A Divina Marília

As críticas que eu não escrevi sobre as peças de Marília Pêra, entre 1981 e 2011, porque eu não as podia ter escrito

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13 de dezembro de 2015

Era dia 05 de dezembro, quando acordei por volta de meio-dia e recebi de forma abrupta uma das mais dolorosas notícias de perda em nossa cena teatral brasileira: – “Marilía Pêra morreu” – assim disse minha mãe, no meio de poucas palavras, no início daquela triste tarde de um sábado ensolarado! Eu, que ao acordar, necessito um mínimo de duas horas para poder alinhar o meu corpo, minha cabeça e pensamentos, levantei-me do sofá de súbito, em um misto de tontura e perplexidade. Espantado, assustado, aturdido, como que tivesse sido atingido por uma pancada em minha cabeça, só conseguia repetir por algumas vezes, para mim mesmo e para minha mãe as palavras: – “O quê? O quê? Não entendi, não entendi, o que a senhora está me dizendo?”…Como que eu precisasse ouvir de novo, ou até mesmo ouvir as minhas próprias palavras para enfim acreditar naquela trágica notícia, depois de assistir na véspera ao ótimo espetáculo “Sambra” no Teatro João Caetano, e passar grande parte do mesmo, me lembrando de Marília Pêra fazendo Dalva naquele palco. Via Marília andando pelo palco, pelas coxias, bastidores, camarins…de branco, linda, deslizando, flutuando e levitando…Vinha em minha mente, naquele momento, histórias diversas, lendas do mito…e ao mesmo tempo, estava ela lá, diante de mim, de branco, linda, com o figurino que ela cantava na última música do espetáculo: “Bandeira Branca”. Teria sido isso um aviso? Creio que sim, pois membros de minha família têm uma intuição apurada, pela herança “vidente” de minha avó paterna. Todos aqueles que me são caro, chegam até mim por diversas vias, algumas explicavéis, e muitas outras inexplicáveis. Há alguns anos atrás, passei a me perguntar como seria a minha reação diante da perda de profissionais que foram referência para a minha vida artística, além de serem supremos em nosso ofício? Marília Pêra fazia parte desta pequena galeria de intocáveis do mundo terrestre das artes…Sim, infelizmente era verdade! A notícia… Já não adiantava mais esconder de mim mesmo, o que eu já esperava. Marília Pêra, a grande, a brilhante, o monstro sagrado, uma das atrizes mais completas, e perfeitas, que o mundo teve o privilégio em assistir, acabava de se imortalizar como uma das maiores atrizes do mundo nos séculos 20 e 21. Que dor estou a sentir, e sentirei por muitos anos ainda. Quantos filmes passaram em minha cabeça, quantos momentos, quantas personagens se apresentavam em filas em minha mente embassada. Não sou afeito a distribuir palavras gratuitamente, a gastá-las em vão, ao escrever uma crítica ou artigo. Um ator ou uma atriz para merecer adjetivação superior em uma análise crítica minha, precisa de fato ser um grande intérprete ou então ter acertado, em cheio, a mão, com destreza e precisão, em uma nova construção de personagem! Entretanto, para Marília Pêra, faltarão, neste momento, palavras, adjetivos, superlativos, elogios, para poder descrever tudo, tudo o que estiver ao limite do meu alcance técnico, em poder falar humildemente de sua extrema magnitude, e primazia, no universo das artes cênicas mundiais!

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Marília Pêra como Darlene e Miguel Falabella como Ruço em “Pé na Cova”, série da Rede Globo. Nos últimos anos de carreira de Marília, foi Miguel Falabella quem lhe proporcionou seus grandes papéis no teatro (Alô, Dolly!”), na televisão (“Aquele Beijo”,” A Vida Alheia” e “Pé na Cova”) e no cinema (“Polaróides Urbanas”). Graças à ele teremos o enorme privilégio de acompanhar capítulos inteiros da série em 2015 e da próxima temporada em 2016. Gratidão eterna e os meus maiores e melhores respeitos ao grande Miguel Falabella. Muito obrigado caro Miguel! Foto de Estevam Avellar.

Aquelas primeiras horas do dia 05, mais precisamente às 06h da madrugada, marcou definitivamente o início do fim de uma era de divas em nosso teatro nacional. Uma era de grandes atrizes, de monstros sagrados, uma era de atrizes mitológicas e lendárias, assim como a francesa Sarah Bernarhdt (1844-1923), aclamada, em sua época, como a maior atriz de teatro do mundo. Uma época onde não tínhamos ainda o cinema – embora Sarah tenha participado de alguns filmes mudos, após a invenção do mesmo em 1895-, e muito menos a televisão. Bernarhdt foi uma grande referência de atriz devota, dedicada e que nutria pelas tábuas de nosso tablado um amor incondicional e irrestrito. Sarah soube como poucas atrizes no mundo valorizar o ofício e dar pleno significado à todo o glossário de palavras que definem as artes cênicas teatrais. Fé, paixão, amor, devoção, alma, entrega, coragem, audácia, dor, suor e sangue. E isto a aproximava das grandes semideusas do teatro, nesta plena existência. Bernarhdt, assim como Marília, quebrou diversos paradigmas na arte teatral. Reza a lenda que Sarah estava ensaiando um de seus espetáculos, e em tempos de marcações rígidas e esquemáticas, em linhas hierárquicas, deixou o centro do palco – até o momento o local mais nobre de toda a encenação – e resolveu fazer a sua cena em uma das laterais do mesmo. O que fez o seu diretor atônito bufar com ela: “Sarah, Sarah, o centro do palco, o centro do palco….você está errada, volte ao centro do palco”. Entretanto Sarah, mantendo-se em seu lugar, respondeu dignamente: “O centro do palco, é onde eu estou”. Desce o pano. Assim era Marília. Esta era uma das diversas pontas estelares que as uniam. Para Marília não existia tamanho de papel, lugar na cena ou veículo de expressão artística. Se Marília estava ali. naquela peça, naquele filme, naquela novela, naquele especial, naquele seriado…ela, sempre ela era o “centro do palco”. Era muito difícil olhar para outro ator quando Marília estava em cena. Ela era mágica, carismática, hipnótica, divina. Marília era uma semideusa, sem sombras de dúvida. Tinha a força de um verdadeiro Titã. Ambas viveram as suas existências cercadas de polêmicas, de ações intensas, de histórias de coxias e camarins; porém algo que jamais foi contestado em Marília, foi o seu brilhantismo e excepcional talento de atriz completa nos gêneros do drama, da comédia, do musical, com excelente preparação corporal e vocal. Todos os seus instrumentos era afinados e ensaiados à exaustão para que ela estivesse sempre pronta para brilhar, para ser uma força da natureza. “A grande arte exige amor e ódio” já dizia Bertolt Brecht. E assim era Marília! Assim, como Sarah, Marília também sacrificou e sofreu muito para poder estar em cena até o seu “último, e derradeiro, ato”. Segundo reza outra lenda, foi em uma de suas quatro turnês no Brasil, possivelmente a última, que Sarah Berhnardt sofreu um grave acidente que a levou a amputar a perna, mas que jamais a afastou do palco. Em 1905, ao encenar a peça “La Tosca”, de Victorien Sardou, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Sarah Bernhardt machucou seu joelho direito, durante a cena final em que deveria pular de um alto muro. Diz a lenda também que ela se jogava por uma quartelada aberta no palco para um colchão no fosso do teatro, e que o mesmo havia sido tirado do lugar por um contarregra, para tirar um cochilo. Maldito seja esse sono dos injustos! Sua perna não se recuperou do ferimento. Em 1915 a gangrena havia tomado conta do membro, que teve de ser amputado inteiramente. Ficou confinada por meses a uma cadeira de rodas. Assim mesmo, ela continuou sua carreira. Sua condição física a forçou a ficar praticamente imóvel sobre o palco, porém o charme de sua voz, garantia o seu sucesso. No fim do século XX, recebeu uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood e ficou reconhecida para sempre como a Divina Sarah. Assim como Sarah, Marília honrou o seu ofício com dor, sofrimento e atuando também sentada em suas últimas cenas de “Pé na Cova” – a histórica série de Miguel Falabella, o responsável pelas suas últimas e memoráveis personagens na TV, no cinema e no teatro brasileiro. Assim como Sarah Bernahrdt, Marília teve em seu último ato, a sua despedida da arte, em um cadeira de rodas. Ao terminar a sua última participação no último trabalho de sua esplêndida vida de atriz, Falabella descreveu poeticamente a sua despedida da série “Pé na Cova”: –“No seu último dia de gravação, quando ela se despediu de sua memorável Darlene, e foi sendo levada para o camarim em cadeiras de rodas, ovacionada pela técnica e pelo elenco, eu me deixei ficar atrás do cenário, porque percebi no olhar dela, que se estendia até os refletores lá no alto, que aquilo era uma despedida”.

