As Cineastas do Fantástico: Havia diretoras no Cinema Novo?

Conheça mais sobre Helena Solberg, Tereza Trautman e Adélia Sampaio

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26 de junho de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga

Hoje vamos voltar ao Brasil com as diretoras Helena Solberg, Tereza Trautman e Adélia Sampaio.

Precisamos olhar e ressignificar nosso país com mais atenção, ainda mais perante o movimento atual contra o racismo e a violência policial. Hoje daremos destaque a três grandes cineastas que passariam ao largo de qualquer reconhecimento do cinema de gênero, mas, nos três casos, veremos o quanto elas fizeram obras cruciais para a estética e linguagem da época, mesmo que sejam lembradas por outros méritos independentes deste de hoje. E parte disso é justamente porque suas obras que mais flertam com essas questões foram as mais raras e pouco exibidas, devido à perseguição ideológica e política, exílio fora do país e muita luta contra a censura, contra a tortura, prisões ilegais e fascismo.

Vamos começar pela pergunta que jamais se cala: Existiam mulheres cineastas no Cinema Novo brasileiro?

Mesmo que apenas uma diretora seja oficialmente reconhecida como “cinemanovista” por seus pares (Helena Solberg), apesar de não reconhecer a si mesma como parte do movimento, ainda assim, histórica e academicamente, estudos cada vez mais ressignificam o lugar das mulheres cineastas na história do cinema, inclusive no Brasil.

Foram poucas mulheres que conseguiram fazer longas-metragens durante o período da Ditadura, especialmente de ficção (mas existem várias outras que trabalharam com curtas e/ou doc em longa-metragem), e que também trabalharam com os diretores em seus filmes, vale citar: Helena Solberg, Tereza Trautman e Adelia Sampaio (esta, a 1ª mulher negra cineasta). Além destas, Ana Carolina, Vera de Figueiredo, Norma Bengell, Eunice Gutman etc… (para saber mais sobre estas mulheres fantásticas, procure o livro “Feminino Plural: Mulheres no Cinema Brasileiro” organizado por Karla Holanda e Marina “Nina” Cavalcanti Tedesco).

Helena Solberg, brasileira (1942)

Helena é decerto notabilizada como uma das maiores documentaristas do cinema brasileiro. A princípio, seria até de se estranhar colocar a cineasta aqui na lista do cinema fantástico… Mas vocês não deveriam mais estranhar depois de eu ter colocado os filmes de Varda, inclusive os ensaios documentais, como tendo toques de cinema fantástico (como falar de batatas vestida de batata, ou lembrar de sua vida em espelhos na praia rs, lembram?).

O grande trunfo de Helena nessa lista, na realidade, é um curta-metragem de ficção! Sua primeira obra de ficção na carreira (muito antes do primeiro e único longa-metragem de ficção que é “Vida de Menina” de 2003). Existe um filme em particular dela que muita gente nunca assistiu. Esta preciosidade não está disponível em nenhum lugar, só quem viu foi quem assistiu em Mostras especiais. O curta-metragem se chama “Meio-Dia” de 1968. Apesar de se passar imediatamente antes da decretação do AI-5 pela Ditadura Militar, o clima estava todo lá. O Ato Institucional nº 5 legitimou a tortura e prisões ilegais, intensificando a perseguição política, e outorgando a cassação de mandatos de parlamentares que fizessem oposição ao governo ditatorial.

“Meio-Dia” é uma distopia aterrorizante onde Helena faz uma leitura deste universo a partir dos olhos das crianças. Crianças reprimidas começam a surtar e atacar o mundo dos adultos, atacando e até matando seus professores e tomando o poder com as próprias mãos – algo como “O Senhor das Moscas de William Golding – e o universo ao redor começa a deteriorar em confluência com a revolta. A agressividade destas crianças sem lei consegue ser completamente compreensível diante do nível de repressão que a Ditadura estava exercendo nas famílias.

E não é como se o cinema documental de Helena já não dialogasse com isso desde o princípio, como no seu debut com “A Entrevista”, onde ela inova ao juntar depoimentos de várias mulheres da época, de toda a gama do espectro político da classe média alta (entre as que defendiam a democracia e as que defendiam o Golpe) narrando em off no extracampo enquanto uma mulher era preparada para o dia de seu casamento como se estivesse indo para o abate… Entre estas cenas do dia do casório, ela insere várias coisas do imaginário fantástico, como o riso de Malévola ao amaldiçoar a Bela Adormecida, ou mesmo gritos, sons de tiros misturados a sermões religiosos enquanto bonecas assustadoras aparecem na tela com fotos amareladas e envelhecidas…

Esse imaginário de oposição à Ditadura emanava do pavor da perseguição no Brasil, o que fez a diretora se auto-exilar fora do país, a realizar inúmeros filmes revolucionários em defesa da mulher e do proletariado em vários países da América Latina, pelo que só voltaria à sua terra natal em 1995 com o primeiro longa-metragem em que voltava a trabalhar em português e voltado para nosso circuito: “Carmen Miranda: Banana is my business” – uma biografia de nosso ícone a partir de suas memórias de infância. Helena continua em plena atividade até hoje.

Tereza Trautman, brasileira (1951)

Outra cineasta bastante perseguida durante o período da Ditadura, Tereza é recordista como o filme dirigido por uma mulher no Brasil que por mais tempo permaneceu censurado: “Os Homens que eu Tive” (1973), com Darlene Glória – e tudo porque ousou imaginar um núcleo familiar a partir do poliamor e do matriarcado. Imaginem a Ditadura Militar perplexa diante de uma protagonista que não apenas morava com vários parceiros, homens e mulheres, e todos aceitavam ser pais (e mães) do filho dela sob o mesmo teto. Isso não deveria ser cinema fantástico, certo?

