As Escolhidas

por

06 de outubro de 2015

Filme produzido por Gael García Bernal e Diego Luna, atores mexicanos com boa reputação no cinema internacional, “As Escolhidas” remexe em uma chaga difícil de ser combatida não somente México ― o tráfico de mulheres para a prostituição. Dirigido por David Pablos, que teve seu filme “A Vida Depois” (2013) exibido no Festival do Rio 2013, “As Escolhidas” impressiona ao conjugar a deformidade moral de seus vilões com uma direção precisa, muito bem arquitetada para ceder significado às imagens produzidas, principalmente nas cenas da indigna violação de Sofia (Nancy Talamantes), garota de programa com apenas 14 anos de idade. Em Tijuana, no México, os métodos de atuação e a própria constituição do grupo mafioso que trafica mulheres desperta o choque por sua monstruosidade. Trata-se de uma família, na aparência igual a qualquer outra, mas que se sustenta com a exploração das vítimas que se oferecem, sob ameaças constantes, em um bordel clandestino. “As Escolhidas” sabe manipular com primor as duas faces da mesma moeda. O filme opõe, a todo o momento, a humanidade das prostitutas e o exato antônimo dessa característica, expressado pelos algozes.

A cena escolhida para inaugurar o filme não poderia ser mais representativa ― nela, estão os apaixonados Ulises (Óscar Torres) e Sofia em um quente momento de intimidade. A exibição da reação infantil da garota aos beijos preliminares de Ulises torna-se pungente diante do destino que a espera. Ela não faz ideia, mas o namorado é uma peça fundamental movida pela hierarquia de sua família criminosa.  Como marionete nas mãos do pai Marcos (Edward Coward) e do irmão mais velho Hector (José Santillán Cabuto), o rapaz se vê diante de um dilema ao se apaixonar por Sofia, a caça da vez. Ele tenta fugir com a menina e até almeja o sonho americano do país vizinho, mas não consegue e é castigado pela ousadia. No entanto, um acordo doentio firmado com seu pai pode trazer Sofia de volta: ele deve ir atrás de outra menina para substituí-la no prostíbulo. Assim, Ulises volta a agir e conquista Marta (Leidi Gutiérrez) com atenção, carinhos e regalias a fim de enredá-la em definitivo na teia insidiosa. Terror da pior espécie é aquele perpetrado pelo lobo em pele de cordeiro, mensagem que o filme faz questão de reiterar. No que tange à direção cirúrgica de David Pablos, é preciso destacar a preferência pela sugestão da violência, método ainda mais eficiente do que escancarar o ato em si. Quando Sofia já está subjugada nos domínios da prostituição involuntária, no quarto com um desconhecido, a câmera de Pablos é incisiva e encara o rosto da atriz. Ela ainda não entregou seu corpo ao cliente que aguarda, mas os sons do sexo posterior se antecipam, complementando a frieza da imagem. A cena de cunho artístico, onde o abuso é exposto por meio simbólico, traça um paralelo com a perda de identidade de Sofia. A partir de sua captura, ela é Andrea, uma transformação que a personagem acaba aceitando para sobreviver. Ao provocar no espectador a repulsa pelas terríveis motivações desdobradas no enredo, sem desprezar o requinte na direção, “As Escolhidas” cumpre com sua função de fazer o espectador refletir ― a realidade das meninas encarceradas é pulsante, mas constantemente negligenciada.

Festival do Rio 2015

Première Latina

Las Elegidas, México, 2015, 107’

David Pablos

Elenco: Nancy Talamantes, Oscar Torres, Edward Coward, José Santillán Cabuto, Leidi Gutiérrez


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52