Sarah Bernhardt. Restored by jane for Dr. Macro's High Quality Movie Scans website: http://www.doctormacro.com. Enjoy!

Sarah Bernhardt.

Marília, era única, reafirmava a cada dia o ofício do artista, renovava diariamente os seus votos de atriz, de atriz trabalhadora, de atriz operária. Nunca houve no Brasil uma atriz tão brechtiana como Marília. Brechtiana, como estrela de musicais, com a força pungente de um musical de Kurt Weill, distanciada, épica. Sua rigidez, muitas vezes incompreendida pela nossa classe artística, era do tamanho do seu talento e da sua vocação. Ela possuía todos os predicados que um grande ator precisa ter para ser grande. Nunca tivemos uma atriz tão fiel ao teatro como ela. Ela representava o teatro a todo o instante, ela era a prova viva de que a arte mais nobre e genuína, é justamente a arte teatral. Seja na TV ou no cinema, Marília sempre transbordava e irradiava o teatro, sempre sabíamos que aquilo que estávamos vendo não era uma imitação barata da vida, mas sim a própria vida sendo interpretada diante de nossos olhos atônitos e enfeitiçados por aquela força da natureza, aquele vulcão de mulher! Marília fazia parte de uma geração de atores que sabiam valorizar as palavras, o texto, a melodia, o timing, a força, as filigranas, o fraseado, a verve, a mudança brusca e repentina de estado de alma, executada sempre com uma técnica impecável e invejável em sua gestalt das palavras. Ela sabia surpreender e emocionar como poucas atrizes no mundo o fizeram, na construção de cada uma das frases de seu texto. Nada, absolutamente nada era por acaso. Era dotada de uma disciplina incomparável. Ouví-la dizer uma palavra, um pequeno texto, um grande texto, era sempre uma aula de interpretação. Uma aula magna! Ela sabia como poucas no mundo valorizar as palavras, criar uma partitura vocal, corporal, guiar os impulsos, os gestos, uma pontuação, uma separação de sílabas, o uso de uma pausa…tudo, absolutamente tudo, com perfeição absoluta. Ela nos levava juntos em suas escaladas métricas, em suas curvas sinuosas – testando e aguçando cada um de nossos sentidos, que eram acionados com maestria por ela -, como em uma montanha russa ela ia nos conduzindo vagarosamente até o topo, onde ocorria a sua explosão, a ruptura, a catarse; para depois, em seguida, descer deslizando pelas nossas mais profundas emoções e sentimentos velados e revelados.

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A Diva Marília Pêra. Foto de Caio Guimarães.

Marília teve aos seus pés, assim como Sarah, grande parte do mundo. Uma outra ponta que as une. Fez sucesso na França – terra natal de Sarah -, em Portugal, e nos EUA. Nos EUA foi aclamada por “Pixote- A Lei do Mais Fraco” de Hector Babenco; onde a crítica e os mais importantes prêmios se impressionaram pelo excelente trabalho de Marília e lhe deram as láureas de Melhor Atriz pela Sociedade de Críticos de Cinema de Boston (Society of Films Critics) e de Melhor Atriz pela Sociedade de Críticos de Cinema dos Estados Unidos (National Society of Critics Awards – USA); além do Prêmio Air France de Melhor Atriz no Brasil, pelo mesmo papel. Reza outra lenda que um dos prêmios americanos já havia sido destinado à outra atriz, pois os jurados acreditavam que Marília era uma prostituta de verdade – resultado de sua brilhante atuação realista e crua, que parecia ser uma prostituta usada dentro do recurso “in loco” -, e resolveram com isso mudar de posição para premiar a atriz com um dos prêmios mais importantes do cinema mundial. Consagração total e reconhecimento absoluto à nossa excepcional Marília. 

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Marília Pêra e Fernando Ramos da Silva na antológica cena da amamentação de “Pixote, a Lei do mais fraco” de Hector Babenco.

Marília era perfeita e soberana por suas interpretações de personalidades como a soprano Maria Callas, a cantora Dalva de Oliveira, a estilista Coco Chanel, e de Carmem Miranda, a quem interpretou cinco vezes. Guardamos de Marília uma galeria infinita de atuações memoráveis, desde “Adorável Júlia” de Somerset Maugham, que eu assisti mais de 3 vezes. Marília vivia uma importante atriz de uma Cia teatral que era envolvida, e envolvia a todos, em uma trama de interesses de jovens atores que queriam fazer parte de sua Cia e da nova montagem. Marília já era soberana no artifício do metateatro, que soube exercitá-lo como poucas em toda a sua carreira. Em uma das muitas sessões que eu fui – na época o teatro era de quarta a domingo às 21h, com uma sessão vespertina as quintas-feiras às 17h, uma sessão no sábado às 19h e no domingo às 18h. Ou seja, eram realizadas 8 funções semanais -, vi uma cena antológica, e pela primeira vez na vida, já que eu era um garoto de 16 anos, dando os meus primeiros passos no teatro aos 14 anos. Estava eu sentado nas primeiras filas, e entrou uma moça com cinco minutos de peça iniciada. Marília, que estava em cena, começando a descer as escadarias do cenário no saudoso Teatro do Copacabana Palace, parou a cena do espetáculo e pediu à todos que esperassem a moça encontrar o seu lugar e sentar. Para assim ela dar prosseguimento ao espetáculo. Aplausos calorosos à ela. Cortinas fechadas, e a cena foi repetida. Era a primeira vez que eu assistia uma posição tão firme e contundente sobre o respeito no teatro e a pontualidade. Marília era um exemplo de postura profissional, e defensora de nossos melhores princípios. Ela foi para todos nós um modelo à seguir. Uma bússola a nos conduzir.

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Marília Pêra em “Adorável Júlia”.

“Brincando em cima daquilo” trouxe Marília em um monólogo dinâmico, com pegada política, em que ela vivia várias mulheres em sua luta contra a repressão, o machismo e o idealismo. Nesta peça ela inovava mais uma vez na questão da pontualidade do público. Lembro-me que após a experiência em “Adorável Júlia” ela resolveu iniciar o espetáculo de Dario Fo e Franca Rame, no palco. Já em nossa entrada, sem as famosas cortinas fechadas, ela ficava monitorando a hora de começar a peça – interagindo com a plateia, como eu também nunca havia visto antes -, e dizendo-nos que depois do horário ninguém mais entraria na sala de espetáculos. Na existência artística de Marília, nada era banal, fútil, sem propósito. Ela fazia sempre do teatro um acontecimento, um grande espetáculo. Sabia valorizar como ninguém o belo ato de estar em cena. Com ela aprendemos a amar o teatro, a defendê-lo, a respeitá-lo. Marília gostava de chegar horas antes da(s) função(ções). Ela seguia um rito especial, e único, em sua preparação para entrar em cena.

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Marília Pêra em cena de “Brincando em Cima Daquilo”. Foto de João Caldas.

Em a “Estrela Dalva” de Renato Borghi, Marília encarnou uma Dalva forte, decidida, sofrida, guerreira e atingiu um nível vocal invejável, cantando no mesmo tom de voz afinada, e bela de Dalva de Oliveira, considerada a Rainha da Voz ou o rouxinol brasileiro, devido a sua extensão vocal que ia do contralto ao soprano. Com força, pungência, carga dramática, brilho, disciplina e teatralidade, Marília nos deixou sem ar, com o coração acelerado e esmagado por tanta dramaticidade visceral, aliado a um humor brejeiro, de uma comicidade impecável, em tempos perfeitos de cumplicidade com a plateia.