Porém a Ditadura Militar tratou como um filme de terror, censurando-o como altamente perigoso aos bons costumes, aliciador, pervertido, deturpado e perigoso. Sabemos que a relação da sexualidade e nudez sempre estiveram ligados aos filmes de terror como um teor provocativo de subversão aos valores sociais mais conservadores – afinal, não é estranho ver nudez em slasher movies e desmembramentos viscerais… Porém, por que a nudez e o sexo às vezes pesam até mais do que as tripas para os censores sociais? Principalmente os corpos e o sexo não binários?

Tereza teve de defender seu filme em Brasília, sendo obrigada a sustentar argumentos orais inúmeras vezes perante inúmeros militares do mais alta patente. Esta impetuosidade temerária a fez sonhar com vários outros filmes, sempre com um pé no fantástico a partir daí, talvez como rebeldia consciente contra os podres poderes, mesmo que tenha ficado estigmatizada por isso também. Tanto que escreveu o roteiro para o longa “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981) e foi impedida de dirigi-lo, sendo obrigada a permanecer na produção sem a autonomia que pretendia. Bem como ela volta ao fantástico e ao tom de fantasia em “Sonhos de Menina-Moça” (1987), quando coloca inúmeras amizades festejando numa casa sem fim, regados à bebida e drogas, num grande delírio que pode ser interpretado de forma lúdica como um devaneio. Uma espécie de “O Anjo Exterminador” do Buñuel, e aquela festa fosse o purgatório.

“Os Homens que eu tive” apenas seria liberado na década de 80, quando participou de um Festival de Anistia no Canadá que iria exibir filmes “do Cinema Novo” que haviam sido censurados nas décadas anteriores, como “Terra em Transe”, e ao lado também de inúmeras obras estrangeiras que foram igualmente censuradas no mundo, como “Saló ou 120 dias de Sodoma” de Pasolini (vale mencionar que até no Festival de Anistia Pasolini voltou a ser censurado por sua crítica severa e escatológica à Ditadura Italiana). Hoje Tereza é a diretora do canal a cabo CineBrasil TV.

Adélia Sampaio, brasileira (1944)

À luz do movimento #blacklivesmatter e #vidasnegrasimportam, vale ressaltar que Adélia talvez seja mais lembrada como a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem lançado no circuito comercial no Brasil, “Amor Maldito” (1984), e que ousou abordar a temática lésbica pela perspectiva da própria mulher. O filme é um thriller de tribunal, ainda que inserido na época no gênero da pornochanchada para garantir que o circuito exibidor iria comprar e distribuir o filme. E não se enganem, pois, apesar de aparecer uma cartela dizendo que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência para poder passar na censura da época, a história é toda baseada em fatos reais e nas transcrições de um julgamento verídico de uma jovem que é julgada pelo homicídio de sua ex-companheira que se suicidou, sem quaisquer evidências do crime, apenas pelo estilo de vida que a moral daquele período histórico considerava subversivo. O filme até contém inúmeros trechos de delírio, sonho e pesadelo que poderiam parecer toques fantásticos, mas o thriller e o drama predominam, e não foi por este filme que eu a encaixei aqui nesta coluna de Cinema Fantástico.

Antes de dirigir, Adélia já tinha muita experiência em produzir filmes dos cinemanovistas pela Produtora Di Filmes, inclusive obras do cinema de gênero. Mas foram seus curtas-metragens prévios ao longa que de fato abordaram a Ditadura de modo mais explicitamente de gênero. Dirigiu 4 curtas nas décadas de 1970 e 1980: “Denúncia Vazia”, ”Agora um Deus Dança em Mim”, ”Na Poeira das Ruas” e ”Adulto não Brinca”, mas foi com este último que ela se aproximou da proposta de “Meio-Dia” de Helena Solberg, mas à sua própria maneira e jeitinho especial.

Igualmente partindo do ponto de vista de crianças, e com artistas mirins que eram todos filhos e parentes dos cineastas do Cinema Novo, com quem ela trabalhava na Di Filmes, Adélia cria um conto de terror e humor ácido onde estas crianças encontram algo estranho e começam a brincar com isto sem saber do que se tratava. Quando chega aos ouvidos dos adultos, os militares aparecem para investigar, achando que aquela coisa na posse das crianças poderia ser um cadáver desaparecido após ser desovado pelos próprios militares sob os efeitos de tortura e prisão ilegal.

Um assunto pesadíssimo e extremamente certeiro que quase ninguém teria coragem de filmar, mas Adélia concretizou para o panteão da sétima arte. Infelizmente, a maioria dos filmes de Adélia se encontram em seus originais em película na Cinemateca do MAM Rio sem verbas ou infraestrutura suficiente para serem restaurados como merecem e democratizados em via digital. Obra-prima da crítica à Ditadura!

Adélia continua na ativa e realizou há pouco tempo o curta “O Mundo de Dentro” (2018) – para o qual eu cheguei a ter a honra de ser consultor – e que também é ferrenha crítica delirante de uma personagem que reimagina o mundo a partir do manicômio! Adélia está em fase de pré-produção do seu próximo longa-metragem.

Alguns dos filmes mencionados acima disponíveis na rede:

“A Entrevista” de Helena Solberg (1966)

https://www.youtube.com/watch?v=bjhYPswAmxA

“Os Homens que Eu Tive” de Tereza Trautman (1973)

https://www.youtube.com/watch?v=-k9j7Ocjzwk

“Amor Maldito” de Adélia Sampaio (‘1984”)

https://www.youtube.com/watch?v=xUcuRbdeVuE&t=2s

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.