As Cineastas do Fantástico: Tributo a Suzana Amaral

Confiram alguns dos clássicos dessa grande diretora, como "A Hora da Estrela"

por

30 de junho de 2020

AS CINEASTAS DO FANTÁSTICO. Por Filippo Pitanga.

A coluna de hoje vai abrir lugar a um tributo. Talvez pequeno, contudo, sinceramente pleno. Vamos falar de uma cineasta que nos deixou esta semana: Suzana Amaral.

Suzana Amaral (1932 – 2020)

A cineasta Suzana Amaral cravou seu nome na história do cinema brasileiro conseguindo um feito e tanto: adaptar a obra paradigmática de Clarice Linspector, “A Hora da Estrela”. Mas sua filmografia, apesar de enxuta em longas-metragens ao longo de mais de 30 anos de carreira nos cinemas, representava uma coesão ímpar de linguagem que muitos almejam e poucos alcançam. Com um poder quase alquimista, ela criava a partir de suas personagens como experimentos que seriam colocados num meio hostil para sabermos como reagiriam à natureza de seu entorno. À despeito do nível de pessoalidade de tramas centralizadas na visão de suas protagonistas, os filmes de Suzana estão mais para crônicas do tempo retratado do que um retrato individual.

Para falarmos de sua carreira numa coluna sobre cinema fantástico, decerto podemos começar aludindo quão logo à força do simbolismo astral em “A Hora da Estrela” (1985). O filme já começa numa cena antológica com a protagonista Macabéa, vivida de forma inesquecível por Marcelia Cartaxo, que visita uma cartomante para saber seu futuro, esta interpretada por ninguém menos que Fernanda Montenegro. Apesar de bastante sonhadora, a personagem de Marcelia é colocada num mundo que lhe nega o tempo inteiro o direito ao sonho, ao onírico, do qual Macabéa jamais desiste – mesmo desestimulada até pelo parceiro (encarnado por outro nome de peso de nosso cinema, José Dumont). E são esses signos da realidade crua e dura que adotam a aparência de certos toques de fantástico, como a tal estrela do título, que ganha contornos de terror ao final do filme.

O sucesso foi gigantesco, arrebatando 3 prêmios no Festival de Berlim em 1986, incluindo melhor atriz para Marcelia Cartaxo, além de ter sido o representante do Brasil para o Oscar (primeiro filme dirigido por uma diretora a receber esse prestígio). Mas ainda assim as dificuldades do meio, com grande resistência para mais longas-metragens dirigidos por mulheres, além de outras dificuldades fizeram com que Suzana dirigisse poucos outros filmes para o cinema. A cineasta chegou até a revisitar o arquétipo de uma protagonista feminina (a grande Sabrina Greve, em sua estreia como protagonista no cinema) contra as adversidades do mundo com o filme “Uma Vida em Segredo” (2001), também uma adaptação literária, desta vez do autor Autran Dourado.

Todavia, foi com o filme seguinte, “Hotel Atlântico” (2009), adaptado do livro de João Gilberto Noll, que Suzana mais se aproximou de uma insolitude à la David Lynch no cinema de gênero. Um road movie com o pé na estrada cujas aventuras mais estranhas e existenciais irão acontecer com o primeiro protagonista masculino da carreira de Suzana, na pele do consagrado ator Julio Andrade (“Sob Pressão”).

Suzana estava realizando um novo filme recentemente, aos 88 anos, quando faleceu recentemente no dia 25 de junho de 2020, deixando o destino de seu derradeiro trabalho em suspenso para sabermos qual será seu destino. Esperemos que se concretize e possa ser lançado postumamente, em homenagem a esta grande realizadora que ficará para a nossa história de forma fantástica.

Confira os filmes no youtube:

“A Hora da Estrela”

https://www.youtube.com/watch?v=MBxAMJvSip0

“Uma Vida em Segredo”

https://www.youtube.com/watch?v=GjJ20VatzU4

“Hotel Atlântico”

https://www.youtube.com/watch?v=t3FPOd7KgzA

Filippo Pitanga é advogado, jornalista, curador e crítico de cinema, mestrando pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor na Academia Internacional de Cinema RJ, Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCRJ.