada”, “O Nó do Diabo”), que consegue desenhar com o que não é mostrado e guiado pelo som para editar formas e fragmentos que vão se completando… O som também é imagem e pode costurar curvas e desembocar em afluentes plásticos. É impressionante o quanto de nossa imaginação é preenchido pela montagem de espaços aparentemente vazios que vão revelando aos poucos cenários futuristas e assumindo uma pegada final mais encaixada no gênero do sci-fi — um grato desdobramento a mais.

Por fim, precisamos voltar ao já citado filme “Deus” de Vinícius Silva para entender o lugar da divindade em “Vaga Carne”. É fascinante o quanto ser humana é o que torna a voz mais divina, bem distante das religiões monoteístas eurocêntricas e se filiando mais ao politeísmo de outros credos como o dos orixás. Estes foram ancestrais que adotamos através de origens africanas, divinizados por adquirirem controle sobre a natureza a partir de sua vivência na terra, e possuem características semelhantes aos seres humanos, pois se manifestam através de emoções. As tão almejadas emoções que viciam e fascinam os deuses, e sem as quais não teriam onde ancorar e destinar todos os seus poderes. Um propósito. Uma motivação. Um reconhecimento de potência. E é por isso que Grace, como pessoa, atriz e personagem é a mais poderosa manifestação estelar justamente quando a divindade dentro de si se reconhece humana, no corpo de uma mulher negra que existe e se comunica. E não há nada mais revolucionário e necessário no atual contexto político do país do que a existência de corpos e vozes a contestarem o status quo fascista e racista imposto contra a vontade destas existências. A imortalidade da força da vereadora Marielle Franco é a prova viva disso, que nomes como Grace Passô prestam um tributo ímpar ao levar trabalhos como “Vaga Carne” adiante. Axé!

O filme foi distribuído e disponibilizado online pela Embaúba Filmes:

*Foto que estampa este post por Nana Moraes

Segue abaixo trecho de debate sobre “transcriação” com Grace Passô durante a 22ª Mostra de Tiradentes, onde ela foi homenageada:

http://almanaquevirtual.com.br/22-mostra-tiradentes-debate-de-vaga-carne/

Entrevista exclusiva com Grace Passô:

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.