As Filhas do Fogo

Road movie pornô lésbico de Albertina Carri é puro tédio e muito sexo

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15 de março de 2019

Três mulheres fogem rumo a uma jornada poliamorosa em busca de prazer e diversão sem amarras sociais. Após voltar de uma longa viagem, Violeta narra as aventuras das Filhas do Fogo, um grupo de mulheres em busca de seu próprio erotismo, enquanto produz um filme pornô pelos caminhos aonde a estrada as leva. “As Filhas do Fogo” de Albertina Carri, com roteiro escrito em parceria com Analía Couceyro, nada tem a ver com o suspense homônimo de 1978 do cineasta brasileiro Walter Hugo Khouri. O longa de Carri é um grito de empoderamento feminino em forma de road movie pornô, onde preconceitos, julgamentos, moralidades e limites não entram. Há uma celebração de corpos fora do padrão imposto pela sociedade; corpos de todos os tipos, formatos, cores, gêneros e sexualidades ligadas ao universo feminino.

No início do longa, a rápida presença masculina é encarnada com muita violência e preconceito, sendo logo vencida e descartada para dar lugar apenas ao amor e ao prazer feminino, que permanecem até o fim. O que começa como um soft porn metalinguístico, com subtramas bem curtas seguidas de cenas orgânicas de sexo explícito com constante narração de Violeta com apelo poético, vai se transformando numa enorme e crescente orgia lésbica, que vai se perdendo ao longo do filme, cuja falta de sentido passa a se assimilar à dos filmes pornôs tradicionais voltados ao público masculino com foco no sexo em si – pode ser Carri nos dizendo que as mulheres também gostam de assistir a algo sem sentido de vez em quando por puro prazer. No terceiro ato, já não há história, mal há diálogos (apenas a narração em off), nem propósito além de mostrar várias mulheres nuas que mal se conhecem, ou não se conhecem mesmo, realizando seus desejos sexuais mais íntimos, como se a vergonha tivesse sido abolida da face da Terra. A partir daí, “Las Hijas del Fuego” (no original) entra num universo utópico onde, aparentemente, todas as mulheres sentem atração sexual e romântica umas pelas outras e não existem ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), já que não há nenhum tipo de preocupação com proteção durante os inúmeros atos sexuais com mulheres desconhecidas que foram sendo encontradas na entrada durante a viagem.

Vencedor do prêmio de Melhor Filme Argentino no Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires 2018 (BAFICI), “As Filhas do Fogo” tenta ser uma catarse erótica de libertação feminina contra a ditadura de regras e padrões sociais, mas acaba caindo no tédio e cansa o público com o excesso de cenas de sexo explícito sem contexto e com a adição de tantas personagens secundárias e figurantes que surgem do nada somente para participar das orgias lésbicas. Nos minutos finais, Carri consegue transmitir o seu real propósito com essa produção. A intenção pode até ter sido boa, mas o resultado final não convence e deixa muito a desejar.

As Filhas do Fogo (Las Hijas del Fuego)

Argentina – 2018. 115 minutos.

Direção: Albertina Carri

Com: Cristina Banegas, Andres Ciavaglia, Sofía Gala, Disturbia Rocío, Mijal Katzowicz, Violeta Valiente, Rana Rzonscinsky, Canela M. e Ivanna Colonna Olsen.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 2