As Cineastas do Fantástico: Los Silencios de Beatriz Seigner

Uma das diretoras contemporâneas mais premiadas dos últimos anos

por

22 de agosto de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga

Vamos aproveitar que a fantástica cineasta contemplada de hoje, Beatriz Seigner, irá ministrar em breve um workshop exclusivo na Academia Internacional de Cinema, parceira do CineFantasy (link com mais informações ao final), para falarmos melhor sobre a proposta inovadora de linguagem de gênero do recém multipremiado “LOS SILENCIOS”, incluindo o prêmio de melhor direção no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, bem como o prêmio da crítica de melhor filme (além do prêmio informal dado por mim e outras parcerias profissionais de filme ursal do ano, o que explicarei melhor logo abaixo*). – Um filme que mistura seres vivos e fantasmas, caminhando entre nós sem distinção, com bastante naturalismo, como nos filmes de Apichatpong Weerasethakul (há de exemplo “Tio Boonmee, Que Pode Recordar suas Vidas Passadas”, ganhador Da Palma de Ouro em 2010).

Diretora de sucessos de coproduções internacionais como os longas “Bollywood Dream” e “Los Silencios”, a experiência de Beatriz Seigner é inestimável, ainda mais com vários casos para estudo de filmagens internacionais e em territórios e culturas novas a se encontrar, com as quais dialogar e aprender. Uma cineasta com experiência não só com filmagens em inúmeros territórios estrangeiros como com logísticas complexas, há de exemplo o set do vilarejo de “Los Silencios” que inundava praticamente dia sim dia não, com inúmeras imprevisibilidades da natureza que só tornaram a dramaturgia ainda mais rica. Sem falar que a realizadora já filmou em praticamente todos os continentes do mundo, uma verdadeira volta ao mundo em filmes de gênero.

Evocando as palavras de uma das críticas e pesquisadoras no corpo de jurados que premiou o filme em Brasília, e que encontra-se no Júri do CineFantasy da Mostra Mulheres Fantásticas este ano, cito a crítica Samantha Brasil para falar melhor do filme “Los Silencios” quando do 51º Festival de Brasília:

“Chama a atenção que várias produções tenham, de forma direta ou oblíqua, abordado a paternidade ausente ou suprimida para falar sobre o “feminino”. Sendo essa uma edição que demonstrou estar atravessada por questões urgentes do debate político atual do país, as mulheres impactadas pela ausência da paternidade foram figuras que estruturam os roteiros dos longas-metragens ficcionais “Los silêncios” (Beatriz Seigner), “A sombra do pai” (Gabriela Amaral Almeida), “Temporada” (André Novais) e do curta “Eu, minha mãe e Wallace” (irmãos Carvalho). É, portanto, a partir desses filmes que nos debruçaremos para esmiuçar, através da estética e da linguagem cinematográfica, os fenômenos que emulam o assombroso número revelado pela pesquisa realizada em 2013, pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011: há mais de 5 milhões de crianças matriculadas no sistema educacional brasileiro, público e privado, sem o nome do pai no registro.”

“De forma semelhante, “Los Silencios” investiga uma família que tem o convívio de familiares ceifado por conta do desaparecimento do marido de Amparo (Marleyda Soto), o que faz com que ela busque asilo político na Ilha da Fantasia, localizada na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Por mais curioso que possa parecer, esse lugarejo, que transborda em águas, de fato existe e permite que a ficção elaborada por Beatriz Seigner possa conjugar elementos documentais para imprimir na tela uma denúncia sobre o extermínio de viés político-ideológico-partidário que assola inúmeros países da América Latina. Na empreitada que visa uma indenização e a possibilidade de entrada no Brasil para tentar reconstruir a vida, os silêncios vão dando conta de preencher, através de recursos imagéticos, as inúmeras saudades e a imensidão de injustiça que as ditaduras militares impõem às vidas de Amparo e seu filho (Adolfo Savinvino) de apenas 9 anos de idade. Com uma direção de atores primorosa conjugada à fotografia de Sofia Oggioni é nas cenas noturnas que o filme ganha elementos fantásticos e a narrativa surpreende ao deslocar o centro do roteiro para o não visto, para os elementos invisíveis da alma humana, para os fantasmas que habitam cada pessoa e suas culturas. Ao propor o diálogo com uma filmografia que remete ao imaginário de crianças para lidar com a perda, temos aqui também um filme sobre mulheres tentando subverter a realidade que subtrai a figura paterna para dar conta da criação dos filhos de forma digna, porém solitária. Porém, é na sororidade e no apoio de uma anciã da Ilha que a protagonista vai, com efeito, encontrar o amparo que necessita.”**

Ou seja, com linguagem que mistura o naturalismo documental e elementos do cinema fantástico, como com as tintas fosforescentes que brilham no escuro, típicas do folclore da cidade retratada na Ilha da Fantasia, Beatriz emprega o horror psicológico no fantasma das guerras civis que excluem o direito de cidadania dos sobreviventes que são obrigados a se refugiarem em territórios para além de suas próprias fronteiras. O fato de o filme se passar numa ilha sem pátria na fronteira tríplice entre três países da América Latina que não acolhem estas pessoas diz muito da segregação que ainda vivemos entre nossos Hermanos – não só dentro do filme, mas fora dele também, pois socialmente e culturalmente temos muito mais a aprender e compartilhar mutuamente do que a segregar e disputar. Quiçá no mundo do cinema, que até hoje em mais de um século de sétima arte ainda espera por coligações potentes e duradouras que reforcem nosso cinema latino americano contra-hegemônico perante a influência opressora de países do hemisfério Norte.

Reitera-se neste ponto a importância de coligações como a do Fantlatam – Alianza Latinoamericana de Festivales de Cine Fantástico, do qual nossa Monica Trigo do CineFantasy é a atual diretora. Iniciativas como estas, do filme “Los Silencios” e dos Festivais Latinoamericanos são cruciais para impulsionar a economia perante a crise. Nós somos força, nós somos potência!

Os filmes de Beatriz Seigner se encontram para aluguel nas plataformas digitais, como na Descoloniza Filmes e etc

* Aliás, é por esta exata razão que este crítico que vos escreve se juntou com a já citada crítica e pesquisadora Samantha Brasil e outros colegas do meio para dar o Prêmio Ursal de melhor filme para Beatriz Seigner no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, por causa da potência de sua coprodução latino-americana e da equipe montada com profissionais de diversas nacionalidades e culturas.

** Link do texto na íntegra de Samantha Brasil publicado na época no site da Abraccine:

https://abraccine.org/2018/10/03/mulheres-que-resistem-com-e-atraves-do-cinema/

Link para o Cineclube AIC #ficaemcasa com a presença de Beatriz Seigner no debate sobre “Los Silencios”:

Link para o Cineclube AIC #ficaemcasa com a presença de Érica de Freitas da Encantamento Filmes, atual produtora de Beatriz Seigner, que falou bastante sobre os novos projetos da cineasta:

Link para o workshop de Beatriz Seigner na Academia Internacional de Cinema:

https://www.aicinema.com.br/curso/workshop-online-beatriz-seigner/

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.