Brasil, Rio de Janeiro, RJ. 13/08/1987. A atriz, cantora e diretora, Marília Pêra, é vista em cena durante apresentação da peça "A Estrela Dalva" no Rio de Janeiro. Pasta: 5015 - Crédito:J. Fernandes/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Codigo imagem:28684

Em “Elas por ela”, roteiro de Geraldo Carneiro, Marília interpretou magistralmente uma série de cantoras brasileiras, em uma base de 35 delas. De Carmem Miranda a Clementina de Jesus, passando por Araci de Almeida, Angela Maria, Dalva de Oliveira, Nana Caymmi, Dolores Duran, Wanderléa, Nara Leão, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Elis Regina, entre outras. Em cada uma delas imprimia meticulosamente todas as almas, trejeitos, timbres vocais e texturas, com louvável magnetismo.

http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/musicais-e-shows/elas-por-ela.htm

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Fotos e vinis da peça “Elas por ela”.

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Marília Pêra diante do display com uma das cantores vividas em “Elas por ela”.

Tinha a grande capacidade em ser uma mulher altamente sofisticada como Maria Callas em Master Class “ de Terence McNally, que estreou na sala Marília Pêra do Teatro do Leblon, zona sul do Rio, em 1997. Sua postura, seu corpo trabalhado de bailarina lhe davam grande altivez, além de gestos meticulosamente estudados, e altamente teatrais, sem deixar de falar em sua bela capacidade vocal, o seu canto visceral e profundo. A Maria Callas de Marília apresentava doses de tirania, arrogância e extrema exigência. A sua tirania, surgia de um humor amargo de Callas que começou a cantar aos 14 anos, vinda de uma família pobre, e para chegar ao topo, teve de se submeter a uma rígida disciplina. Por isso, ela não tinha paciência com quem não se dedicava totalmente ao trabalho. Assim foi a grande construção da personagem de Marília, que brilhante em cena, se igualava em genialidade ao mito Maria Callas. Marília era perfeita e soberana por suas interpretações de personalidades como a soprano Maria Callas, a cantora Dalva de Oliveira e a estilista Coco Chanel no teatro, Marília se especializou no papel de Carmem Miranda, a quem interpretou cinco vezes.

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Marília Pêra como Maria Callas.

Sua interpretação de “Mademoiselle Chanel”  de Maria Adelaide Amaral também foi muito elogiada pela crítica, inclusive a francesa, onde os jornalistas franceses demonstraram surpresa com o fato de uma peça sobre a história da França, sobre um mito francês, ter sido tão bem escrita e dirigida por estrangeiros. A montagem, a produção primorosa e a brilhante interpretação de Marília foram noticiados pelos jornais, revistas e televisões locais. A atriz se apresentou em Paris de 24 de junho a 2 de julho de 2005, no Teatro Comedie dês Champs-Elysée, foi aplaudida de pé pelos parisienses em todas suas apresentações, em português com legenda em francês; e recebeu elogios inclusive de Karl Largfeld, e da alta cúpula da Maison Chanel, que confeccionou os figurinos em Paris.

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Marília Pêra como “Mademoiselle Chanel”.

Em“Gloriosa” de Peter Quilter Marília pôde fazer mais um magnífico papel, onde eu fui até ao Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, para assistí-la! Marília dava vida a uma cantora desafinada e um show de competência ao ter que se desconstruir como uma ótima e afinada cantora que era. Para os números de canto era preciso que Marília desafinasse e errasse em árias como “Mein Herr Marquis” e “A Rainha da Noite”, entre outras; e guardando para o grand finale uma belíssima surpresa, para quem a viu dar um show às avessas, anteriormente: a interpretação perfeita de Ave Maria, onde podemos ver todo o seu brilho, talento, afinação e devoção. Uma cena antológica!  Mais uma dentre centenas de cenas, e personagens, que Marília esculpiu, pintou, desenhou, criou, interpretou e viveu. Uma galeria notável e inigualável.

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Marília Pêra em Gloriosa.

Marília Pêra se apresentou também em Portugal com a peça “Herivelto como conheci”baseado no livro homônimo de Cacau Hygino e Yaçanã Martins, no Teatro D. Maria II, onde foi cravada em suas paredes, uma placa em sua homenagem, levando a sua arte para mais um pedacinho deste mundo que pôde se deleitar com o seu talento, versatilidade e brilho intenso.

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Marília Pêra em “Herivelto como conheci”.

Em “Alô Dolly” de Michael Stewart Marília alcançou o seu auge no teatro brasileiro e musical. Absolutamente dona do palco, exercitando o seu tempo de comédia esplêndido, mesclando com o seu perfeito talento como atriz e cantora. Uma das mais belas atuações da gigante Marília. Estupenda em todos os sentidos como a casamenteira Dolly Levi!

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Marília Pêra como Dolly Levi e Miguel Falabella como Horacio Vandergelder em “Alô, Dolly”! Último grande papel teatral de Marília. Foto de Paula Kossatz.

Outro grande momento para mim, foi também ter assistido a leitura antológica de “Fala baixo senão eu grito” de Leilah Assumpção no Teatro da Praia, em um dos projetos mais marcantes do Sated/RJ: “Os Anos do Silêncio”. Através dele eu pude ver a sua interpretação do texto montado em 1969, que lhe rendeu os seus primeiros prêmios no teatro nacional: Prêmio de Melhor Atriz de Teatro pela APCA, pelo Governo do Rio de Janeiro e o seu primeiro Prêmio Molière.

Ao todo em sua carreira foram mais de 40 prêmios de atriz. Sendo 3 prêmios internacionais do maior quilate: Sociedade de Críticos de Cinema de Boston (Society of Films Critics), Estados Unidos, Sociedade de Críticos de Cinema dos Estados Unidos (National Society of Critics Awards – USA) Menção como uma das Melhores Atrizes da década pela Sociedade de Críticos de Cinema dos Estados Unidos, 6 APCA, 3 Molière, 3 Mambembe, 2 Shell, 1 Sharp, 1 Eletrobras, 2 Arte Qualidade Brasil, 1 Prêmio Faz a Diferença, 1 Governo do Rio, 2 Air France, 3 Kikito, entre tantos outros. Uma carreira recheada de prêmios, reverências e reconhecimentos, como poucas atrizes tiveram no mundo.

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Marília Pêra recebeu das mãos de seus filhos Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Moreno Motta, a maior comenda do cinema brasileiro: o Troféu Oscarito. Uma de suas últimas aparições públicas. Foto de Edison Vara.

O mês de dezembro, é marcado definitivamente, em minha vida, como o mês das primeiras perdas mais significativas de minha vida. Minha avó italiana Ermelinda Lo Bianco, que foi cantora de coral de igrejas, nos deixou em um dia 10 de dezembro, e o meu avô alemão Walter Heinrich Reinhold Schöpke, que foi fotógrafo e cartógrafo, nos deixou em um dia 23 de dezembro; ambos foram os responsáveis diretos em refinar o meu gosto pela arte, e a me ensinar também o amor à ela. Com pesar, terei também agora a presença da inesquecível Marília Pêra, que nos deixou neste fatídico 5 de dezembro, e também a levarei para toda a minha vida, até a eternidade, a quem me ensinou a amar o teatro grandemente. Para sempre eles serão a minha família na vida e na arte.

Obrigado, muito obrigado por absolutamente tudo bela Marília!

Jamais, jamais me esquecerei de você, de sua arte, das nossas várias conversas ao telefone para negociarmos o “Projeto Drummond” e a direção de “Caminhos de João Brandão- REMIX”, que acabamos não conseguindo realizar juntos. Muito, muito obrigado pelas suas palavras e pela sua grande generosidade e atenção naquele momento! Entre vários, este foi um dos momentos mais íntimos e ternos que tivemos. 

O teatro de todo o mundo sofre, e chora, uma de suas mais sentidas perdas, uma de suas filhas mais devotas nos deixou! O teatro mundial está órfão! Agora, e para sempre, teremos além de a Divina Sarah, a nossa Divina Marília!

Divina Marília! Para todo o sempre! 


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